Review 2018: #36 – Wildling

Um conto sobre lobisomens diferente, mas nem tanto


Com suas origens lá na Mitologia Grega, os contos envolvendo licantropia geralmente transmutam os conflitos internos do personagem em algo primal e selvagem, como se seu animal interior fosse mais forte e ganhasse a eterna luta entre instinto e sociedade, e expusesse aquilo que o homem tem de pior. Tem sido assim desde então, passando pela literatura, quadrinhos e cinema. São séculos de exploração de uma temática que parece esgotada, mas que, vez ou outra, ainda consegue alguns lampejos de originalidade. Wildling, longa de estreia do diretor Fritz Böhm, se encaixa nesta categoria.

Wildling parte de uma premissa que, embora encontre paralelos em filmes como Possuída, Quando os Animais Sonham e Raw, consegue tirar alguma novidade da velha tradição cinematográfica da licantropia: uma garotinha é criada no isolamento total, apenas na companhia do seu pai (Brad Dourif), como forma de protegê-la de criaturas devoradoras de criancinhas chamadas widlings. Com o passar do tempo, a garotinha atinge a puberdade e passa a sofrer de uma misteriosa doença, que obriga seu pai a medicá-la diariamente, e em vão. Ao perceber a inutilidade de seus atos, seu pai tenta o suicídio, deixando a agora adolescente Anna (Bel Powley) sozinha.

A partir daqui, o filme entrega sua primeira reviravolta, passando do que se acreditava ser um filme de horror apocalíptico para algo muito mais interessante, pelo menos conceitualmente. Widling então se torna uma fantasia dark sobre amadurecimento e o despertar da sexualidade feminina na adolescência. Anna é encontrada pela polícia e, sozinha no mundo, fica aos cuidados da policial Ellen (Liv Tyler), enquanto as investigações sobre suas origens decidem o seu futuro. A partir daqui, o filme explora as mudanças físicas e psicológicas da personagem, cujo amadurecimento sexual era impedido quimicamente por seu pai através de injeções constantes de bloqueadores hormonais.

E se eu der um boneco Bonzinho de presente para ela?

O ponto alto do filme é acompanhar o despertar de Anna através da excelente interpretação de Bel Powley. Seu olhar inocente, perdido e assustado, aos poucos assume a intensidade de uma jovem mulher que descobre o sexo e as dificuldades da vida de maneira brusca e violenta. Há algo de abuso físico e psicológico nas entrelinhas no convívio de Anna com seu pai. Powley transmite esta passagem psicológica e fisicamente, mudando sua voz e sua postura, de maneira encantadora, tornando impossível não torcer pela personagem quando ela descobre que sua “doença” na verdade é algo muito mais perigoso para quem a cerca do que para ela mesma.

Porém, enquanto Fritz Böhm se esforça em entregar algo novo, alguns clichês, como o homem vestido de lobo na floresta, são bobos demais em meio à fábula metafórica séria que a película se propõe a ser. A partir de certo ponto, o telespectador mais escolado já saca o que está acontecendo e consegue antecipar as cenas e as reviravoltas com antecedência. A falta de um elenco mais inspirado para contracenar com a personagem principal, encabeçado por uma apática Liv Tyler, também não consegue prender a atenção da maneira que deveria.

Há alguma violência e sangue pontuando o filme, que possui uma ótima maquiagem e efeitos visuais, mas o fã do horror pode acabar se decepcionando com Wildling se estiver procurando um filme tradicional de lobisomem. A fotografia, a trilha sonora e o elenco, com cara de produção indie, colocam o nome de Fritz Böhm como um diretor que pode valer a pena acompanhar para ver onde sua pegada autoral pode chegar, mas cinematograficamente falando, serve apenas como curiosidade por se tratar de mais um filme de lobisomem que até tenta quebrar paradigmas, falando de sexo, abuso e descoberta, mas ainda se perde em meio às convenções de um gênero desgastado.

2,5 caninos saltitantes para Wildling

Caninos brancos


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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