Review 2018: #72 – Fortuna Maldita

Quando demônios, splatter e o horror asiático se encontram


Toda vez que for possível nesta vida, eu vou salientar que o melhor segmento da trilogia found footage V/H/S é Safe Heaven, presente no segundo filme, e que me obrigou a pausar o mesmo ao seu final e tomar um fôlego, incrédulo com a porra-louquice que acabara de ver e soltar um PUTA QUE ME PARIU em alto e bom som. Méritos da dupla que dirigiu o curta: Gareth Evans e Timo Tjahjanto.

Responsáveis pelo tresloucado novo cinema extremo indonésio, que mistura o cinema de ação na mais alta dose de adrenalina e pancadaria com a profusão do gore, a dupla mescla seu apreço pelo cinema de porrada com o horror, e ambos foram acolhidos pela Netflix neste 2018 salutar para nos presentear com dois dos melhores filmes do gênero do ano, sem sombra de dúvida: Evans e seu Apóstolo, e Tjahjanto com Fortuna Maldita.

Daquelas maravilhas sem noção que vira e mexe aparece no cinema de terror e delicia o fã de fitas como A Morte do Demônio e Demons – Filhos das Trevas, e abusando de recursos e efeitos tão típicos do J-Horror e do cinema de horror do sul da Ásia do final dos anos 90 até meados dos anos 2000, mesmo hoje sendo uma fórmula desgasta. Exatamente essa narrativa de filme de ação com terror e estética rocambolesca são as cerejas do bolo de Fortuna Maldita.

O filme já começa pesado com um pacto com uma entidade demoníaca em busca de fama e fortuna. Que durantes os créditos, vamos percebendo que deu certo por um tempo, mas claro que todo trato desse tipo cobra um preço. O que se segue nos próximos vinte minutos da projeção são esses elementos clássicos do terror asiático mas que não cabem mais, por parece apenas cópia em carbono de suas próprias amarras criativas. Fantasmas feios de dar dó, maltrapilhos e cabeludos, que levitam e se arrastam em busca do jumpscare.

Tempo tá muito seco!

Eu mesmo estava já de nariz torcido com essa escolha estética e narrativa para o longa, porque o subgênero para mim já deu tudo que tinha que dar, que foi o que aconteceu comigo ao assistir Satan’s Slaves, outro horror indonésio recente e que nem consegui ver até o final. Apenas para que depois de 30 minutos ele desse um giro de 180º e virasse um frenesi infernal de sangue, demônios, possessões e nojeira que fariam Sam Raimi e Lamberto Bava sentirem orgulho.

Tjahjanto daí apela para o horror físico, a violência gráfica, sangue à rodo, imagens de encostos dos bem feios e impressionantes, levitações, e um monte de diversão, tudo ligado no 220v, metendo os herdeiros de Lesmana, o outrora empresário rico que perdeu tudo e está moribundo no hospital – aquele mesmo do pacto no começo do filme em busca de, hã, fortuna maldita – em uma casa isolada na floresta, tendo que lidar com futricas familiares, o extremo e visceral ataque da mãe/madrasta possuída pela entidade aprisionado no porão e que entra naquele espiral frenético que estamos acostumados nos trabalhos do cineasta.

Aquele tipo de cinema de horror splatter dos anos 80, de Sam Raimi passando pela italianada toda, que a gente tanto gosta, sendo que as referências mais gritantes são as já supracitadas, mas com o misé-en-scene dos mais bregas, ótima fotografia, direção de cenas e atores – está lá a câmera na mão e o cinema de guerrilha desvairado Made in Jacarta – permeado pela estética do absurdo.

É o estilo de assustar pelo grafismo, causar repulsa pelo nojo e deixar uma má impressão pela imagética poderosa das criaturas das trevas, misturados com o que foi mais prolífico do cinema de horror sul asiático, com as aparições e jumpscares cirúrgicos. Basicamente, pega os dois tipo de filme que muita gente detesta e tem medo de assistir. Tudo isso ainda com os dois pés no peito, anfetaminado e com grandes pitadas de absurdo e sem medo de parecer exagerado, piegas e abrir espaço para o riso de deboche das situações.

Não deixe passar batido por essa pérola, produção original da Netflix, por conta de um nome esdrúxulo com Fortuna Maldita. É mais um dos melhores desse ano que eu nem tenho mais adjetivos para descrever, dirigido por um dos diretores mais quentes da atualidade, e que promete divertir e satisfazer seu desejo por sangue em profusão de um jeito porra louca, cortesia do efervescente cinema indonésio.

4 pactos com um demônio indonésio para Fortuna Maldita

Remédio para dor de cabeça!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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