Review 2018: #40 – Mary Shelley

Cinebiografia mostra a vida da escritora que revolucionou o sci-fi e o terror


Pode se dizer que, de certa forma, as mulheres moldaram o horror, em todas as suas plataformas, como o gênero que conhecemos hoje. Sim, começo o review de hoje com essa afirmação, tendo a certeza de que muita gente ainda discorda sobre, infelizmente. Apesar de ser considerado um gênero tabu, ainda nos dias de hoje, visto como algo impuro, sujo, agressivo, completamente o oposto que a sociedade espera do sexo feminino, é certo afirmar que nós, mulheres, somos grande fatia desse mercado, seja consumindo ou produzindo.

É claro que, durante anos, fomos condicionadas a sermos meros objetos, sempre em segundo plano, tanto no cinema quanto na literatura. Felizmente, com o passar do tempo, fomos deixando de lado aquele arquétipo da moça indefesa que sempre se vê em apuros nas mãos do vilão (na maior parte do tempo nuas, para aumentar não só a objetificação, como também nossa suposta fragilidade). Fomos progredindo não só em relação a essas personagens femininas nos filmes e livros, evidentemente, como também na produção desse tipo de material.

A ficção abre para nós, mulheres, caminhos para lidarmos com muitas questões pertinentes a coisas que vivenciamos, como as violências e agressões sofridas por nós (como no excelente Vingança), como lidamos psicologicamente com as pressões da sociedade (The Babadook, por exemplo) ou, até mesmo, sobre a nossa força interior e empoderamento (como visto em The Love Witch). Acabei de citar, brevemente, três exemplos de filmes feitos sobre mulheres e, o mais importante de tudo: dirigido também por mulheres, mesmo que nós não sejamos estritamente o público alvo, já que não importa a quem a obra atinja, o importante mesmo é mostrar que somos igualmente capazes de produzir esse tipo de conteúdo com maestria.

Vendo você beijar outras bocas.

Fiz essa introdução, no entanto, para destacar a importância de termos mulheres contando a história de outras mulheres, principalmente quando uma delas é a prova cabal da afirmação que fiz no começo desse review. Em Mary Shelley, filme mais recente da primeira cineasta mulher da Arábia Saudita, Haifaa Al Mansour, vemos um pouco sobre a escritora britânica que revolucionou a ficção científica ao publicar, aos dezoito anos de idade, a sua maior obra prima “Frankenstein”.

O fato de conhecermos a história da verdadeira mãe da criatura que saiu das limitações que o terror oferece e foi alçada ao imaginário popular, amplamente explorado pela indústria cultural ao longo dos séculos, pelas mãos de outra mulher que também quebra paradigmas, é que faz com que a película seja tão importante e cheio de sutilezas.

No filme, conhecemos a jovem Mary Wollstonecraft Godwin (Elle Fanning), filha de escritores com certa prestígio na Inglaterra, e que desde pequena foi criada num ambiente onde foi sempre estimulada a ler e escrever muito. Mesmo tendo perdido sua mãe muito precocemente, Mary criou um vínculo muito forte com a mesma, passando horas em sua lápide, exercitando sua escrita. Com sua madrasta, no entanto, o relacionamento é bem diferente e, numa dessas brigas, seu pai William (Stephen Dillane, o Stannis Baratheon de Game Of Thrones) acaba mandado-a passar um tempo na Escócia, a fim de aprimorar sua escrita e se encontrar politicamente.

Lá, ela conhece o já renomado escritor Percy Bysshe Shelley (Douglas Booth), com quem acaba se envolvendo afetivamente. Tudo o que vemos a seguir, é a jovem Mary se relacionando com um cara extremamente escroto, que leva uma vida bem diferente da imaginada por ela, e todas as consequências desse relacionamento, que foram fundamentais para que a jovem tivesse material para escrever.

Uma vez que seu pai descobre que Percy já é casado com outra mulher e pai de uma garotinha, ele proíbe os pombinhos de se envolverem, mas já era tarde. Mary decide, então, fugir com o escritor, levando consigo sua meia-irmã, Claire Clairmont. O casal vai vivendo num espiral de inconstâncias, tanto psicológicas e amorosas, como financeiras, o que acaba culminando inclusive na morte da pequena filha do casal, Clara.

Nesse momento de total fragilidade, com o poeta enfrentando uma fase de ostracismo e ambos tendo que lidar com o luto, decidem aceitar o convite de Lord Byron (figura importante do romantismo e amigo pessoal de Percy) para passarem um verão em Genebra, na Suíça.

The Monster Squad

Bom, se você conhece o mínimo da história da escritora, sabe que foi justamente nesse verão que Mary Shelley escreveu seu primeiro livro, “Frankenstein: ou O Moderno Prometeu”, numa disputa de contos assustadores entre Percy, Byron e John Polidori, do qual saiu vitoriosa. Mary usou todas as dores vivenciadas por ela, como a ausência de sua mãe, a perda precoce de sua filhinha que acarretou em uma severa depressão, a saudade da convivência familiar em sua obra, tudo isso de maneira visceral em seu livro. Todos os questionamentos envolvendo vida e morte, que ela mesma nutria depois do parto, são direcionados para as páginas, como uma maneira que a escritora tenha achado de lidar com seus próprios monstros interiores.

Não obstante, mesmo após concluir a escrita, ainda passou por algumas situações desagradáveis, já que seu livro inicialmente foi publicado de maneira anônima e o fato de Percy, agora já seu marido, ter assinado a introdução, fez com que muitas pessoas duvidassem da real autoria da obra. Apenas anos depois, já na segunda edição do livro, é que o erro foi corrigido e o título da autora da obra, Mary Shelley, foi finalmente revelado para o mundo.

É sempre muito complexo analisar um filme quando o mesmo é baseado em fatos reais, justamente pela variação dos acontecimentos reais e ficção, e por toda a liberdade poética presente em alguns momentos. Apesar de o longa ser focado (mais do que eu particularmente gostaria, confesso) no relacionamento do casal, o filme é essencial para que o mundo tenha um pouco mais de contato com a história dessa mulher forte e que viveu muito à frente de seu tempo.

Recordo que, na minha adolescência, facilmente encontrava livros que contassem as histórias de vidas de escritores como Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, mas agora, analisando depois de adulta, noto que tive pouco contato com a obra da escritora inglesa, bem como de tantas outras autoras e suas histórias de vida, fato esse que já na vida adulta eu tento corrigir com certo afinco.

Em tempos atuais, é extremamente necessário que se crie essa identificação com as mulheres que vieram antes de nós e fizeram história, e Mary Shelley cumpre sua função, de gerar reconhecimento para a história da criadora da ficção científica, mostrando sua relevância para a literatura até mesmo hoje, séculos depois, e, principalmente, mostrando que mesmo além de toda sua importância na história, ela sempre foi, assim como eu e muitas, uma mulher comum apaixonada pelo horror.

3,5 Monstros de Frankenstein para Mary Shelley

Deixa eu correr pois os monstros não se fazem sozinhos…


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

3 Comentários

  1. Amanda Leonardi disse:

    Resenha maravilhosa, adorei! Estava curiosa mesmo pra ler mais sobre esse filme.
    Só uma dúvida: sabe se ele vem para os cinemas por aqui no Brasil ou se vai direto para streaming/dvds?

  2. Douglas disse:

    Shelley criou meu monstro preferido, frankenstein lida com questões da bioética antes de esse termo existir hehe.
    Também to curioso pra saber se sai em cinemas ou pelo menos plataformas de streaming.

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