Review 2018: #61 – Housewife

Guarda-Chuva do Amor e da Mente tentacular


Quando Baskin foi exibido pela primeira vez em 2015 no TIFF e tomou de assalto o público do festival, crítica especializada passou logo a comparar o diretor turco Can Evrenol à Clive Barker, devido ao apreço ao body horror grotesco em seu longa metragem de estreia.

Pois bem, três anos depois, quando Housewife, seu aguardadíssimo novo trabalho, coprodução Turquia e EUA, é lançado comercialmente, mais uma vez a gente percebe sim a influência de Barker – no que novamente tange o grotesco, a bizarrice e a brutalidade – e dessa vez, MUITO de H.P. Lovecraft e seu horror cósmico tentacular. Aliás, o escritor americano parece ser a bola da vez em um ano que já nos entregou A Casa do Medo e O Culto, também inspiradíssimos nas escritura do Rei do Indizível.

Housewife, é bom se dizer, é mais um daqueles filmes acachapantes lançados em 2018, entrando forte naquela lista de melhores filmes do ano que vai ser bem difícil fechar um TOPE NOVE quando nossa esperadíssima lista vier ao ar.

Filme completamente tétrico, com os dois pés em um onírico obscuro, bem aos moldes lovecraftiano, mas com um frenesi sangrento e gráfico ao extremo que já parece já ter se tornado uma parte simbiótica de Evrenol em sua breve carreira cinematográfica, não tendo medo de explorar a visceralidade do body horror.

A trama, que mistura a todo momento realidade e pesadelo, como se de fato o mundo estivesse passando bem por uma fenda de ruptura entre realidades, começa com os dois pés no peito, quando uma mãe, que faz parte de uma seita que venera algum tipo de entidade conhecida como “Visitantes”, assassina uma de suas filhas afogada na privada, logo após ela menstruar pela primeira vez. Holly, a irmã mas nova, é testemunha do crime e em uma ataque histérico da matriarca, passa a ser perseguida, que inclusive mata o próprio esposo quando chega em casa e presencia o ato.

Elipse temporal, Holly já é uma adulta, e leva uma vida infeliz e resignada, cheia de traumas, solidão e apatia, casada com um escritor narcisista e problemas de gravidez. Tudo está prestes a mudar quando Val, uma antiga amiga que o casal tinha um relacionamento aberto, reaparece em sua casa convidando-a para um evento de uma dessas esquisitíssimas organizações/ seitas new age chamada “Guarda-Chuva do Amor e da Mente”, uma versão ficcionalizada da Cientologia.

A outra face

Pois bem, em uma apresentação do líder do GAM, o showman Bruce O’hara, uma mistura de Tom Cruise com Steve Jobs nipônico, realiza uma sessão de hipnose em Holly, destravando as percepções de sua mente, revivendo os demônios do passado e jogando-a em um espiral de loucura e pesadelo – além de algumas revelações sobre a fatídica noite que a atormenta por toda a vida. A moça passar a ter uma importância vital para a seita e uma futura vinda dos tais “Visitantes”.

Housewife, recheado de referências que passeiam, além de Lovecraft e Barker, por Cronenberg, Carpenter e o cinema oitentista em um geral, possui aquela característica recorrente do novo cinema de terror independente: climático, minimalista, pontuado por uma forte carga dramática e traz a desconstrução dos valores familiares e a ascensão da busca de respostas no oculto, no fantástico e no astrológico. Já a segunda metade, é aquele soco no estômago brutal, nos brindando com uma visceral sequência final, daquelas de ficar boquiaberto e meio desconcertado com o impacto imagético do final, pra fazer fã de Lovecraft regozijar.

O grande calcanhar de Aquiles é o nível de atuações sofríveis.  A protagonista vivida pela atriz  Clémentine Poidatz, seu marido que parece que acabou de sair da escola de atores Wolf Maia e principalmente, David Sakurai como o líder da GAM, é de dar pena de tão ruim e acaba atrapalhando em um potencial ainda maior, se mais convincente e não transparecendo tanto essa dramaturgia pobre. Parece que você está assistindo uma novela da Record ou do SBT. Além de umas pisadas na bola do roteiro, na tentativa de ser enigmático, mas que só torna confuso, econômico e desconexo, e parece que muito dali está para encher linguiça e preencher as 1h22 de duração, sem o devido desenvolvimento.

Mas, para compensar, está lá uma caminhão de gore e brutalidade gráfica – a cena do ritual é de virar o rosto da tela – a direção firme de Evrenol que tenta dar uma pegada artsy ao baixo orçamento, a trilha sonora minimalista e monocórdia e planos belíssimos e fotografia quase surreais, grotescamente poéticos, do interior da casa e principalmente, da neve caindo do lado de fora.

Menos sujo, pesado, escatológico e visualmente perturbador que Baskin, Housewife é um horror mais enxuto, contido, existencialista e cósmico, e mostra que o diretor turco vem construindo uma carreira promissora e tem se mostrado especialista em colocar suas referências e gostos em tela, e ainda assim, tentando desenvolver um caminho autoral para seu trabalho.

4 tentáculos para Housewife

Dona de Casa e Mãe!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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