Review 2018: #71 – O Segredo de Davi

Psicopata Brasileiro


O ato de assistir a filmes, assim como a própria experiência cinematográfica, é essencialmente subjetivo. Para alguns, o prazer reside na reunião com os amigos, acompanhados de risadas e pipoca. Para outros, o cinema é mais introspectivo, demandando certas condições como silêncio, escuridão e solitude. Há ainda aqueles que utilizam dispositivos portáteis, outros que são apegados à imagens de alta resolução e uns que não se importam em conferir aquela cópia pirata de origem duvidosa.

Para este crítico que vos escreve, frequentar salas de cinema é a forma definitiva de experienciar a sétima arte. Por consequência, vou ao cinema ao menos uma vez por semana, tanto para conferir lançamentos de terror ou blockbusters, quanto obras mais cults ou clássicos, em mostras e festivais. Tenho mantido esse hábito já há alguns anos e 2018 provou-se um ano especial. Assisti um total de 17 filmes de terror nas telonas, sendo quatro deles brasileiros.

As Boas Maneiras foi o primeiro longa de gênero nacional que pude conferir no circuito comercial. Talvez os paulistas estejam mais acostumados ao feito, mas nós belorizontinos nem tanto. Recordo-me de algumas oportunidades perdidas pela inviabilidade de horários ou baixíssima divulgação, como foi o caso de O Nó do Diabo, também de 2018. Assisti ao conto de fadas de Juliana Rojas em sessão relativamente cheia, no nosso querido Cine Belas Artes. E então pude conferir O Animal Cordial, pouco depois A Mata Negra e, por fim, O Segredo de Davi.

Salvo engano, o último já se tornou o terror brazuca que se manteve por mais tempo em circuito comercial. Entendo que o nosso cenário finalmente começa a despontar, após alguns bons anos de muito empenho e dedicação por parte de diversos cineastas, ocupando assim espaços que até então não os pertenciam. É essa acessibilidade, já há muito merecida, que faz o gênero cair na boca do povo e a roda da indústria girar em prol de uma cena mais evidente, mais poderosa e mais concorrida.  

Essa reflexão vem martelando minha cabeça desde o momento em que saí de casa numa sexta-feira pela manhã, para assistir O Segredo de Davi na sessão (única) de meio-dia, em um simples esforço de valorizar a cena, já que não conhecia sequer a sinopse do mesmo e sai da sala de cinema extasiado, mais uma vez, por um filme de terror nacional.

Semente do mal

Logo de cara já cito o esforço hercúleo do cineasta paulistano Diego Freitas, que seguindo a tradição de caras como Mojica e Aragão, atua em diversas instâncias de produção em O Segredo de Davi, assinando a direção, roteiro, edição e produção. Daí fica claro o domínio que o realizadors possui sobre a própria obra.

Esse novo cinema de horror brasileiro assemelha um daqueles espelhos distorcidos de circo, que dão formas bizarras a realidade. Uma rápida observação por sobre o que de mais notável foi produzido em 2018, encontraremos denúncias ao racismo, ao classismo, a desigualdade de gênero e a destruição sistemática do meio-ambiente, na forma de monstros, espíritos, demônios e assassinos monstruosos. É de se esperar que, em um momento historicamente tão conturbado, o papel político do horror se faça presente, e no nosso país isso se dá de forma bem diversa e divertida.

A priori O Segredo de Davi me parece se distanciar um pouquinho desse teor politizado em prol de uma jornada mais psicológica ao redor do personagem título, interpretado por um irreconhecível e insano Nicolas Prattes, um verdadeiro metamorfo em quadro. Inteiramente centrado em Davi, o filme realiza um movimento em espiral, enquanto acompanha o jovem psicopata em seus delírios criminosos.

Davi é um estudante de cinema com um passado misterioso e uma propensão ao assassinato em série. A necessidade de conciliar essas duas vidas tão distintas o torna um figurão de difícil relação e comportamentos estranhos. Há algo de Dexter Morgan em suas tentativas de emular a realidade para se misturar a ela, porém o ímpeto da juventude e a ausência de uma figura guia faz com que ele seja muito mais imprevisível e bem menos ético, se é que se pode falar de ética entre serial killers.

