Review 2018: #47 – Medo Viral

Como pegar uma ideia boa e não se conectar a ela!


Ao lado da ficção-científica, o horror sempre foi um dos gêneros que mais retrata, documenta e questiona a realidade de seu contexto histórico. Do medo da bomba atômica ao pós 11 de setembro, o horror sempre expôs e criticou o mundo à sua volta. Isto posto, é irônico e frustrante que pareça não conseguir retratar de maneira satisfatória as ansiedades dos tempos modernos das redes sociais, das próteses 3.0, dos aplicativos e tablets nas mãos de bebês hipnotizados. Falta algo para termos o iHorror definitivo.

Frankenstein e Geração Proteus apontaram o dedo na cara da tecnologia e da ciência décadas atrás, mas hoje, parece que somos incapazes de usarmos nosso contexto histórico cercado de telas reluzentes para criarmos um bom filme de terror. Com raras exceções como Amizade Desfeita e das séries de TV Deadset e Black Mirror, poucas obras relevantes dentro do horror exploraram com propriedade o tema da nossa relação com a tecnologia no século 21. Talvez por isso a proposta por trás de Medo Viral, que chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira, parecia ser tão promissora.

Parecia.

A ideia dos irmãos Abel Vang e Burlee Vang é contar a história de um grupo de jovens que, após a morte inesperada de uma amiga em comum, recebe o convite para download de um misterioso aplicativo que acaba usando seus maiores medos contra eles mesmos. Ironicamente a premissa tecnológica parece não ter servido para lembrar a distribuidora nacional de que em tempos de conexão 24h e telas portáteis, esperar dois anos para lançar um filme como Medo Viral não é mesmo uma boa ideia…

Apesar de algumas boas ideias que o fazem se aproximar de um bom iHorror, como o susto usando o celular como em um jogo de realidade aumentada, ou o aplicativo conhecer seus medos mais íntimos como uma crítica ao tempo em que passamos com o celular na mão, o filme é um emaranhado de clichês tradicionais dos piores representantes do slasher barato, daqueles que deixariam Jason corado, se ele tivesse sangue nas veias de suas bochechas. Seus personagens, todos adolescentes com cara de adulto, são os mais insuportáveis. Daqueles que torcemos para que morram logo.

Minha cara depois de ver essa bomba

A direção dos irmãos Vang é fria e nada inventiva. Seus posicionamentos de câmera e iluminação são repetitivos e sem graça e mesmo que isso pudesse ser usado ao seu favor, como mais um elemento detratando a tecnologia em excesso, na verdade só mostra o quanto Medo Viral é uma ideia boa nas mãos erradas.

Até o vilão, que deveria se aproximar de uma mistura de Jarvis com Hall 9000, está mais para um filhote de Pennywise com Jigsaw, sem que isso faça qualquer sentido dentro do contexto. A ideia do celular como vilão seria muito mais assustadora, dando margem a continuações infinitas em um mundo com mais aparelhos do que usuários.

Medo Viral é mais uma prova de que de boas intenções o inferno está cheio. E neste caso, o inferno é um filme de uma hora e meia cheio de personagens sem-graça, ideias desperdiçadas, sustos fáceis, direção banal e vilões mequetrefes. Instale um bom antivírus em seu aparelho celular e certifique-se de avaliar com uma estrelinha este grande bug que está entre os piores filmes de terror do ano.

1 conexão GPRS para Medo Viral.

Era a luz no fim do túnel esse filme…


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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