Review 2018: #52 – O Predador

Continuação mira seu laser nos anos 80 e acerta na bobagem


Um filme de ação com fortes elementos de ficção científica e terror, O Predador é um daqueles casos em que uma mistura inesperada de elementos resultam em um grande sucesso, dando origem a um dos mais marcantes e populares filmes da safra “brucutu” dos anos 80/90. Aqueles filmes saturados de testosterona, pólvora e sangue que fizeram a alegria do público cinéfilo do período. Tal sucesso deu origem a games, quadrinhos, livros e uma longa franquia cinematográfica, cujo quarto filme – sexto se levarmos em conta o crossover com os Aliens – chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira.

A premissa, apesar de simples, é interessante: durante uma missão para resgatar reféns de traficantes em uma floresta no México, um soldado cruza o caminho do caçador alienígena que cai na Terra. A criatura é capturada pelo governo e o soldado é levado para uma instituição mental na tentativa de desacreditá-lo. A criatura escapa, o soldado se une a um grupo de veteranos com problemas mentais para destruir o alienígena que agora está atrás de seu filho, até que o caminho de todos cruza com uma ameaça ainda mais perigosa.

Escrito e dirigido por Shane Black, aka o homem que dirigiu o pior filme da Marvel, O Predador tinha tudo para dar certo. O diretor,  responsável pelo roteiro do filme original e criador das franquias 48h e Máquina Mortífera, assina o roteiro a quatro mãos ao lado de Fred Deckker, responsável por filmes como Deu a Louca nos Monstros e A Noite dos Arrepios. A equipe ideal para o resgate daquele espírito oitentista nostálgico tão em voga no cinema pipoca recente. Mas algo deu muito errado….

Com uma abertura séria bem aos moldes do filme original, o filme logo desanda. Assim que as armas alienígenas enviadas pelo correio são desvendadas pelo garotinho autista, sabemos que a franquia está tomando novos rumos. A partir daí a tônica do filme dá uma guinada sem freio para a comédia besteirol cheia de piadas escatológicas ao melhor estilo American Pie. Não só isso, o roteiro se entrega a facilitações bobas e recursos expositivos que enfraquecem ainda mais o conjunto final.

Te peguei! Tá com você!

A frágil cientista que parte, do nada, atrás do alienígena com uma arma de dardos tranquilizantes e logo em seguida se torna uma máquina de guerra. O ônibus cheio de veteranos de guerra com problemas mentais que dá meia-volta, levando todos os passageiros a um local secreto, quando só um deles foi requisitado e muitas outras bobagens que, poderiam passar despercebidas se fossem bem escritas. Se o método formulaico de se fazer cinema pipoca atualmente não se sobressaísse tanto à história que os roteiristas queriam contar.

O Predador tenta a todo o momento superar seus antecessores, com mais ação, mais elementos inseridos na mitologia e, onde reside o ponto mais fraco do enredo, uma ameaça muito maior. Ainda que pareça uma ideia interessante, o “superpredador” deixa claros os buracos no roteiro, com sua periculosidade variando de acordo com a situação. Se o momento pede uma cena tensa, a criatura se sobressai, se pede um momento heroico, os humanos se sobressaem, culminando na apressada cena final, já prejudicada pela ação picotada e escura, onde todo o poder e ameaça do monstro é ignorado para que os mocinhos possam salvar o dia de maneira incompatível com o que o próprio roteiro vinha reforçando ao longo da película.

E já que estamos falando de mocinhos, se a ideia era superar os filmes anteriores da franquia, o quesito personagens carismáticos foi onde o filme mais falhou. Apesar da ideia de um grupo de heróis desajustados e desequilibrados ser interessante, falta tempo para nos apegarmos a eles. Suas histórias pregressas são cuspidas esquematicamente na tela em uma série de monólogos expositivos e apressados que não são o suficiente para conquistar o telespectador. O pouco tempo em tela, dado o número de personagens e cenas de ação, não permite que ninguém se destaque principalmente o mocinho do filme, McKenna, que de longe é o pior herói da franquia.

Com piadas que transitam entre o ridículo e o politicamente incorreto, O Predador tenta surfar na onda nostálgica do cinema pipoca atual e mira na nostalgia, reproduzindo cenas e falas dos filmes originais, mas falta algo. Talvez tentando entender o que fez com que o público adolescente que viu o filme original nos cinemas naquela época sentiu, os roteiristas tenham ido longe demais nesta regressão e se tornado, eles mesmos, adolescentes tardios que só conseguiram entregar algumas piadas machistas, racistas e algumas cenas massavéio que ocupam espaço demais no pior filme da franquia dos caçadores alienígenas.

1,5 beautiful motherfucker para O Predador

 

“Nossa! Você é muito mais feio!”


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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