Review 2018: #55 – Distúrbio

E mais uma vez,  a criatividade supera o dinheiro


Roger Corman, o rei dos filmes B, sempre levantou a bandeira de que não é preciso milhares de dólares para que se faça um filme bem feito. E hoje, muito mais do que há quarenta anos, temos inúmeras provas de que ele esteve sempre certo.

A Bruxa, Sala Verde, Ao Cair da Noite e Hereditário são alguns exemplos recentes de que o cinema independente vem ganhando mais espaço a cada dia, fugindo das grandes produções e mão de ferro de estúdios, mantendo assim a liberdade criativa. Se o espaço é dado a novos diretores e produtores, por que já não pessoas renomadas tomarem o caminho da independência? Eis que Steven Soderbergh ousou se arriscar e conceber uma obra impactante, inventiva e original.

Distúrbio conta a história de Sawyer (Claire Foy), uma jovem que possui problemas em se relacionar com outras pessoas, vivendo assim sozinha e de forma desapegada. Quando ela resolve procurar a ajuda de uma psiquiatra para que desabafe um pouco, acaba preenchendo formulários que eram de “rotina” e acaba concordando “voluntariamente” a se internar por 24 horas numa clínica para reabilitação mental. Lá conhece um sistema podre o qual agora faz parte, além de reencontrar seu pior pesadelo. Ou será que não?!

O primeiro ponto a ser destacado e louvado é que Soderbergh, depois de sua filmografia pequena, mas muito bem consolidada, busca uma prática de filmagem que o caracteriza por seu estilo introspectivo, onde transporta o espectador ao filme e interaja com as personagens. Além desta característica única, o fato do longa ter sido filmado inteiramente com um aparelho iPhone 7 Plus conversa muito mais com o público, do que as obras tradicionalmente rodadas com as super-câmeras da atualidade. Os closes e tomadas de planos-sequência inimagináveis demonstra todo o conforto do diretor em conseguir, de fato, prender seus olhos à tela.

No tocante às críticas expostas no longa, em particular me tocou mais o ponto relacionado ao amor e às mulheres. Se bem me lembro, há um tempo atrás no Facebook, houve a disseminação de um poema que contava como a maioria dos homens, machistas por natureza, estereotipam a mulher perfeita.

O bruxo à espreita!

Em Distúrbio, quando Sawyer encontra seu antagonista – vivido brilhantemente e sinistramente pelo ator Joshua Leonard, de A Bruxa de Blair -, o monólogo que ela dispara contra ele nada mais é que um desabafo sincero e verdadeiro do que infelizmente acontece dia-a-dia. Ninguém é perfeito, e as mulheres sofrem mais ainda pela pressão imposta pela sociedade no que se entende pelo “padrão” de beleza que nós, homens, esperamos. Se você, meu caro leitor, ainda se enquadra neste pensamento patriarcal e misógino, sugiro ver o longa e repensar seus modos.

Ao contrário do que muitos pensam, os EUA também sofrem com a corrupção e fazendo um paralelo com o longa nacional O Rastro, o pano de fundo é a saúde e as fraudes que ocorrem lá. Aqui a doença do século, a depressão, é atribuída às pessoas que apenas precisam de alguém para conversar. Como se o mundo já não houvesse a cultura do desapego, o modo que Sawyer tenta se encaixar na sociedade é se distanciando. Mas, quando ela sente a necessidade de se aproximar de alguém apenas para desabafar, a armadilha se fecha e o esquema que movimenta a indústria da saúde mental começa a ser exposto.

A obra de Soderbergh é de uma estranheza e sutileza ímpares. Poderia ficar apontando aqui e ali pequenos detalhes que inconscientemente fazem com que tire o espectador da zona de conforto relacionando a ficção com a realidade, como o assédio do patrão chamando-a para uma “viagem de negócios” em comemoração ao seu desempenho no trabalho ou as recomendações que o detetive Ferguson – numa pequena ponta de Matt Damon – dá à personagem da Claire Foy após a denúncia feita por ela, temerosa por sua segurança, contra um stalker que não a deixa em paz. Seria cômico se não fosse verdade.

Equiparado a um vídeo em alta qualidade visto no YouTube, Distúrbio se mostra um ponto fora da curva como um ótimo exemplo de thriller psicológico feito com pouco recurso, mas com muito a dizer, tornando-se assim um dos melhores filmes do ano ao meu ver. E que Soderbergh sirva de exemplo e incentive outros cineastas a fazerem seus filmes de forma independente.

4 internações para Distúrbio

Escutando os machos falando groselha…


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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