Review 2018: #37 – A Noite Devorou o Mundo

Quando a solidão se torna uma linda e reflexiva experiência humana


A cultura do desapego está cada vez mais crescente no planeta, já diria Bauman. A Noite Devorou o Mundo, longa de estreia de Dominique Rocher, que está em cartaz nos cinemas brasileiros, após causar burburinho no Festival de Tribeca e no Festival Varilux de Cinema Francês deste ano, vai além deste vazio… Muito mais além…

Acompanhamos a trajetória de Sam (Anders Danielsen Lie), um rapaz que foi a uma festa buscar seus pertences e acabou dormindo por lá e quando acorda, vê a casa revirada de ponta-cabeça e os convidados, outrora humanos, agora são zumbis violentos sedentos por sangue. O plot simplório que se desenvolve em menos de 10 minutos faz com que o espectador se pergunte: e agora?

Sam se vê obrigado, do dia pra noite, a sobreviver em meio à um mundo pós-apocalíptico e, mesmo sem nenhum trejeito para herói da humanidade, a esperança de que ele não seja o único sobrevivente em todo o planeta  faz com que ele faça daquele antigo prédio sua fortaleza para conseguir se sustentar pelo maior tempo possível. Uma Paris cheia de monstros, mas ao mesmo tempo vazia, evidencia a sensação de solidão em meio à multidão. Desde o começo nos vemos transportados para aquela situação, traçando uma conexão que tem relação do cotidiano, construindo a metáfora da história que se torna inevitável.

A Noite Devorou o Mundo não se preocupa em aliviar sobre o estudo comportamental e relações humanas que diariamente convivemos, com a solidão como pano de fundo, mas sim faz questão de jogar na cara de que mesmo em um mundo conectado e de fácil relações sociais, estar sozinho é inerente a todos.

Admirando a vastidão da solidão

Sam, demarcando o agora seu prédio e racionando comida, água e aproveitando o simples, demonstra que pode ser um maravilhoso estilo de vida aceitável. Em meio às discussões abertas sobre a solidão, ansiedade e depressão, o longa de Rocher vem bem a calhar para traçar atitudes dentro do dia a dia, e que o espectador faça uma pequena reflexão sobre o que realmente importa nesta vida.

Os efeitos especiais, todo artesanais, são um desbunde a parte. Mesmo que não seja um filme com bastante gore, ainda mais se tratando do subgênero zumbi, o que se vê, quando necessário, é de encher os olhos para os mais saudosistas e defensores dos efeitos práticos. Pessoas com mordidas, ou membros faltando são realmente muito bem feitos e não decepcionam.

A fotografia, por sua vez, flutua entre a linda, mas fria, Paris e os cômodos vazios e solitários do grande prédio. A cinematografia monta ambientes simples que se tornam aconchegantes e o mesmo tempo sombrios. Cenas como a panorâmica visão da Cidade Luz vista do terraço até o “estúdio” improvisado, serão lembradas pelo espectador como sublimes e maravilhosas, além do toque emocional e crítico que toca no fundo do coração e seu final surpreendente e tenso, com uma leve pitada de esperança.

Baseado no livro homônimo de Pit Agarmen, A Noite Devorou o Mundo se mostra um filme de sobrevivência e zumbis que, mesmo não sendo inventivo ao ponto de se tornar uma obra-prima, é um exercício reflexivo que se faz necessário num mundo tão cheio e vasto, quanto solitário e vazio.

4 solos de bateria para A Noite Devorou o Mundo

Como será ter o mundo só pra nós dois?


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

1 Comentário

  1. José Santos disse:

    Onde tem o link de down?

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