Review 2018: #48 – A Mata Negra

O diabo também é brasileiro


Acho seguro dizer que Zé do Caixão moldou e formou a maior parte dos entusiastas do horror nacional. Minha vivência já foi um pouco diferente dessa. Ao passo que o personagem-ícone de José Mojica Marins sempre me foi muito familiar, dado seu lugar na nossa cultura pop, só fui tomar nota de um cinema brazuca de gênero com Mangue Negro, lá em 2008, período no qual nutri um grande afeto por filmes de zumbi. Só daí que parti para Encarnação do Demônio e outros filmes do mestre e de outros autores.

Partindo desse ponto, o trajeto que leva até A Mata Negra é fantástico, tanto para a equipe técnica por detrás, que parece ter evoluído em todos os aspectos, incluindo nos efeitos práticos, marca registrada de Rodrigo Aragão, quanto para o terror brasileiro como um todo, que hoje ocupa lugares que até pouco tempo pareciam exclusivos a um outro tipo de cinema.

Meu encontro com o longa se deu durante uma sessão de cinema contemporâneo da 12 ° Mostra CineBH. Pensava, até então, que A Mata Negra seguiria o tema meio-ambiente/mortos-vivos. Enganei-me bem, já que Aragão não só se afastou dos zumbis, como adotou uma série de temas insanamente divertidos.

No centro da trama, como bem indica o pôster, está Clara – interpretada por Carol Aragão – uma garota de passado misterioso e futuro sombrio, que se envolve em uma trama satânica ao encontrar o livro perdido de Cipriano, espécie de Necronomicon Ex-Mortis.

Ao entoar uma das orações negras do livro, Clara inicia um movimento espiralado em direção à treva absoluta, em que a vida de todos ao seu redor é sugada por um mal profano e perturbador, como se Sam Raimi adapta-se O Inferno de Dante para os cinemas.

Apesar de uma possível analogia com A Morte do Demônio, especialmente no que tange ao gore e aos movimentos de câmera que navegam na mata, a obra de Rodrigo Aragão se distancia um bocado desse horror mais surtado, especialmente nos dois primeiros atos.

Ocê gostaria de viver diliciosamente?

Durante boa parte da projeção, Aragão opta por trabalhar com uma atmosfera densa, com a mata exercendo um efeito claustrofóbico, em que não há entrada ou saída aparente, apenas um purgatório verde interminável. O plano de estabelecimento que abre o longa já antecipa isso de forma absolutamente magistral.

Trata-se de uma tomada aérea que cobre um pedaço gigantesco de terra, onde vemos apenas as copas espessas de árvores da mata atlântica, até finalmente adentrarmos na selva por um corte transversal. Aragão basicamente chega segurando o espectador pelas orelhas, dizendo com todas as letras “preste atenção na história que eu vou contar”.

Daí em diante, o mundo de Clara se desfaz pouco a pouco, conforme ela mergulha nas páginas do livro de Cipriano. As manifestações demoníacas que vão surgindo gradativamente revelam aos olhos e ouvidos a qualidade indiscutível dos efeitos especiais práticos de altíssima qualidade, assim como a própria composição de cena e os enquadramentos se mostram mais maduros e intrincados, imbuindo o filme de um clima lúgubre que está em pé de igualdade com qualquer filme do mainstream americano.

Uma das características que mais me agradou em A Mata Negra é a maneira com que se entrega aos mais excêntricos rituais, cada um com uma repercussão que altera a rota da narrativa um caminho distinto, tornando o enredo extremamente rocambolesco e cheio de excessos. Em um nível mais pessoal, a capacidade de navegar por tantos e tão diversos mares faz da experiência muito mais recompensadora.

No último ato, em que o estilo explosivo e porra-louca assume as rédeas, o estilão que batizei de “folgore” – folclore com gore – reina absoluto, transformando-o em uma fita grotesca e visceral, com sangue saltando da tela.

Ao final da projeção, a quantidade absurda de elementos criativos muitíssimo bem pensados e executados converge em um final histórico, lendário, que funciona como uma injeção de adrenalina, empolgante e animadora. Definitivamente os atributos técnicos são fundamentais para esse resultado, mas há toda uma energia criativa na confecção dessa fábula mais negra que piche, que potencializa tudo que há de bom. Não obstante, encontrei aqui meu filme nacional de horror favorito.

4.5 ritos satânicos para A Mata Negra

Você já ouviu a palavra de cipriano hoje?

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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