Review 2018: #42 – O Animal Cordial

Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos?


Qual é o limite para que uma pessoa, de saco cheio de diversos aspectos da sua vida, do trabalho ao casamento, literalmente surte e liberte todas a raiva, frustração e instinto animalesco engasgados dentro de si, em prol da violência gratuita?

Pois essa questão que nos acompanha, pelo menos desde que Sigmund Freud publicou “O Eu e o Id” em 1923 é o cerne do dedo na ferida levantado por Gabriela Amaral Almeida em O Animal Cordial, horror nacional, na verdade um slasher – como defendido pela própria diretora – que chega ao circuito nesta quinta-feira, naquele que vem se mostrando o melhor ano para as produções brasileiras do gênero, produzido pela RT Features de Rodrigo Teixeira, o mesmo produtor de A Bruxa.

Ele pode não ser um slasher no sentido bíblico, e sim se apropria do termo para definir a concepção de violência gráfica comum ao subgênero, também podendo ser catalogado como um intenso thriller psicológico recheado de humor negro, sangue e psicopatia, daqueles que te dão um orgulho da porra de ser brasileiro e ver um longa nacional como esse na tela.

Desde os créditos de abertura até todo seu desenvolvimento de personagens e situações cotidianas limítrofes, passando pela edição (vezes intensa, vezes comedida) de Ide Lacreta e trilha sonora de Rafael Cavalcante à lá retrowave que te remete ao throwback oitentista tão peculiar no horror atual, O Animal Cordial te tira da sua zona de conforto e te esfrega na cara a ignorância enraizada nos tempos do cólera em que vivemos.

A gosto do freguês!

O desenvolvimento do longa, até seu terceiro ato, é sublime. Afoga o espectador em momentos de tensão, reflexão e risos involuntários causado por trejeitos, sentenças, linguajar e ações dos personagens – típicos do cinema nacional – enquanto permeia o quadro com a violência primal e o medo como instrumento de poder, emanando de todos os poros do tresloucado casal protagonista: um sujeito que literalmente cede a uma síncope nervosa em um momento de estresse e perigo, auxiliado por outrem que se torna o combustível para sua fogueira, ou vice-versa, num êxtase de libertação gráfica e sensual de seus desejos mais reprimidos, causados por aquela leve fagulha que incendeia o Id coibido.

Inácio – acreditem se quiser, vivido magistralmente por Murilo Benício – é o dono escroto de um restaurante que não parece lá muito bem das pernas. Mergulhado na sua vidinha medíocre, rotineira, tendo que lidar com todo tipo de clientela até altas horas da noite, sem paciência para a esposa e sem o menor trato com os funcionários, incluindo o cozinheiro Djair (Irandhir Santos) – que detalhe: é nordestino e gay – ,ele literalmente surta quando o estabelecimento é assaltado em uma noite – crime o qual não é vítima pela primeira vez, retrato típico do país da insegurança – e, com a garçonete Sara (Luciana Paes) de cúmplice, faz os meliantes como refém e começa a criar um jogo de medo e pavor ao trancar todo mundo dentro do estabelecimento, mandando toda a convenção social que engolia a seco até então, às favas.

Aliás, a relação doentia à la Mickey Knox e Mallory Wilson, ou Coringa e Arlequina, é o prato principal do restaurante de O Animal Cordial, elevando o longa a enésima potência. Benício se olha no espelho e reflete o esgar de um vilão cheio de insanidade resignada, alimentada pelo dia a dia que confere a cada um de nós um peso imensurável pessoal e intransferível, e pela cultura do medo que nos permeia, e Paes se solta e se rebela, PUTA ATRIZ – louca desvairada no limite – que dá um show de atuação visceral, enquanto os dois vão ficando cada vez mais despirocados e se sujando mais e mais de sangue.

Gabriela Amaral se mostra exímia na direção de atores, fruto de um intenso laboratório de um mês antes do início das filmagens com cada um dos personagens, que constantemente vão tecendo as teias de uma crônica de tragédia anunciada dentro de um espaço limite. Isso faz com que o filme siga numa escalada que vai te prendendo e deixando embasbacado e repleto de adrenalina, falando para si mesmo CARALHO QUE FILME FODA E AINDA POR CIMA É NACIONAL (como se fosse um demérito, mas infelizmente ainda temos essa pecha), até chegar no terceiro ato…

Reflexão

É aí que Gabriela perde pouco do fôlego por algumas escolhas equivocadas e certos maneirismos (e quase até engana a gente em um plot twist que, se tivesse acontecido, acabaria com a vida do mesmo) e o final deixa a desejar, tendo em vista o potencial demente daquela situação rastilho de pólvora que tinha em mãos, dada a possibilidade de um final digno de Haneke.

Mas nada que tire o brilho de um ótimo trabalho de debute em longas da diretora, que sacou todinha a receita do feijão com arroz de como fazer horror no Brasil: tenha paixão pelo que faz, entre em um processo de criação febril, extrapole o medo do outro – em um momento de discursos extremos que vivemos em nossa sociedade – meta baldes de sangue e pise no pé do acelerador da violência sem medo de se sujar e se assuma, pouco ligando em receber narizes tortos das críticas de um Escorel da vida. Junte um bando de personagens díspares e facilmente identificáveis com backgrounds implícitos bem construídos e enfie um bom tanto de crítica social, política, preconceito velado e a boa e velha luta de classes.

E pronto, só servir à mesa!

E veja O Animal Cordial no cinema, que fácil, fácil, figura entre os cinco melhores filmes de terror do ano até então. E escrevo essa frase cheia de ufanismo, no bom sentido.

4 carnes de coelho para O Animal Cordial


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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