Review 2018: #38 – Perigo na Escuridão

Como transformar um dos mais brutais filmes do new french extremity num suspense modorrento higienizado


Uma das principais discussões calorosos sobre os remakes, e sua necessidade ou não de existir, é que a repaginação de uma obra é válida quando ela tem algo a acrescentar e trazer um novo olhar sobre o produto audiovisual, que sejam detalhes novos na trama, adição de elementos ou atualização de conceitos, roteiro ou efeitos especiais para uma nova geração. Refilmar apenas por refilmar, não vale de absolutamente nada.

Pior ainda, são os casos em que uma refilmagem pega uma das obras mais brutais, sangrentas e intensas do chamado new french extremity, lançado há pouco mais de 10 anos, e a transforma em um suspense modorrento, dispensável, e o mais revoltante, totalmente higienizado. Esse é o caso de Perigo na Escuridão, o remake de A Invasora, da dupla Julien Maury e Alexandre Bustillo, que chegou de mansinho na última sexta-feira 13 nos serviços de streaming da vida (Now, Vivo, Google Play e iTunes).

Quem já assistiu ao espetáculo de violência e gore francês, sabe muito bem de como esse filme é visceral (literalmente). Se você teve a oportunidade de ouro de ver essa pérola, passe longe da refilmagem tacanha. Agora, se você não a viu, para ter como referência os litros e litros de sangue gastos no original do país bicampeão mundial no último domingo, passe longe da mesma forma, pois essa tranqueira não serve nem como suspense para ser exibido no Supercine.

Agora, o que mais me deixa confuso com a existência desnecessária de Perigo na Escuridão (que ganhou um título em português tão lastimável quanto ele merece), é que ele não é um filme americano, povinho que ADORA pegar um original espetacular e transformar em um enlatado em língua inglesa feito sob medida para seu público consumidor médio com preguiça de ler legenda. Ele na real é um longa espanhol, catalão, para ser mais preciso, e PASMEM, seu roteiro foi escrito por Jaume Balagueró, sim, aquele mesmo de REC, Enquanto Você Dorme e do recente Muse, a seis mãos, junto com Manu Díez e Miguel Ángel Vivar, responsável também pela direção.

Vai uma cesária aí?

A trama é basicamente a mesma: uma jovem Sarah Clarke (Rachel Nichols) está grávida quando sofre um acidente de carro que tira a vida de seu marido. Ela sobrevive, mas perde grande parte da audição, obrigando-a a usar um aparelho auditivo da Telex. Na véspera do Natal, e do nascimento da bebê, sozinha em casa, ela é perseguida por uma sádica mulher vestida de preto que invade sua casa, querendo roubar o rebento de seu ventre para ela.

Fico deveras emputecido com esse aborto cinematográfico (desculpem o trocadilho) pela forma como ele é completamente asséptico, com uma mísera gotinha de sangue aqui e acolá, feito para agradar censor do MPAA, não é possível. É exatamente a mesma coisa que cometeram no remake americano de Martyrs, um TRASH MODERNIZADO violento pacas do (nem tão) novo cinema extremo francês. Aliás, os dois padecem de outro mal: quando rola uma ponta de liberdade do roteiro, e os realizadores poderiam criar algo novo e diferente, é uma verdadeira cagada na cabeça do público.

Sem maldade, o final de Perigo na Escuridão é das coisas mais boçais que já vi na minha vida. E olha que já vi coisa boçal para mais de metro. Não basta o filme inteiro ser um thriller insosso, o final, aquela cena na piscina, entrega com louvor o diploma de trouxa para o pobre diabo que ficou ali assistindo tamanha audácia. E falo isso sem sequer me atrever a comparar com o retardado e absurdamente gráfico final de seu predecessor, e sim, apenas tratando-o como um filme “original” e aleatório.

Resumo da ópera-bufa: nada se salva em Perigo na Escuridão, e melhor mesmo é assistir novamente A Invasora. É exatamente isso que estou fazendo agora que terminei esse texto: dando o play no filme de Maury e Bustillo novamente enquanto digito este ponto final.

 

1/2 tesourada na porta para Perigo na Escuridão

Queria uma anestesia também pra assistir a esse filme…


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

1 Comentário

  1. Waldir Segundo disse:

    Tem uma coisa na construção de personagem do novo martyrs que me atrai mas eu sou doido rs

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