Review 2018: #41 – O Diabo e o Padre Amorth

Entre a realidade e a ficção, opte pelo segundo!


William Friedkin, diretor de O Exorcista, pedra angular do subgênero, está sentando frente a frente com Jeffrey Burton Russell, historiador medievalista, cientista da religião e autor de “O Príncipe das Sombras”, questionando-o sobre o fato dele estar preocupado com o interesse do cineasta sobre o assunto. A resposta do estudioso foi que as as pessoas devem ficar longe do tema o tanto quanto possível. Porque quanto mais você se abrir para essas coisas, está dando mais espaço para o sobrenatural, para o mal entrar.

Pois bem, Friedkin manja dos paranauê sobre exorcismo, pelo menos sobre o ponto de vista cinematográfico, já que o cara dirigiu um dos mais importantes e memoráveis filmes de terror de todos os tempos. Mas, fato é que apesar de ter se interessado pela história real que William Peter Blatty se inspirou para escrever seu best-seller (que é contado em Exorcismo, publicado aqui em PT-BR pela DarkSide Books), mais de quatro décadas depois do lançamento de O Exorcista, ele nunca havia visto um ato de expulsão demoníaca do corpo de um possuído.

Até os acontecimentos relatados em O Diabo e o Padre Amorth.

Disponível desde o começo da semana na Netflix, o documentário de Friedkin acompanha Gabriele Amorth, um padre exorcista italiano de 91 anos, que trava uma batalha espiritual contra o Mochila de Criança que possuiu Cristina, uma arquiteta de 46 anos que vive em uma aldeia nas montanhas há 320 quilômetros de Roma. Detalhe: já foi exorcisada pelo sacerdote OITO vezes, sem sucesso.

A nona, foi registrada por Friedkin com uma handcam. O diretor é amigo do padre desde que o pontífice assistiu a O Exorcista e escreveu uma carta agradecendo-o pelo serviço de utilidade pública prestado para a Igreja Católica com seu filme, apesar do exagero pirotécnico inverossímil.

The power of Christ compels you

Aliás, essa falta de verossimilhança com a possessão de Regan MacNeil vomitando verde, levitando e girando a cabeça em 360 graus, por mais que saibamos não retratar a realidade, é o ponto que realmente pega nesse documentário, uma vez que o ritual realizado em Cristina, não tem nada de hollywoodiano e dantesco, e sim, mais lembra os programas evangelizadores das madrugadas da tevê aberta brasileira, onde pastores enfrentam os capetas quebradores de dedo.

Difícil questionar a veracidade de documentários, mas em O Diabo e o Padre Amorth, além do exorcismo ser entediante e difícil de impressionar até o mais impressionável, já que Cristina só fica se debatendo e dando uns gritos guturais – e que não dá nenhum indício de fato de que o Capa-Verde se faz ali presente, que não seja encenação, doença psicológica ou puro convencimento pelo ambiente extremamente religioso e influenciável em que ela vive – tudo parece meio um caô de Friedkin, principalmente na hora em que ele marca um encontro com a rapariga em uma igreja, e COINCIDENTEMENTE não filmou nada, mas descreve como o momento mais assustador de sua viagem à Itália, com direito a terríveis contorções e rastejamentos dela, além da força sobre humana e os gritos cavernosos.

Senta lá, Sr. Friedkin…

Na real o que mete medo de verdade nesse doc fraquinho, fraquinho, é a informação, dada logo em seu início, que segundo os dois principais jornais e a rede de TV mais popular da Itália – também não creditados ou apresentado nenhum clipping sobre o tema – de que entre as 60 milhões de pessoas que residem na Terra da Bota, 500 mil delas vem um exorcista todos os anos! É gente pra burro, que ainda reflete a mentalidade medieval de um país extremamente carola.

No final das contas, O Diabo e o Padre Amorth parece até um engodo, sensacionalismo barato para trazer luz novamente a um diretor em certo ostracismo desde a década de 70, quando reinava com Os Exorcistas e Operações França da vida, e que termina tão inconclusivo quanto começou e não serve nem como estudo de caso sobre o fenômeno, apesar de entrevistas com gente da área da saúde, psicologia e da igreja.

Pouco, muito pouco para quem dirigiu a obra cinematográfica definitiva sobre o assunto.

2 exorcismos para O Diabo e o Padre Amorth

Tutti buona gente


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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