Review 2018: #59 – Apóstolo

Glória a deusa!


Eu não consigo deixar de ficar em êxtase com a maravilha que 2018 vem sendo para o cinema de horror. Mesmo faltando apenas dois meses para que o ano termine, ainda conseguimos ser surpreendidos e levar um soco no estômago com um filmão da porra como Apóstolo, que chegou na Netflix durante o feriado, daquela forma sem alarde costumeira.

Altamente esperado após fazer burburinho entre a fanbase desde a exibição de seu trailer, a produção original do serviço de streaming é escrita e dirigida por Gareth Evans, não só o cara por trás do sensacional Operação Invasão, dos melhores filmes de ação deste século, mas também pelo episódio “Safe Heaven”, de V/H/S 2, dos melhores filmes de terror deste século. Tá bom para você?

Apóstolo também tem como pano de fundo, tal qual o curta da antologia found footage concebida por Brad Miska, uma seita religiosa extremista e seus rituais de sacrifício em prol de alguma divindade obscura. Aqui, falamos de uma comunidade isolada em uma ilha britânica no começo do século passado, que vive quase de forma medieval, fundada por três supostos criminosos traidores do rei, que passam a adorar uma deusa pagã da fertilidade em troca de melhor sorte na colheita.

Sim, lendo esse parágrafo e se emaranhado pelas mais de duas horas de duração do longa, a inspiração do controverso clássico O Homem de Palha de Anthony Shafer, estrelado por Christopher Lee, se vê bastante presente, mas paramos por aí. Evans não se preocupa nem um pouco em arrefecer para o espectador, entregando uma fita pesada, tensa, carregada de energia estática no ar, repleta de simbolismo, visualmente impactante e completamente visceral, tratando o sujeito do outro lado da tela com requintes de crueldade, tal qual faz com seus personagens banhados em cenas de brutalidade de alta octanagem.

Thomas Richardson, personagem vivido pelo excelente Dan Stevens (o protagonista da série mutante da Fox, Legião) vai até a tal ilha para tentar salvar sua irmã, raptada pelo séquito, que pediu uma quantia em dinheiro de resgate. Thomas tem um background religioso como missionário cristão que o fez entrar na rota de colisão de sua crença, abandonando Deus e sofrendo de diversas sequelas físicas e psicológicas. O tipo de homem quebrado por dentro e por fora, que está a uma beira de uma síncope nervosa.

Barber shop

O líder ungido da comunidade aldeã é profeta Malcom, interpretado pelo não menos excelente Martin Sheen, formando o triunvirato junto de Frank (Paul Higgins) e Quinn (Mark Lewis), todos homens claramente desequilibrados pelo fanatismo religioso, uns mais, outros menos.

Como sempre dizemos que o cinema de terror é reflexo do seu tempo, mais uma vez vemos aqui o fundamentalismo como um perigo acachapante às liberdades individuais, mostrando como o gênero é um fac-símile de uma realidade obscura que cresce no mundo todo, e não poderia deixar de ser no Brasil em tempos eleitorais extremos, contendo um discurso religioso pesado e conservador que mostra que em pleno século XXI, a humanidade vem sendo jogada cada vez mais na ignorância de uma quase Idade das Trevas em nome da religião, dos falsos profetas e dos líderes que usam a bíblia como artifício de medo, controle, poder, ódio e tortura.

Fora isso, Apóstolo entrega aquilo que o fã do horror bem gosta: uma crescente de situações tensas que explodem numa loucura gráfica, sem contar elementos imagéticos creepy as hell, como o carrasco e a própria figura da deusa. Como se não bastasse, o final é daqueles que vale parar alguns minutos para respirar e recuperar o fôlego quando sobem os créditos, encerrando de forma nada menos que brilhante, após o mínimo de explicação possível, sem julgar a inteligência do público com o didatismo irritante do terror convencional

Às vezes, a Netflix dá umas bolas dentro, e Evans mostrou de novo que ele continua um nível acima, oriundo daquela excelente safra de novos diretores independentes do cinema de gênero, entregando mais um filme que figura facilmente nos melhores do ano. E eu só queria saber quem sacrificou o quê para termos um 2018 assim tão frutífero…

5 instrumentos de tortura para Apóstolo

Carnaval tá logo aí…


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

3 Comentários

  1. Marcelo disse:

    Filme excelente realmente!
    Hereditário e esse , são dois filmes que eu não esperava assistir nos tempos atuais.

  2. Alberto disse:

    Fique com vontade assistir, devido à sua review. Adoro ler as reviews do 101 horrormovies, sempre de bom gosto e com coerência.

  3. José disse:

    Filmaço !
    Esse é mais um pra lista de melhores do ano !

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