Review 2018: #70 – Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro

Apesar de você, sangue à rodo com gore e violência extrema Made in Brazil


Ivan Cardoso é com certeza um dos nomes mais conhecidos pelos fãs de terror nacional, mais particularmente pela sua mistura do gênero com a comédia, dando nome ao assim chamado terrir. Para os mais jovens, lembrar de ter assistido Um Lobisomem na Amazônia na saudosa Sessão da Tarde é um deleite. Se Ivan Cardoso é mestre na mescla do humor com o fantástico, haveriam pupilos que foram influenciados por suas obras?

A meu humilde ver, o maior sucessor de Cardoso é Peter Baiestorf. Filmes como O Monstro Legume do Espaço vols. 1 e 2 e a duologia Zombio são exemplos de que, mesmo independentemente da indústria cinematográfica não dar o devido crédito a estas obras, ainda é possível acompanhá-las em festivais ou comprá-las diretamente com seu diretor. Mas e se um terrir desse as caras no grande circuito nacional em tempos extremos como o que vivemos atualmente?

Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro surge como uma porta de abertura à várias obras que podem e devem ganhar mais espaço, mas que fique claro que é para um público bem específico e seleto. Repetindo a dobradinha Fabrício Bittar e Danilo Gentili, que já haviam trabalhado juntos em Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, aqui a marca registrada é escatologia e o politicamente incorreto. O que é uma faca de dois gumes conforme discorro abaixo.

A história traz um grupo de amigos que tentam filar uma graninha como Youtubers seguindo a cartilha dos Caça-Fantasmas – aqui se autodenominam Caça-Assombrações – e tentam, a qualquer custo, se firmarem como celebridades. Mas os negócios só vão de mal a pior. Quando um incidente numa escola é associado à lenda da Loira do Banheiro, a turma é chamada para fazer apenas uma encenação para os alunos, a fim de os acalmarem, para que a paz retorne. Mas uma vez dentro do colégio, eles descobrem que a lenda urbana é real e terão que fazer literalmente tudo para escapar com vida.

Além de Gentili como protagonista principal – ele também assina a produção e roteiro ao lado de Bittar -, o elenco ainda conta com comediantes conhecidos do público nacional como Murilo Couto e Léo Lins (da patota do The Noite), Dani Calabresa e até o Ratinho faz uma ponta. Mas quem realmente se destaca dentre tantos nomes são as atuações de Sikêra Júnior como o diretor Nogueira e a pequenina Pietra Quintela como a encarnação da Loira do Banheiro, que mescla a sua simpatia e carisma de uma linda criança, com a assustadora assombração da menina Catarina, nome verdadeiro do mito. Dentre os nomes mais conhecidos, a atuação de Murilo Couto é a mais convincente, creio que por sua carreira ter se iniciado como ator.

Será que lembra o Sr. Williams?

Meu querido amigo Rodrigo Aragão sempre defendeu que, para que o cinema de gênero fosse bem visto nas telas e aceito pelo público brasileiro, deveria deixar de lado as fórmulas americanas e adotar o folclore nacional riquíssimo como ponto de partida e valorizar a nossa cultura. Particularmente eu adorei ver uma das lendas urbanas mais famosas do nosso imaginário popular retratadas no cinema, ainda mais da maneira que foi, com altas doses de gore e efeitos práticos incríveis. Apesar da estrutura do filme ser completamente “gringa” e se espelhar no splatistick de Sam Raimi e Peter Jackson.

Falando em efeitos e tudo mais, este filme possui doses cavalares de sangue jorrados em tela assim como uma violência gráfica raríssima vista no panteão do cinema nacional. Louvável o trabalho da maquiadora Denise Borro e do já conhecido e prolífico Kapel Furman, um dos monstros dos efeitos especiais que já trabalhou em diversos longas que vão desde O Cheiro do Ralo e Encarnação do Demônio até o mais recente O Nó do Diabo e um dos apresentadores do programa Cinelab, além de diretor de segmentos de terror e curtas-metragens.

Se por um lado toda a parte técnica, inclusive a direção de Bittar que é firme e segura, sobram em tela e são motivos de aplausos com aquela escatologia literalmente explodindo na cara do espectador, por outro lado chega uma hora que as mesmas piadas, repetidas até de forma incessável, cansam. Principalmente das piadas de Gentili, que em sua maioria são todas sem graça, adicionando com seu pequenino traquejo como ator, influenciam negativamente o resultado final do longa. E já que ele é o principal da trama e passa a maior parte do tempo em cena, creio que muitas pessoas cansarão das tentativas de diversão ou simplesmente boicotarão o filme, e não os julgo. Dado ao cenário político do país, não creio que muitas pessoas sejam a favor dele ou do filme…

No mais, ao melhor estilo Ash vs Evil Dead, com todas as suas piadas de mau gosto, sangue à rodo, nojeira, com direito a um feto demoníaco e um cocô-mutante, Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro acaba se tornando divertimento para quem procura um filme totalmente despretensioso e sem nenhum anseio de querer ser mais do que é.

Deixando de lado o asco com uma das figuras mais detestáveis da televisão brasileira, vejo este projeto – que aparentemente pode se tornar uma cinessérie explorando mais lendas urbanas, como o Chupacabras ou O Homem do Saco – como audacioso e corajoso, além de fomentar  a indústria a acreditar e investir mais no terror nacional. Só tente relevar boa parte das piadas sem graça, exageradas, fora de tom e do tempo em que vivemos, e um comediante execrável, e delicie-se com o mau gosto e a chuva de gore em cena. Mas cuidado para que não respingue um pouco em você!

3,5 litros de sangue para Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro

Reunião de pauta pra matar o cramunhão


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

2 Comentários

  1. José disse:

    Na onde você viu esse Splatstick ? Quando será lançado ?
    Fiquei muito curioso e ansioso pelo GORE , pois quanto mais melhor !

  2. João Paulo Rosa disse:

    Não consigo assistir nada que tenha a presença do desaplaudido “humorista” do (também desaplaudido) SBT.

    O que me deixa puto é que gente muito talentosa sofre para conseguir a visibilidade/orçamento que este “apresentador” consegue. Uma pena.

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