Review 2018: #66 – Mal Nosso

O diabo definitivamente é brasileiro!


No segundo episódio do TRASH MODERNIZADO, onde debatemos sobre o cinema nacional, abrimos o programa levantando a lebre de que o ano de 2018 é o melhor ano para o gênero no país de todos os tempos. Isso por conta do sem número de boas produções lançadas, pintando aí em festivais e nos circuitos comerciais de cinema, como As Boas Maneiras, O Nó do Diabo, O Animal Cordial, e Mata Negra.

Mas para esse que vos escreve, o melhor filme de terror brazuca dessa safra, infelizmente ainda não deus as caras por aqui, apesar de já ter rodado mundo afora nos principais festivais do gênero, como o Frightfest, Sitges, New York Horror Film Festival, Macabro Festival (onde ganhou o título de melhor filme de terror da América Latina do ano), Rojo Sangue, entre tantos outros, e ser lançado na Internet e em mídia física na Europa, em países como Alemanha, Bélgica e Reino Unido. Estou falando do perturbador Mal Nosso, escrito e dirigido por Samuel Galli.

Pesado, daquele nível de deixar um gosto ruim na boca, tanto pela violência gráfica e perversão quanto pelo impacto imagético das aparições de assustadoras entidades e encostos, Mal Nosso traz uma trama simples: Arthur (Ademir Esteves) é um sujeito que entra em contato com Charles (Ricardo Casella), um matador de aluguel através da deepweeb (após trombar com um vídeo de violência extrema torturando e escalpelando uma mulher amarrada na cama – daqueles de virar a cara da tela devido a brutalidade) para contratar seus serviços.

Ele paga metade do trabalho a vista e entrega um pen drive detalhando os pormenores do assassinato e um vídeo com a senha para liberar a outra metade do pagamento, uma hora após o ato. O único porém é que o trabalho tem de ser feito antes da meia-noite do dia combinado. Após o crime (que te deixa em choque, por ser algo que você realmente não esperava bem no meio da trama), vamos entender um pouco mais sobre a vida de Arthur, os motivos que o levaram a contratar Charles para praticar o homicídio e como se desenrola o desfecho da história.

Pois bem, há quatro pontos principais que precisam ser discutidos sobre o longa metragem. Dois extremamente positivos, e dois que são o grande calcanhar de Aquiles que o impedem de galgar posições maiores nos rankings de melhores do ano e ser uma verdadeira obra prima tupiniquim do gênero.

Fazendo um undercut

O primeiro é o nível de violência gratuita, gore e mal estar que ele causa. Mal Nosso, ao melhor estilo torture porn, não tenta aliviar a barra do espectador. A cena em que Charles espanca e tortura duas garotas que lhe ofereceram programa é de sentir repulsa e ódio do canalha. Não recomendo para mulheres assistirem essas cenas. Soma isso ao uso perfeito de assombrações, saídas da boa e velha escola do J-Horror. A moça rastejando no chão para a banheira, surgindo para o jovem Arthur, dá calafrios de verdade.

O segundo, e a cereja do bolo, sem dúvida é a maquiagem e os efeitos práticos de Rodrigo Aragão, que aqui atinge um nível sem precedentes. Tanto pelas questões mencionadas em cima, quanto, leia com atenção as minhas palavras: UMA DAS MELHORES REPRESENTAÇÕES GRÁFICAS DO COISA-RUIM VISTA NOS CINEMAS! E estou falando de todos os tempos, de todos os países! Isso sim é orgulho made in Brazil.

Você sente um incômodo real e oficial, um frio na espinha, vendo aquele Pata-Rachada em cena – aliás, numa daquelas possessões que te deixa até destrambelhado – dado os detalhes aterradores da maquiagem e protéticos usados por Aragão e vestidos pelo comparsa de sempre, Valderrama dos Santos, nosso verdadeiro Lon Chaney. Visual clássico, vermelho, com chifres, horripilante. A mim, lembrou muito a sensação ruim que tenho quando vejo o Lipstick Face Demon em tela na franquia Sobrenatural. Ou seja, olha o nível!

Só que o cinema nacional sempre tem um mas, e nesse caso, fica por conta de um velho problema de atuação que vira e mexe acaba incomodando bastante, dando aquela impressão de dramaturgia barata, que dificilmente vemos em produções de outros países da América Latina, como no cinema chileno ou argentino, por exemplo. Isso só estigmatiza o “filme brasileiro”, pois esse sim é um mal nosso, que atinge desde grandes produções da Globo Filmes, até séries da Netflix, tipo a aclamada 3%, e mesmo os independentes. Parece que há um padrão imposto de má atuação cinematográfica no Brasil, o que é uma pena, salvo raros casos.

E o segundo ponto que tira pontos de Mal Nosso é o excesso de didatismo na cena em que Charles roda o vídeo de Arthur, tratando o público como inepto em ligar os pontos sozinho, tudo esquematicamente revelado, tirando o impacto final, que acaba deixando a desejar, e a mensagem kardecista que grita de forma carola demais, excessivamente maniqueísta, quase como se o filme estivesse apto a passar nas aulas de evangelização segundo o espiritismo.

Mas, apesar desses pequenos pontos, Mal Nosso impressiona, impacta, é visceral, maligno, causa asco e assusta na medida. É um senhor filme de terror, que dá um orgulho desgraçado de gente como Galli na direção e roteiro, Aragão na maquiagem, Guilherme e Gustavo Garbato na trilha sonora synthwave a lá John Carpenter, e de tudo de bom que o cinema de horror nacional tem nos oferecido.

 

4 Capirotos para Mal Nosso

Rei do Crime


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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