Review 2018: #50 – The Devil’s Doorway

Found footage expõe passado sombrio da Igreja Católica


Sempre que falamos sobre o quanto as mulheres sofreram na mão da Igreja Católica, pensamos automaticamente na época da Inquisição, durante a Idade Média, onde eram o alvo constante deste tribunal que condenava os hereges, sendo muitas delas condenadas à morrerem na fogueira, justamente por não viverem uma vida de acordo com a moral da época.

Por ser considerada uma das maiores vergonhas da humanidade, é um período altamente explorado, tanto na literatura quanto no cinema. Inegável notar, até mesmo e principalmente nos dias de hoje, a influência negativa que os preceitos religiosos causam no Estado e, diretamente, na vida de mulheres ao redor do mundo. No entanto, é surpreendente perceber quantas histórias são ocultadas por essas mesmas instituições a fim de manterem suas fachadas imaculadas de bondade.

Na Irlanda, entre o século XVIII e o final do século XX, existiam os chamados ‘Asilos de Madalena’, instituições administrada por freiras que abrigava apenas mulheres, de várias idades e classes sociais. Essas casas, apesar dos preceitos religiosos que eram ditados, nada tinham a ver com conventos onde mulheres buscavam, por livre vontade, viver uma vida de devoção a Jesus. Na verdade, essas casas eram o lar de mulheres com as mais diversas deficiências (físicas e mentais), mães solteiras, prostitutas, jovens vítimas de estupro e outras tantas que eram apenas consideradas “imorais” para os padrões religiosos e sociais daquela época, como ninfomaníacas e lésbicas. Bizarro, né?

É claro que, de início, a ideia original da criação desses asilos era o de reabilitar mulheres “perdidas”, através do trabalho árduo nas lavanderias e dedicação aos serviços religiosos, e integrá-las, depois, na sociedade, já convertidas a “mulheres de bem”. Elas poderiam transitar livremente, chegando e deixando o asilo quando bem quisessem, uma vez que a proposta do lugar era ser algo próximo a um abrigo transitório, no entanto, as coisas foram fugindo do controle, e essas mulheres passaram a ser confinadas contra suas vontades, mantidas em cárcere privado, e a mão de obra passou a ser explorada de maneira escravista, além de todos os abusos físicos, sexuais e psicológicos infligidos contra elas.

Como em todos os escândalos, a Igreja Católica mais uma vez fez vistas grossas, o que culminou na morte de muitas mulheres que, para que as aparências da instituição fossem mantidas, eram enterradas ali mesmo. É justamente esse ambiente opressor, cruel e doentio o pano de fundo para The Devil’s Doorway.

Longa de estreia da diretora irlandesa Aislinn Clarke, que não teve receio algum de mostrar um lado perverso de uma das religiões mais antigas do mundo, The Devil’s Doorway se passa em 1960, onde conhecemos o cético Padre Thomas (Lalor Roddy), enviado do Vaticano para um desses Asilos de Madalena para investigar relatos de um possível milagre, pois uma estátua da Virgem Maria estaria chorando lágrimas de sangue. Juntamente com ele está John (Ciaran Flynn) um jovem e mais crédulo padre, que irá documentar, em vídeo, toda a investigação.

“Sua mãe está aqui, Thomas.”

Padre Thomas está irredutível na tentativa de provar mais uma fraude, pois o fato chegou ao conhecimento do Vaticano via denúncia anônima, por intermédio de alguma das mulheres mantidas ali, já que a Madre Superiora (que cuida do lugar com punhos de ferro), quer a todo custo acobertar o fenômeno. Curiosamente, a responsável não parece muito preocupada com todos os abusos que acontecem no local, pois julga estar protegida pela ordem religiosa. O problema é que o milagre da santa que chora é o menor dos mistérios que a dupla de padres vai encontrar no local.

Ao descobrir que a substância que brota da imagem é realmente sangue humano, Padre Thomas vê sua chance de desmascarar a farsa e decide colher amostras de todas as mulheres presentes no Asilo para identificar sua origem pois o sangue, além de ser de um tipo raro, mostrou que a pessoa de onde a amostra veio está grávida. Aí as coisas começam a ficar ainda mais surreais, pois os padres descobrem a existência de uma jovem mulher, que é mantida acorrentada num local isolado do convento, por oferecer suposto risco à outras mulheres, e decidem verificar. Entrando em um espiral repleto de fenômenos assustadores, como estátuas que explodem sozinhas e aparições de crianças no meio da madrugada, a câmera do Padre John (que dita o estilo found footage do filme), vai sempre mostrando os pormenores do lugar e seus ambientes escuros e sufocantes.

O final, apesar de extremamente claustrofóbico, pode mostrar um pouco de declínio no ritmo de suspense que o filme leva durante boa parte da exibição. A câmera trêmula ocasiona, como de praxe no estilo, um ou outro jumpscare (alguns bem previsíveis), mas ainda assim, incomoda mais do que satisfaz. Apesar de alguns clichês no roteiro, a trama consegue entregar alguns momentos bem perturbadores envolvendo possessão demoníaca e rituais satânicos.

A atuação do elenco também é um ponto muito positivo a ser destacado: a atriz Helena Bereen, que interpreta a cruel Madre Superiora, consegue nos deixar extremamente desconfortáveis mesmo quando não faz nada de assustador em cena. Os diálogos entre os dois padres, que mostram bem a oposição entre fé e ceticismo, também são densos e geram um grande debate sobre moral e religiosidade.

No frigir dos ovos, The Devil’s Doorway é um daqueles filmes que, mesmo com um enredo que tem sido muito explorado – ainda mais atualmente, com o lançamento de A Freira – consegue entregar um resultado de qualidade apesar de algumas poucas derrapadas. O mais assustador, no entanto, não é o sobrenatural que vimos na película e, sim, a realidade horrenda causada por aqueles que deveriam ser os bastiões da fraternidade e do amor pois, como bem pontua Padre Thomas, em um dos melhores diálogos do filme, “Todo mal que eu vi, veio sempre da humanidade.”

3 santas choronas para The Devil’s Doorway

 

Quem é Valak perto dessa freira aqui?


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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