Review 2018: #68 – Cadáver

O parente menos talentoso de A Autópsia

Nesta quinta-feira chega aos cinemas brasileiros mais um filmeco de terror para suprir a constante demanda por sustos na telona. A fita da vez é Cadáver, do holandês Diederik Van Rooijen. Surpreendentemente, trata-se de um filme mainstream que não recebeu os adjetivos “Maldito”, “Do Mal” ou “Mortal”, quando teve o título traduzido pelo Brasil. Esse minimalismo até me fez pensar que o título original fosse traduzido literalmente do inglês.  

Ao longo da projeção fiquei me questionando o porquê do título original não ser algo como “A Autópsia de Hannah Grace”, tamanha a ênfase no nome completo da garota a todo momento. Hannah Grace isso, Hannah Grace aquilo, essa é a Hannah Grace, Hannah Grace morreu, Hannah Grace foi possuída. Pois não é que o título original é The Possession of Hannah Grace? Lamentável!

Nessa altura do campeonato todo mundo aqui já entendeu que o filme acontece em torno dessa menina Hannah Grace, uma pobre coitada que, enfraquecida por uma depressão, tornou-se hospedeira de um demônio dos mais poderosos, daqueles de causar pesadelo em Lorraine Warren e jogar padre pro alto com o poder da força mente. Durante o exorcismo, a moçoila acaba morta.

Saltamos no tempo três meses, caindo no colo de Megan Reed (Shay Mitchell) uma ex-policial alcoólatra em recuperação, que aceita um trabalho noturno no necrotério municipal, como forma de escapar das tentações da vida noturna.

Megan já passa sufoco logo nos primeiros dias, quando o corpo fortemente mutilado de uma certa Hannah Grace é entregue a ela. Daí todo tipo de diabrura ocorre nesse ambiente tão propício para o terror se desenrolar, que é o necrotério. E pra piorar, rola uma luta no mundo físico, contra o demônio no corpo morto de Hannah Grace, e outra luta no plano psicológico, contra o famigerado demônio do fundo da garrafa, pesadelo dos alcoólatras.

Indo direto ao ponto, Cadáver é o cinema de terror enlatado por definição. Parece haver uma clareza de comunicação entre diretor e roteirista, que se transcreve para as telas na forma de obviedades e previsibilidades de quem está seguindo as regras do jogo minuciosamente. Há uma apresentação de personagem, com foco em certos elementos que possam contar sua história de forma sucinta. E então há uma apresentação do necrotério enquanto parte da narrativa, com um momento expositório que anuncia todas as possibilidades de interação que existirão entre os vivos e mortos, como as lâmpadas que acendem com movimento, as portas que só devem ser abertas sob condições específicas, ou os alertas sonoros que disparam dependendo disso ou daquilo. Tudo muito antecipado e bem explicadinho, com aquele jumpscare bem posicionado e tudo mais.

De certa forma é até um mérito do diretor ser capaz de seguir a receita com tanta fidelidade, assim como existe mérito no padeiro responsável pelo pãozinho matinal que precisa ser capaz de reproduzir a mesma fórmula diariamente. Claro que, no fim do dia, nos lembraremos daquele prato diferenciado, com o toque do chef e não no pãozinho de cada dia. Porém creio que quem curte um filme de terror raramente dispensa o tipo de susto fácil e histórias diabólicas que Cadáver tem a oferecer.

Verdade seja dita, esse daqui até tenta acrescentar um diferencial ao conceito de possessão, que é o corpo morto ser capaz de se regenerar por meio do assassinato. Essa ideia poderia ter sido o toque do chef para fazer com que Cadáver se destacasse. Mas a preocupação em se ater ao básico é tão grande, que o filme parece ter vergonha de si mesmo, propondo ideias interessantes e depois retrocedendo, como que dizendo “nah, deixa pra lá”.

2 autópsias para Cadáver

HEHEHEHEHEHEHE


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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