Review 2019: #02 – Vidro

Super Poderes e reviravoltas


Às vésperas do lançamentos de Vidro, revi os antecessores Corpo Fechado e Fragmentado, buscando uma imersão completa no universo super-heróico de Shyamalan. Foi a primeira vez que revisitei Corpo Fechado desde seu lançamento, em 2000. Encontrei um filme impressionante, dos melhores da carreira do cineasta. Chamaram-me a atenção o ritmo pulsante e envolvente e a câmera propositalmente tímida, observando aquele mundo discretamente, como quem espia por trás de objetos e reflexos.

Fragmentado, por sua vez, mostrou-se menos impactante, muito provavelmente por ser território familiar, sem aquela imprevisibilidade da primeira vez. Fica claro que é muito mais um filme de McAvoy e Anya Taylor-Joy do que do próprio Shyamalan. Por mais que o cineasta detenha os méritos da concepção de personagens, está apagado na direção.

O primeiro ato de Vidro segue os passos de seu predecessor, colocando a Horda – as vinte e quatro personalidades que habitam o corpo de Kevin Wendell Crumb – numa situação com reféns, apenas três semanas depois de ser baleado por Casey (Taylor-Joy). Novamente, um grupo de adolescentes é mantida em cativeiro para servir de alimento sagrado para A Besta, enquanto as outras personalidades, como Hedwig e Patricia, disputam a luz. A diferença aqui é que a Horda está sendo caçada pelo Vigilante,personagem de Bruce Willis, que tem se dedicado nos últimos anos a patrulhar a cidade no melhor estilo super-herói.

A reapresentação dos dois super-humanos culmina em um violento combate corpo a corpo entre A Besta e o Vigilante. O resultado, como já denunciado pelos trailers é o encarceramento dos dois em um hospital psiquiátrico.

Até esse ponto, o cinema de horror se sobressai. É uma caçada ao monstro que atravessa o território dos filmes de lobisomem. A primeira aparição da Besta na fábrica abandonada é até mais assustadora que no filme anterior. O próprio Vigilante, sempre oculto por sua capa verde-escuro traz um quê de mistério a la Homem-Morcego que se encaixa na pegada escura e sombria desse início.

“Eu quero falar com o professor Charles Xavier”

Se o último ato de Fragmentado o transforma rumo ao sobrenatural e ao fantástico, Vidro o faz logo no segundo ato, dando uma guinada brusca em outra direção que não se aproxima de nenhum de seus predecessores.

No hospital, os dois se veem à mercê da psiquiatra Dra. Ellie Staple, personagem caricata interpretada por Sarah Paulson, dada a discursos intermináveis e expositivos. De quebra, ainda dividem espaço com Mr. Glass, o vilão desequilibrado, genial e quebradiço de Samuel L. Jackson.

Creio que esse segundo ato será o ponto de ruptura para a maioria. Temos uma sequência interminável de… explicações! É como se cada personagem tivesse uma necessidade constante de explicar a situação em que se encontra e seus porquês, de tal modo que estão quase todos estagnados. Não há muito progresso narrativo aparente, apenas discussões e mais discussões. É como se, em um quadrinho, estivéssemos lendo as maquinações dos heróis na sala de emergência, cada um destilando os próprios motivos e ideias.

McAvoy é quem mais brilha, nessa parte, desfilando as diversas personalidades da Horda, incluindo muitas que não apareceram antes. Bruce Willis já foi um bom ator, hoje se limita a uma única expressão, o que afeta negativamente David Dunn nos momentos de carga dramática. Ainda assim, o elo fraco é a personagem/ performance de Sarah Paulson, repetitiva e exagerada, com um discurso preguiçoso e extremamente forçado.

Em paralelo, há um pouco mais de desenvolvimento de personagens secundários, mesmo que nunca o suficiente, já que são figuras interessantes. Estes, assim como os protagonistas, parecem igualmente estagnados. Até mesmo a direção de Shyamalan perde o gás e se torna burocrática e automática nesse momento

Saudades American Horror Story

É aí que entra em cena Mr. Glass. Para evitar spoilers, já que a surpresa é fator preponderante, serei breve no meu comentário. Quando Glass assume seu papel de destaque, as engrenagens que movem o filme, até então paradas, voltam a girar com força total. Tudo que não aconteceu ao longo de boa parte da projeção, começa a se desdobrar e caminhar em direção ao showdown. Isso inclui também os enquadramentos e ângulos de câmera que exibem vestígios da criatividade estética de Corpo Fechado.

A resolução, como é de se esperar, pensando na obra do cineasta, guarda sua reviravolta brilhante. Na verdade não apenas uma, mas várias! Quando menos se espera, há uma outra guinada que aponta para um final diferente. Infelizmente, o último plot twist foi um pouco previsível demais para os padrões Shyamalanicos.

O mote dos super heróis é muito relevante para a devida apreciação do longa. O terror é deixado de lado em prol desse tema, aproximando Vidro de Corpo Fechado muito mais que de Fragmentado. Shyamalan faz comentários que remetem constantemente ao cenário de cultura pop contemporâneo, dominado em grande escala pelo universo Marvel e afins.

Há um certo cinismo por parte da personagem de Sarah Paulson que, vez ou outra, parecem indicar um desgosto do diretor por esse gênero tão característico de nossa época. Pensando a obra como um todo, o oposto me parece muito mais verdadeiro. Acredito que, com Vidro, Shyamalan esteja afirmando e defendendo o universo dos quadrinhos e suas adaptações como uma força criadora poderosa e que encapsula os mitos da modernidade, tal qual fazia Homero em suas epopéias, o que condiz com o discurso de Mr. Glass.  

Vidro reafirma que Shyamalan é um diretor de visão própria e particularmente avesso a repetição, mesclando o lado mais sério do universo heróico com pitadas de cinema de gênero e sua própria marca. Ao menos tempo que é muito menos coeso que Fragmentado, é bem mais ousado e ímpar. Diria até que é um filme que será mais apreciado com o passar dos anos, já que a crítica tem se mostrado cada vez mais inflexível com aquilo que não alimenta seu próprio ego.  

4 Personalidades para Vidro

AQUI É BODYBUILDER P****! VAI SUBIR EM ÁRVORE É O C******!

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

1 Comentário

  1. José disse:

    Cara , eu nunca tive vontade de ver Vidro e nem vou ver , assim como também o ” desnecessário ” remake de Cemitério Maldito (2018) que achei o trailer fraquíssimo .
    Alguns filmes que eu queria ver eu já vi nesse início de 2019 , o excelente Suspiria (2018) , o divertido Anna And The Apocalypse (2017) , Lifechanger (2018) que não gostei , mais tive uma grata surpresa com o Who’s Watching Oliver (2017) . O próximo que vou ver que é uma prioridade de 2019 é o Piercing (2018) do mesmo diretor do filmaço The Eyes Of My Mother (2016) .

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