Review 2018: #58 – Mandy

Nicolas Cage além do arco-íris negro


No meu entendimento cinematográfico a forma de se contar uma história costuma ser mais relevante que a história sendo contada. Remakes costumam ser um exemplo crasso de como, filmes com o mesmo enredo, podem ter resultados tão distintos, segundo a forma ali utilizada.

O Martyrs original, aquele TRASH MODERNIZADO, por exemplo, faz uso de cores frias, atmosfera deprê e violência gráfica extrema para criar o ambiente mais niilista e intenso possível para arrebatar/arrebentar de vez o espectador com um final ambíguo, mas extremamente pessimista, não importa qual seja a sua interpretação. O americano conta quase mesma história, porém reduz todos esses elementos marcantes e assim, castra a si mesmo e não produz efeito algum.

A trama de Mandy é bastante simples de entender, por mais confusa que possa parecer: o casal Red Miller (Nic Cage) e Mandy Bloom (Andrea Riseborough) vive uma vida pacata, até o dia que Mandy se torna alvo de um líder cultista e sua seita insana. O resultado dessa obsessão coloca Miller em um caminho de vingança e violência hardcore.

Vingança tem sido um tema recorrente no cinema de horror e suspense já faz um bom tempo. Os sul-coreanos são pra lá de especializados nisso, diga-se de passagem. Há alguns anos, dois filmes de ação com plots extremamente parecidos foram lançados no mesmo ano – De Volta ao Jogo e O Protetor – , mas foram relativamente pouco associados, tão diferentes as formas estéticas e narrativas utilizadas em ambos.

Então volto a ressaltar a simplicidade por trás do arco narrativo de Mandy. Mas o faço apenas para elevar ainda mais a forma e o visual que constroem o filme mais alucinado de 2018. Para tentar entender um pouco mais sobre o que ocorre aqui, um pequeno adendo sobre o trabalho anterior do diretor Panos Cosmatos.

Em 2011, Cosmatos lançou Beyond the Black Rainbow, fita experimental tresloucada que mostra uma organização secreta nos anos 70 e seus experimentos com substâncias alucinógenas. Algo meio inspirado no MK Ultra, aquele infame projeto americano de experimentos com LSD, peiote,  lavagem cerebral e coisas do tipo. No filme, o projeto tem resultados bizarros em que a experiência com a droga proporciona uma verdadeira transcendência espiritual e cósmica ao usuário.

Melhor figurino/2018

Mandy tem ares de sequência, considerando que essa ideia de uma substância transcendental alucinógena reaparece aqui. Porém é como se a lisergia tivesse vazado e tomado conta do filme inteiro, principalmente em sua fotografia e cores saturadas pendendo para o rosa-choque, violeta e azul.

Os dois primeiros atos são lentos e cheios de luzes diferentes que enchem a tela, atribuindo ao filme um aspecto de viagem de droga. O tempo é dilatado, as cenas são fugazes e os personagens constantemente parecem estar em algum tipo de transe hipnótico em um processo minimalista As imagens são magníficas e remetem ao cinema de película com uma granulação proposital da imagem. Considere os primeiros 40 minutos de filme como um teste de resistência, caso se sinta desinteressado pelo ritmo arrastado. Mas aviso aos navegantes: CONTINUE ASSISTINDO ATÉ O FINAL!

Quando o longa se torna centrado inteiramente em Red Miller, ocorre uma transformação que se assemelha a uma troca entre lados de um disco. O lado A uma balada rock suave e envolvente, o lado B o mais puro thrash metal, uma verdadeira sinfonia da destruição. Não é a toa que Cosmatos inicia o filme com uma citação sobre rock’n’roll, utiliza fontes tipicamente associadas ao gênero nos cartões de título que dividem o filme em quatro partes e no próprio background dos personagens.

Não apenas o mais alucinado, mas também o mais METAL de 2018, Mandy envereda por caminhos absolutamente imprevisíveis e recheados de violência gráfica e imagens grotescas em um mundo quasi-apocalíptico. Apesar de não haver nada necessariamente associado ao fim do mundo, há uma transformação no mundo pessoal de Red Miller que parece piorar de acordo com a quantidade de sangue que vai cobrindo seu rosto.

É clara a intenção de Cosmatos em fazer um filme-experiência majoritariamente sensorial e sinestésica, apresentando um mundo e personagens próprios mergulhados em luzes e cores delirantes. Cena após cena, assistimos algo inesperado e poderoso, não em um sentido filosófico-existencial, mas num âmbito puramente visceral e emocional. Obviamente a distância do estilo convencional causará mais incômodo que agrado, de forma que Mandy muito possivelmente entrará para o famigerado grupo do “ame ou odeie”.

5 she burns! para Mandy 

Quem nunca ficou puto ao ponto de fazer o próprio machado?


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

2 Comentários

  1. Santos disse:

    Disparado o filme de terror do ano.

  2. amurumvum disse:

    Porcaria de crítica! Lixo!

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