Review 2018: #69 – The Clovehitch Killer

Não é exatamente um filme sobre serial killer mas, sim, sobre alguém muito próximo a ele


Que o cinema de horror é altamente influenciado por crimes reais a gente já tá careca de saber. Tanto em cinebiografias, aqueles filmes onde acompanhamos a história de algum serial killer que realmente existiu (tipo o excelente Henry – Retrato de um Assassino), tanto nos personagens autorais, saídos diretamente da mente dos criadores.

Inclusive, na primeira parte do nosso TRASH MODERNIZADO sobre o assunto, fizemos um catadão geral dos filmes sobre esses psicopatas fictícios, discorrendo sobre os mais emblemáticos ao longo das décadas.

No entanto, ainda há alguns filmes que ficam num meio termo entre os citados, já que são livremente baseados em pessoas e eventos reais, mas que não são, de fato, biográficos. Os casos mais conhecidos talvez sejam Leatherface, de O Massacre da Serra Elétrica, e Norman Bates, de Psicose, que são levemente inspirados em Ed Gein, mas que tiveram trejeitos e particularidades especialmente criados para os personagens.

O mais recente integrante desse limbo entre ficção e realidade é The Clovehitch Killer, primeiro longa metragem do americano Duncan Skiles. Exibido no Festival de Los Angeles em setembro passado, o filme conta a história do serial killer que dá nome à película, assassino que aterrorizou uma cidadezinha pacata, amarrando, torturando e matando mulheres. Como assinatura, deixava próximo às vítimas uma corda amarrada em um nó chamado ‘volta do fiel’ (em inglês, clove hitch). Após dez moças terem sido encontradas mortas, subitamente, o assassino parou de fazer novas vítimas.

Filho de peixe, peixinho não é.

O filme se passa cerca de dez anos após o corpo da última mulher ter sido achado. Tyler Burnside (Charlie Plummer) é um adolescente que além de escoteiro, é religioso ao extremo, assim como o resto de sua família, composta por seu pai, o líder comunitário e escoteiro-chefe Don (Dylan McDermott, de American Horror Story), sua mãe Cindy (Samantha Mathis ) e sua irmãzinha Suzie (Brenna Sherman), além de um tio paraplégico com problemas de saúde. Os Burnside são aquela típica família carola e feliz, que representa os cidadãos de bem que a gente tanto conhece.

Acontece que, como toda família que se preze, essa também tem uns podres escondidos. Ao pegar escondido a caminhonete de seu pai, para se encontrar com sua crush, Tyler e a menina sem querer encontram uma foto de uma mulher nua, provavelmente tirada de alguma revista pornô com temática bondage, que é um tipo específico de fetiche onde o prazer está ligado em amarrar e imobilizar o parceiro. A garota, igualmente carola, se enoja com a imagem e Tyler acaba ficando com fama de pervertido entre os jovens de sua comunidade.

Só que, além de muito chocado com a descoberta, justamente por ser tão religioso e incauto, Tyler também fica intrigado, porque né, aquele tipo de fetiche o lembrou o modus operandi do assassino Clovehitch, que nunca foi pego. Já que a foto foi encontrada no carro de seu pai, ele decide furtivamente xeretar num galpão onde o progenitor guarda algumas quinquilharias e que, curiosamente, não deixa ninguém entrar.

Como era de se esperar, evidente que ali ele encontra coisas que vão deixá-lo ainda mais confuso. Já que nenhum dos seus amigos de escotismo e de religião querem falar com ele, por conta daquele boato, ele acaba indo atrás de uma garota, Kassi (Madisen Beaty) que também tem fama de esquisitona, só porque é obcecada pelo serial killer.

Juntos, ele começam uma investigação paralela, e é aí que as coisas vão tomando aquele rumo que a gente já espera, porque o roteiro, a bem da verdade, não é lá dos mais criativos. A medida em que Tyler vai descobrindo mais coisas a respeito de seu pai, vamos acompanhando a mudança de comportamento desse personagem e, principalmente, a incredulidade e angústia do moleque. É de dar dó.

Cheirinho de treta familiar

Vale dizer que o assassino Clovehitch foi fielmente inspirado no psicopata real Dennis Rader, que ficou conhecido como Assassino BTK, abreviação em inglês para Bind, Torture, Kill (amarrar, torturar e matar, em PT-BR). Dennis serviu na Força Aérea americana, tentou ingressar na polícia sem sucesso, e acabou se tornando um líder comunitário e escoteiro-chefe. Por trás da fachada de religioso pai de família, ele era um homem sádico e cruel, obcecado por bondage e sadomasoquismo, que matou cerca de 10 mulheres, ao longo de trinta anos.

Em 2005, Caçada ao Assassino BTK, uma cinebiografia mostrando a trajetória criminosa de Dennis, foi lançada para TV. Mais recentemente, BTK foi mostrado como o psicopata misterioso na série Mindhunter, mega sucesso da Netflix, e que será o foco principal da segunda temporada, prevista para o ano que vem.

Em entrevistas, Duncan Skiles confirmou que criou o personagem tendo como inspiração um serial killer real, mas não quis divulgar seu nome para não dar ibope para o mesmo e, como Dennis Rader ainda está vivo, infelizmente, aos 73 anos, cumprindo o equivalente a 10 prisões perpétuas, tudo leva a crer que o diretor realmente se baseou em sua personalidade e modus operandi.

The Clovehitch Killer, num geral, é um filme honesto. A direção é bem precisa, que confere aquele clima de suspense mesmo que a identidade do assassino já tenha sido mostrada logo de cara. É bom destacar também a atuação de Dylan McDermott, que, além de usar uma prótese para ficar com aquele chamado dad bod (barriga de chopp que chama?), consegue demonstrar todas as nuances de um verdadeiro serial killer, com sua dupla personalidade.

A famigerada cena do quarto, em que ele tira fotografias de si mesmo amarrado e usando roupas femininas, é de deixar qualquer um desconfortável, ainda mais porque esse era um comportamento frequente do verdadeiro BTK, como podemos ver nas imagens reais que vazaram na internet a um tempo atrás. É bizarro e assustador.

Apesar de alguns furinhos aqui e ali – tipo, sério que o assassino deixa um nó muito usado em escotismo e ninguém suspeita do escoteiro-chefe da cidade? Sério? –  e da trama parecer meio óbvia, ainda consegue manter o espectador atento, acompanhando o pobre Tyler, que vê seu mundo desabar ao ir conhecendo de verdade seu pai. The Clovehitch Killer não é exatamente um filme sobre serial killer mas, sim, sobre alguém muito próximo ao assassino. E mostrar a verdadeira face desse tipo de psicopata, que pode ser até mesmo um familiar, é o elemento mais chocante em cena.

3 nós de escoteiro para The Clovehitch Killer

Almoçando com o inimigo.


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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