Review 2018: #67– O Segredo de Marrowbone

Eis que sua principal qualidade acaba se tornando seu maior defeito…


Revendo alguns filmes ou conhecendo outros das décadas de 1990 e 2000, percebo que estes anos foram muito vantajosos para o thriller, em especial. Filmes como A Mão Que Balança o Berço, Meu Amigo Oculto, O Quarto Andar, O Quarto do Pânico, ou ganharam notoriedade e popularizaram estes dois gêneros que, ao longo dos anos, foi perdendo algum espaço.

Se no começo do século XXI, o cinema europeu começou a ganhar mais atenção, os países que mais tiveram destaque foram a França e Espanha. Dentre os destaques dessa ótima safra de talentos, temos Alexandre Aja, a dupla Alexandre Bustillo e Julien Maury, Jaume Balagueró, Paco Plaza e o roteirista do ótimo O Orfanato, Sergio G. Sanchéz. Se este filme surpreendeu a todos como um ótimo drama sobrenatural raiz, era questão de tempo para que tivesse uma chance à cadeira de diretor. E eis que a mesma chegou e O Segredo de Marrowbone foi concebido.

Sanchéz, que também assina o roteiro, traz à tona uma trama sobre vingança, drama, suspense e uma leve pitada de thriller policial. O plot é até simples: a família Marrowbone, composta pela matriarca e seus quatro filhos, chegam da Inglaterra à América fugindo de seu passado e tentando retomar suas vidas em uma pequena e abandonada fazenda. Porém, com a morte da mãe, o filho mais velho terá o dever de manter a família unida e cumprir a promessa que fez à sua progenitora: não se separarem por nada, mesmo que estranhos eventos na casa façam com que tudo seja mais difícil.

O elenco possui nomes conhecidos dos fãs de horror como a talentosíssima Anya Taylor-Joy (A Bruxa, Morgan: A Evolução, Fragmentado), Mia Goth (A Cura) e Charlie Heaton (Stranger Things). Mas o destaque mesmo – e muito se deve a ele o  resultado final e – é o ator George MacKay (Capitão Fantástico), onde sua interpretação eleva o longa e, em alguns momentos, faz com que seja o único ponto a te segurar até o fim.

A cenografia à lá anos 30 consegue nos remeter bem a esta determinada época. A fotografia ora mais clara em tons sépia remetendo a velhas fotografias, ora mais escura em tons frios e secos, emanam a liberdade e felicidade de viver em um local ensolarado do Novo Continente, contrastando com o enclausuramento e angústia quando dentro e fora de casa, respectivamente. E isso fica muito mais evidente ao final do longa.

Qualquer semelhança com um sexto sentido é a mais pura verdade

Como é de se esperar, a história a princípio te prende e deixa o espectador com a pulga atrás da orelha para saber o que está acontecendo. Esta ansiedade é logo inicial quando somos testemunhas de um balaço atravessando a janela em meio à distração e felicidade dos irmãos. O andamento do longa começa a ter um ritmo próprio e aí começa um problema com a sua crise de identidade.

Se ao mesmo tempo que a trama te deixa inquieto logo no começo, é de se esperar que se mantenha uma tensão ou que mantenha o interesse de quem acompanha os Marrowbone. Mas infelizmente o filme começa pende mais para o drama e até aventura, do que para o suspense e o alto teor sobrenatural que prometera no início e no seu desenrolar. O desenvolvimento e andamento se perdem devido a um roteiro bagunçado, e creio que muitas pessoas, até o meio filme, perderam ou perderão muito o interesse em chegar até o fim do filme, que nos entrega mais um daqueles plot twists do cinema de terror, usado a exaustão em diversos longas…

Mas seu maior defeito também é sua maior virtude. As peripécias dos quatro irmãos para tentar contornar a morte da mãe e conseguir levar uma vida mais digna vão da ludibriação de um jovem e audaz advogado até uma possível entidade presente na casa que vive no sótão. O estranho costume de tapar todos os espelhos da casa também despertam certa curiosidade, a ponto de querer saber até que ponto o filme irá te levar. E em eventos contados cronologicamente até os minutos iniciais e expandindo-se até sua conclusão, no frigir dos ovos torna-se satisfatório e gratificante, mesmo com a indecisão de que rumo tomar em determinado ponto da fita.

Destaco também a “homenagem” feita a Edgar Allan Poe e seu elemento de O Gato Preto presente na reta final do longa, assim como também há pitada ali de O Sexto Sentido, Os Outros e o próprio O Orfanato, misturada com fragmentos de Spider – Desafie sua Mente.

A conclusão é que O Segredo de Marrowbone é um filme bom, que poderia ter sido muito mais devido, creio eu, à falta do diretor definitivamente dar um rumo melhor elaborado, mas que vez ou outra se perde em sua própria qualidade. Tanto que a Universal até desistiu de lançar nos cinemas do Brasil (chegou a ser anunciado no começo do ano), devido à recepção fria lá fora.

3,5 álbuns familiares para O Segredo de Marrowbone

Fotinha antes da desgraça


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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