Review 2018: #74 – Unfriended: Dark Web

Jovens incautos se ferrando na deep web em velocidade 5G…


Lançado em 2015, Amizade Desfeita é um filme imprescindível para seu tempo. Terror millennial que lidava com temas espinhosos como revenge porn, slut shaming e cyberbullying, que levou a jovem Laura Barns ao suicídio após a exposição de um vídeo embriagada ser postado na Internet. Os envolvidos acabam se vendo em um sádico jogo “cybernatural” de vingança espectral. Colocando em tela o que os jovens têm medo de verdade nos dias de hoje.

Além disso, a produção de Timur Bekmambetov e Jason Blum também inovou na forma frenética e multitela em que retrata toda a produção sob o POV de um Macbook, filmado em tempo real, mostrando as reações online e super conectadas das jovens vítimas. Unfriended: Dark Web retoma a esse estilo narrativo e decide tocar em outro assunto bastante espinhoso: a tal da deep web.

Ponto para o novo longa, agora escrito e dirigido por Stephen Susco em seu debute na direção, mas que carrega na bagagem os roteiros de O Grito e sua sequência e o sofrível O Massacre da Serra Elétrica 3D: A Lenda Continua. Deixa de lado a ideia original, que seria mais uma caçada vingativa do espírito online incansável de Laura Barns, mas dessa vez na “Teia Profunda”, em detrimento de uma história original, com novos personagens e um novo conceito.

A ideia de explorar o universo da deep web, antro de todo tipo de perversão humana e de coisas abaixo do nível social e da lei, tipo sequestro de pessoas, tortura e morte para satisfazer desejos doentios de gente com MUITA GRANA e um bando de nerds hackers, o controle e nossa exposição online e a invasão de privacidade através da webcams dos nossos laptops e microfones dos nossos smartphones, é verdadeiramente assustador e perturbador, por ser algo que pode estar tão próximo de nossa realidade tecnológica.

Dark Web pega esse medo digital em tempos de Black Mirror e eleva o nível em altos graus de paranoia e de pavor da tecnologia e principalmente, do próximo, e tanto por causa de seu plot twist – importante para que você consiga apertar numa boa o seu botão da suspensão da descrença e entender e aproveitar melhor a trama, mesmo duvidando de muitas atitudes dos personagens e da forma com que as situações foram meticulosamente acontecendo e premeditadas.

Enquanto em Amizade Desfeita, o fator “sobrenatural” te leva para outro estágio de aceitação do longa, misturando a questão do fantástico, aqui, investe em um filme mais “pé no chão” e “realista”, apesar de você duvidar boa parte e achar tudo do bem paia e forçada na barra – principalmente por estarmos tratando de um filme que se passa em tempo real e depende das atitudes dos personagens, que infelizmente acabam caindo na obviedade e clichê, apesar das interessantes inventividades do roteiro, que pode parecer inverossímil demais em um primeiro momento, mas que se encaixa com sua revelação final se você ligar os pontos e relevar.

Trocando ideia no mIRC

Temos aqui operando uma organização secreta da deep web onipresente, que meticulosamente consegue levar a cabo um plano em perfeição de relógio suíço, sem erros e descuidos, e estar em todos os lugares ao mesmo tempo, invadindo qualquer tipo de local, cometendo assassinatos em locais públicos, tudo para dar um “inicialmente” corretivo num grupo de jovens (mais uma vez em uma rodada de conversação por Skype enquanto o POV é do Macbook de um dos membros) que acaba “esbarrando” em suas operações ilícitas, quando um deles “encontra” a máquina que pertencia a um dos membros dessa organização no achados perdidos da cafeteria onde trabalha.

Viu o tanto de aspas? Porque há muito mais que isso por trás e o roteiro te entrega lá no final todos uma forma de tapar todos buracos de dúvida e de suspeita que você tinha, mesmo que para isso, aposte um estratagema preciso e orquestrado com perfeição (às vezes até demais, o que faz em certos pontos o roteiro ser difícil de engolir), organizado  por essa temível galera de capuz preto que só tá a fim de uma diversão mórbida na rede mundial de computadores.

Tudo bem, o lance que sua vida pode estar sendo invadida por meio dos nossos devices e que realmente é de gelar a espinha o que se pode fazer na deep web se você tem grana e desprezo total pela vida alheia: de tráfico de órgãos a compra de armas, contratar assassinos de aluguel, necrofilia, pedofilia, perversão sexual, voyeurismo, e por aí vai. Mas vale lembrar que tudo se desencadeia pelo bom e velho fator da burrice humana, como diz Abyssus Abyssum Invocat, a senha secreta em latim, que significa “um passo errado leva a outro”.

A curiosidade matou o gato, ainda mais que a premissa seja a coerção pelo medo e ameaça a vida. Mas o calcanhar de Aquiles do longa são algumas situações que passam do limite do aceitável, tipo a menina surda que recebe a mensagem e vai entrando num prédio escuro completamente abandonado daquele jeito, sem desconfiar nada. Sério?

Unfriended: Dark Web tem seu grande mérito pelo tema, e seu demérito por ser muito esquemático, tudo sair conforme o planejado, o que se comprova com o final. Talvez se não fosse um filme que tentasse passar a ideia de tempo real transcorrido e que a vida daqueles envolvidos fossem aos poucos indo para o vinagre em uma sequência de acontecimentos que acabaria com suas existências pacatas aos poucos, a ideia pudesse ser muito melhor aproveitada. Mas como em “time que está ganhando, não se mexe” e Amizade Desfeita fez muito sucesso naquele formato, sua sequência seguiu essa estética, apesar de ter um efeito social e questionar menos pungente que o original.

Ao menos, serviu para eu colocar de vez uma fita isolante na frente da câmera do meu notebook.

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Inception


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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