Review 2018: #65 – Cam

Mais um pra longa lista de: filmes com imenso potencial desperdiçado


Como é a vida das cam girls? Onde moram? O que comem? Como se reproduzem? Dúvidas pertinentes que, se respondidas, mesmo que ficcionalmente mas com o pé na realidade nua e crua, levando em consideração o fenômeno sexual e tecnológico desse tipo de entretenimento adulto e quais tipos de provações que as moças são obrigadas a passar em busca de dinheiro, e fama, tendo de lidar com todo tipo de fetiche sexista, renderia um excelente filme, que fosse um drama, ou um horror como metáfora de crítica social.

A última opção foi a ideia de Cam, lançada diretamente na Netflix como conteúdo original do serviço de streaming e nova produção da Blumhouse, que vira e mexe sabe muito bem como atingir uma parcela jovem de seu público alvo, abordando temas de interesse da geração millennial (como foi em Amizade Desfeita, A Morte te dá Parabéns ou Verdade ou Desafio, por exemplo).

O grande problema é como o longa se encaixa na infame categoria de “filme com imenso potencial desperdiçado”.

Dirigido por Daniel Goldhaber, com roteiro de Isa Mazzei (baseado em uma história de ambos, junto com Isabelle Link-Levy), conta a história da cam girl Lola, codinome de Alice (interpretada pela boa Madeline Brewer, de The Handmaid’s Tale) em sua busca em alcançar as primeiras posições do ranking de preferência dos usuários em um serviço de live cam. Tudo está ocorrendo dentro dos conformes, até do nada, sua identidade ser roubada por uma doppelganger que começa a exibir shows ao vivo em seu lugar.

Banida do site, sem nenhum auxílio do suporte do serviço e muito menos podendo contar com a polícia, que não entende absolutamente nada em como auxiliar uma cam girl com identidade roubada (soltando uma pérola do tipo: é só ficar longe da Internet), Cam derrapa feio ao explorar o mundo das garotas e seus problemas reais de forma muito en passant – salvo o conflito quando sua mãe e amiguinhos do irmão adolescente descobrem seu ganha-pão – e trazer uma trama rocambolesca, que não leva a lugar nenhum, preguiçosamente escrita e em níveis mínimos de suspense para gerar interesse do espectador.

E aí galerinhaaaaaa, turu bom?

Tirando Brewer, todas as demais atuações são péssimas, de um típico filme de baixo orçamento e recursos limitados, a direção é bastante preguiçosa e apesar do interessantíssimo mise-en-scene trazendo um pouco do local de trabalho e coisa ou outra do dia a dia das garotas, já que estamos falando de um filme de terror, falha miseravelmente em qualquer flerte narrativo do gênero.

O que sobra? Um thriller canhestro, uma resolução pobre e uma lacuna gigantesca deixada na mais absoluta falta de explicação – que seria louvável em outros casos onde didatismo sempre atrapalha – mas que aqui só parece que os envolvidos não tinham a MÍNIMA ideia do que estavam escrevendo e como resolver a situação em seu terceiro ato, que poderia render um monte, se tivesse sido levada para os lados do terror tecnológico, ao melhor molde de um episódio de Black Mirror, por exemplo.

Aí entra o tal do potencial desperdiçado, pois juntamos aqui em um único filme: uma produção que não consegue de fato mostrar os perrengues e dramas vividos pelas cam girls em uma exposição muito mais perturbadora, para entregar apenas um filme café com leite; a inépcia da direção e construção de um roteiro que poderia favorecer o suspense, a questão da perda de identidade, obsessão dos clientes, coerção ou que seja, até algum elemento tech sobrenatural se fosse o caso; e um terceiro ato, que até que é interessante – o confrontar das duas Lolas – mas acaba ficando tão bobo – quanto o resto do filme – e a impressão nítida de que não sabiam como amarrar seu final, sequer dando qualquer pista para que o espectador montasse suas próprias conclusões, sem entregar o óbvio como a maioria dos filmes mainstream faz.

Nada, o sujeito que está assistindo o filme faz aquela famosa cara de: “Mas é isso? Acabou?”, assim que sobem os créditos. Cam não vale nem para uma tarde de frio e tédio de um feriado prolongado. O que é uma pena…

 

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Glitch girl


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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