Review 2018: #73 – Downrange

Trama simples e direta, regada a uma boa dose de gore e violência


Muitos dos filmes lançados esse ano, como Hereditário e Mandy, seguem um tipo bem específico de narrativa, mais lenta, onde os degraus do horror vão sendo galgados aos poucos, utilizando um ritmo que pode soar um pouco arrastado, e que vai culminar em seus apogeus, geralmente lá pelo segundo ou terceiro ato, pegando ou não o público de surpresa, dependendo da qualidade da obra ou da expectativa de quem o vê.

Há quem prefira aquele tipo de filme em que a tensão vai se construindo devagar, onde você vai conhecendo os personagens, se identificando com eles. Quando a história começa a se desenrolar você já está, de certo modo, familiarizado com a trama, buscando algumas respostas e encaixando algumas peças no roteiro, porque a fita te dá tempo suficiente para que o espectador crie esse vínculo com a história como um todo.

Há, no entanto, uma boa fatia que gosta muito mais daquele tipo de narrativa que vai direto ao ponto, sem tentar criar firulas – que às vezes são desnecessárias, vai – ou ludibriar o incauto fã do horror com plot twists mirabolantes. Muitas vezes o direto e reto, quando bem feito, pode ser tão interessante quanto uma obra construída lentamente, principalmente para quem não tem muita paciência e só quer ver desgraça. Nesse caso, Downrange é uma ótima pedida.

No novo filme do diretor japonês Ryûei Kitamura (que tem no currículo o excelente O Último Trem), o feijão com arroz já começa a ser mostrado logo de cara no início do filme, com uma premissa pra lá de básica: seis pessoas estão viajando de carro, quando um pneu estoura num lugar ermo. E isso acontece logo no primeiro minuto de filme, veja bem. Então o casal Sarah (Alexa Yeames) e Todd (Rod Hernandez), além dos amigos Jodi (Kelly Connaire), Keren (Stephanie Pearson), Eric (Anthony Kirlew) e Jeff (Jason Tobias) são obrigados a parar no meio da estrada deserta, num lugar onde não há sinal algum de civilização, muito menos de celular.

Sabe quando você olha pra alguém e consegue ver dentro dela?

Como na vida real, nenhum deles ali sabe trocar um pneu, e como não há a possibilidade de pedir ajuda ou de ligar para um guincho, eles ficam por ali, uns tentando entender como funciona a mecânica de usar o estepe, e outros mais preocupados com selfies. Mais gente como a gente que isso, impossível! Quando Jeff está quase terminando de trocar o pneu, ele descobre que o estouro foi ocasionado por um tiro, mas aí já é tarde demais e, rapidamente, os jovens se dão conta de que há um atirador escondido em algum lugar da estrada, entre as árvores, caçando-os à distância.

Aí claro que eles vão passar boa parte do filme tentando se esconder como podem, usando o carro como escudo, e buscando alternativas para saírem da mira do assassino. Nesse meio tempo, vai rolando um verdadeiro banho de sangue em cena, com um nível absurdo de violência gráfica. Tiros são disparados em profusão, cabeças são esmagadas, olhos são estourados, tudo acontece de maneira muito rápida e non-stop. O medo e sensação de impotência da turma vai aumentando, e o desespero de quem está assistindo também.

Pra piorar a situação, um outro carro, onde uma família composta por um moça, seu pai e sua filha, aparece naquela mesma estrada. O que parecia ser a salvação para os jovens, no entanto, se mostra algo inútil, pois o sniper também alveja o carro, causando mais desgraças e mortes violentas. Na verdade, essas aparições em tela, tanto da família em viagem quanto a de um trio de policiais incompetentes que aparece no local, nada mais são do que material para mais contagens de corpos.

Em nenhum momento, Kitamura nos dá pistas de quem é o atirador, apesar de vermos sua figura camuflada e assustadora em determinados momentos. Não sabemos nem mesmo sua motivação, se ele pode sofrer de algum stress pós traumático de guerra ou só ser um maluco a favor das armas, sabe como é. A única coisa que temos certeza é que essa não é a primeira vez que o assassino matou alguém ali, algo que é jogado pra nós logo no começo, quando Sarah vai atualizar a rede social e vê um pequena homenagem fúnebre, feita em memória a alguém que possivelmente morreu no mesmo local, além de outras sutilezas ao longo da fita.

Na saúde e na doença…

O suspense do filme é todinho sustentado no elemento surpresa, já que ficamos a todo momento tentando adivinhar de onde virá o próximo tiro ou, pior ainda, quem será o próximo a morrer. Muitíssimo bem dirigido, com câmeras ágeis e atuações que, se não são de todo boas, também não comprometem, Downrange termina justamente como começa, de maneira abrupta e com zero explicações. Ao meu ver, isso nem é necessário.

Aliás, o filme tem um final tão absurdo que chega a ser cômico, daqueles de você ficar incrédulo com a estupidez humana. Eu só conseguia olhar para a tela atônita, me perguntando se aquilo era realmente sério. Além disso, tem algumas derrapadas, como quando o diretor tenta humanizar demais seus personagens, com dramas que parecem descabidos e menores naquele momento, além de quebrarem um pouco a agilidade da história e que carece de melhor atuação para ser convincente. Isso não desabona de maneira nenhuma o filme que, num geral, é extremamente divertido e tenso, o que pra mim é uma das combinações que mais dão certo dentro do gênero.

Pra quem está acostumado com os filmes com um desenrolar cadenciado, como os que citei no começo do review, a trama pode soar exagerada e caricata em alguns momentos, já que o desenrolar não nos dá tempo de pensar ou de digerir tudo com calma. No entanto, vale lembrar que a fórmula para um bom filme de terror está toda ali: seu roteiro simples mas eficaz, sua tensão esmagadora e um gore excessivo. Downrange é a prova de que, quando a execução é boa, a receita mais simples pode ficar excelente.

4,5 pneus estourados para Downrange

Não olhe agora…


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

1 Comentário

  1. Guilherme disse:

    Eu gostei da tensão do filme, mas aquele final… Meu Deus. O gore também foi bom, mas aquela cena da família foi meio brutal demais pra mim. Como você mesma disse, a trama foi simples, e até que original, mas poderiam ter desenvolvido melhor o vilão, mesmo que acabasse explicando as razões dele, as vezes não precisa, mas sei lá, eu consigo imaginar esse filme se tornando uma franquia, se o final fosse outro.

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