Review 2018: #53 – November

Belo e frágil, como um castelo de vidro


Certa vez me aventurei em assistir O Tango de Satã uma epopeia visual Húngara de mais de sete horas de duração, dirigida por Béla Tarr, notório cineasta europeu de tendências cinematográficas bem filosóficas. Nos primeiros planos, me deparei com uma belíssima fotografia em preto e branco, retratando um espaço cotidiano e rural. Chuto que tenha assistido cerca de trinta minutos antes de parar, julgando não ser a pessoa mais apropriada para encarar sete horas de contemplação, ao menos naquele momento da minha vida.

Subindo um pouco pelo leste europeu, chegamos na Estônia, país de origem de November, um dos filmes mais peculiares e ímpares de 2018. O início de projeção deste me remeteu imediatamente ao filme de Béla Tarr: cenário rural, com pessoas simples e uma belíssima fotografia em P&B. Há também um tom contemplativo nas primeiras ações, que mais parecem observações puras de um cotidiano do campo.

Exceto que, no caso, ao invés de apenas humanos e animais de fazenda, observamos uma criatura estranhíssima, composta de paus, ferramentas e um crânio de cavalo (ou algum outro animal de grande porte), que gira pelo campo como uma engrenagem do diabo. A coisa que aparece sem explicação aos poucos se revela como um tipo de escravo, comandado por um habitante do vilarejo.

Imediatamente já temos um chamado à estranheza que vai se prolongar durante toda sua extensão, rendendo alguns momentos magistrais, porém escassos em uma fita de quase duas horas de duração.

Trata-se de um longa com uma trama principal espaçada, pontuada por diversos subplots irrelevantes e incrustada de elementos sobrenaturais e folclóricos estonianos. Penso que a ação principal é aquela envolvendo o casal jovem Liina (Rea Lest) e Hans (Jörgen Liik). Ela, apaixonadíssima por ele. Ele, por sua vez, com os olhos em outra. Considero essa a ação principal por ser a única com desenvolvimento e conflitos estabelecidos.  

Em algum momento, que já não me recordo bem, os constantes atravessamentos e digressões que surgem no decorrer desse romance me remeteram sutilmente à literatura de Dostoievski, em que análises sobre o comportamento de personagens secundários ou observações sobre grupos particulares são características recorrentes. Tal associação se configura como plausível se considerarmos que o longa anterior de Rainer Samet é uma adaptação de “O Idiota”, do autor russo, fato que eu desconhecia por completo na ocasião em que assisti November.

A Mulher de Preto 3

Suponho então, que Samet tenha uma bagagem literária considerável, já que November também se trata de uma adaptação de um livro homônimo. Isso explicaria a narrativa extremamente esfacelada, que se desenrola como que em capítulos, ou vários contos que intercalam uma história principal, evitando assim a forma tradicional de arcos dramáticos em prol de um estilo narrativo mais literário que cinematográfico.

Se pouco antes apontei a história do casal como a linha principal do filme, o faço levando em conta que esta é a única faceta em que há uma progressão de eventos clara, em que uma ação influencia a outra. Apesar de envolver três pessoas, sequer consigo dizer que se trata de um triângulo amoroso, já que o terceiro elemento não é um personagem ativo, mas apenas um papel, uma figura com aparições ocasionais que provoca algo em Hans.

A escolha pelo não convencional costuma ser, por si só, digna de nota. No entanto, me parece ser necessário uma certa coerência estética e narrativa para que haja algum tipo de engajamento ou emoção que ultrasse o deslumbramento imagético. November é dotado de cenas maravilhosas, com grandes ideias e composições de plano ingeniosas, como a sequência em que a Praga chega até a cidade, forçando os habitantes a usarem de inventividade para lidar com a situação.  

Ao mesmo tempo, outras tantas cenas são desconjuntadas e esquizóides, não apresentam sequer uma concatenação visual ou atmosférica. Ora pende para a reflexão filosófica, ora navega nos mares estranhos do folclore regional, ora apela para um humor que beira o pastelão. Por vezes pensei estar assistindo uma série de esquetes fantasiosas com um pano de fundo comum, fracas em sua maioria, que não vão a lugar nenhum e em nada acrescentam.  

Nesses momentos sempre me recordo da história do sapo que tenta engolir presas tão grandes que acaba por morrer sufocado. Samet aparenta ser um diretor competente, tomando por base certas partes do filme, porém November mais me parece o trabalho de alguém tentando dar um passo maior que a perna, buscando atingir pontos demais e, dessa forma, se sabotando e se distanciando de seus próprios personagens. Assim sendo, a fotografia estonteante nada mais é que um castelo de vidro.

2.5 kratts para November

 

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Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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