Review 2018: #45 – Slender Man: Pesadelo Sem Rosto

Atrasado para o próprio velório


O mundo virtual, a que chamamos popularmente de Internet, possui um folclore todo próprio. De certa forma, tal cultura popular internética existe como uma mistura de histórias advindas dos quatro cantos do mundo, sempre à um clique de distância de qualquer pessoa em qualquer. Maravilhas da hiperconectividade.

Nesse contexto, as famigeradas creepypastas são fonte riquíssima de contos macabros e entidades aterrorizantes que povoam o imaginário digital. O monstro Slenderman nada mais é que o garoto propaganda desse meio. Em parte devido ao jogo de computador homônimo e imensamente popular, o homem comprido tem assombrado navegadores há quase uma década, colecionando incontáveis referências na cultura pop, incluindo mais um longa metragem, um documentário da HBO sobre um crime real relacionado ao caso,  e um longo boato sobre uma temporada de American Horror Story centrada nessa figura.

Mesmo que ainda bem conhecido, o personagem viveu seu auge no início da década atual. Dessa forma, a adaptação cinematográfica da Sony é um filme-retardatário, lançado tarde demais para se fazer valer de qualquer tipo de hype um dia já existente.

O roteiro original de David Birke (Elle, Os 13 Pecados) coloca um grupo de quatro amigas em uma peleja mortal contra o bichão que dá nome ao filme. Talvez a palavra “original” perca um pouco de peso com descrições do enredo: jovens assistem vídeo amaldiçoado, recebem um aviso de que estão condenadas e depois, uma a uma, são aterrorizadas por uma entidade sobrenatural. Acertou quem pensou em O Chamado, referência mais óbvia da fita, porém não a única.

Slender Man: Pesadelo Sem Rosto se enquadra bastante em um filão  do horror contemporâneo que costumo me referir como Millennial Horror. Como o próprio nome já diz, essa subcategoria fala sobre e para os adolescentes da geração atual, incorporando dentro da narrativa e da estética, elementos referenciais diversos. Talvez o recurso mais recorrente e relevante nesses filmes seja o smartphone.

Encontrando livros de ocultismo avançado na biblioteca da escola.

Aqui, a comunicação por mensagens substitui momentos de diálogo e reforçam posturas dos personagens. Já as filmagens feitas com o celular garantem o compartilhamento de experiências com a criatura das trevas e entregam revelações.

A interação mais marcante que surge dentro desse universo de telinhas interativas é o POV do Slenderman, que aparece em mais de uma ocasião. Algumas das meninas recebem uma chamada de vídeo via telefone inteligente que mostra filmagens em tempo real delas mesmas, como se um stalker as observasse. A maldade se revela quando a suposta câmera começa a avançar até elas, atravessando portas como um fantasma.

Uma peculiaridade desse longa é a velocidade com que ele mergulha de ponta no aspecto sobrenatural. O roteiro não poupa esforços em introduzir o oculto na vida daquelas personagens, apesar disso, lá pela metade a trama começa a se arrastar infinitamente. O intervalo que compreende o desaparecimento da primeira garota e as alucinações pesadas é caracterizado pela completa ausência de ação. É aí que as interações digitais se fazem mais presentes, típico daquele momento do rolê em que ninguém tem mais nada pra contar e cada um puxa o próprio celular do bolso.

Com exceção das sequências de alucinação, todas divertidíssimas, Slender Man: Pesadelo Sem Rosto se mostra esteticamente e narrativamente bem ordinário. A fotografia e o tom sombrios apontam para o cinemão mainstream de horror, inflado com aquele ar de produção da Blumhouse. Diria até que me pareceu mais uma produção de Jason Blum que o cômico Verdade ou Desafio.

Em minha crítica deste último, mencionei algo que chamei de estranhamento geracional, um distanciamento pessoal entre minha experiência subjetiva para com aqueles personagens tão inseridos no mundo virtual. Novamente, essa diferença se faz presente, porém de forma positiva.

Vi-me capaz de assumir um distanciamento crítico,buscando me colocar mais próximo do público principal do filme. Dessa maneira, fui capaz de aproveitar muito mais a experiência como uma diversão passageira e despretensiosa, renovando o meu interesse por creepypastas. Talvez daí meu desinteresse em massacrá-lo como a grande maioria tem feito.

3 árvores farfalhantes para Slender Man

Slender Man ou Sharp Objects?


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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