Por falar nisso, entrei em 2018 com certa expectativa para com alguns filmes. Dentre eles, a adaptação da HQ homônima Meu Amigo Dahmer figura entre os mais decepcionantes. Mesmo com meu review inicialmente positivo, essa adaptação sobre os primeiros anos do serial killer canibal tem se provado cada vez mais esquecível com o passar dos meses, bem distante daquilo que ocorre com a outra cinebiografia desse que é um dos homens mais monstruosos da modernidade. Falo de Dahmer (2002), estrelando um jovem Jeremy Renner em sua performance mais visceral até os dias de hoje, um dos filmes mais angustiantes e inquietantes da década passada.

Será que esqueci o corpo no fogo?

Faço esse pequeno adendo por julgar interessante certas semelhanças entre Davi e Dahmer, ambos jovens loiros, óculos de grau, possuidores de disfunções psicológicas graves, inabilidades sociais e uma dificuldade crescente de lidar com impulsos sexuais homossexuais e a culpa subquente, que se mescla ao ímpeto violento dos mesmos. Para além das diferenças mais óbvias entre os dois assassinos, tenho segurança em afirmar que O Segredo de Davi é um filme superior, com uma proposta visual bem mais expressiva e um enredo bem mais cativante. As escolhas estéticas de Freitas são orientadas por uma frieza e sobriedade que, associadas ao ótimo trabalho de direção de fotografia, refletem a beleza mórbida de Davi. Até opções aparentemente simples, como o moletom branco ou a trilha de sintetizadores, ressaltam essa estilização absoluta que carrega o filme de energia.

Porém, o mundo que o cerca é tão frio e garboso que tornou-se pouco brasileiro, ao meu ver. O ambiente universitário e seus alunos é tão burguês, com seus cachecóis e sobretudos que por um momento pensei que o filme não se passaria no Brasil. Esse distanciamento me causa incômodo, mas ao mesmo tempo me soa plausível, considerando a clara elitização que permeia os cursos particulares de cinema, não apenas financeiramente, mas também pseudo intelectualmente. Suponho que tal encenação espelha a própria experiência universitária/escolar de Freitas, por meio da metalinguagem.

Lendo outros textos e comentários a respeito de O Segredo de Davi, observei uma recorrência crítica da qual compreendo, mas não compartilho. A amplitude de comportamentos de Davi, por vezes parece não ter um foco, tentando abraçar muitos aspectos ao mesmo tempo, sem explorá-los devidamente.

Auto-conhecimento

Compartilho com essa crítica no que tange ao exibicionismo internético, que achei subaproveitado em meio as outras camadas psicológicas de Davi. Em compensação, todas os outros comportamentos e ideias são fruto de uma insanidade e propensão para o mal que estão arraigadas no núcleo desse personagem e fazem total sentido dentro das características esperadas de alguém como ele, tais quais: a instabilidade emocional, impetuosidade, manipulação, mentira, voyeurismo e etc. Novamente cito a performance visceral de Prattes, que nada se assemelha ao galã romântico da novela das sete. Seu personagem é interessante, atraente e bastante carismático, ao mesmo tempo que consegue ser repulsivo, odioso e digno de pena.

Um filme centrado no estudo de um personagem precisa confiar no poder do mesmo. O trabalho de Freitas constrói esse Davi com precisão e riqueza, enquanto a fotografia, a direção e a montagem vão cimentando essa construção aos poucos, optando por caminhos estéticos bastante incomuns e com resultados interessantíssimos. A escolha por efeitos visuais, deveras ousada e perfeitamente executada, diga-se de passagem, acrescenta um ar de realidade fantástica ao filme que considero a cereja do bolo.

Creio que, na data de publicação do presente texto, O Segredo de Davi já tenha deixado a maioria das salas de cinema. Em contrapartida, A Mata Negra, de Rodrigo Aragão corre pelo circuito da rede Cinemark, em diversas capitais do país, além daquela outra estreia do comediante reaça, mas que serve pelo menos para contabilizar como mais uma produção de horror que viu a luz da tela grande neste ano,e talvez tenhamos a oportunidade de assistir Daniel de Oliveira em Morto Não Fala, de Dennison Ramalho e exibido no Festival do Rio, também nas telonas e o impactante Mal Nosso de Samuel Galli no primeiro semestre de 2019.

A mensagem ficou bem clara, né? Mas vou repetir mais uma vez, tá: Vá ao cinema assistir a esse novo terror brasileiro, e todos os lançamento que for possível!  

4 câmeras filmadoras para O Segredo de Davi

Delírio


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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