Review 2019: #03 – Suspiria

Visões das trevas


Suspiria, de Dario Argento, é majoritariamente um filme sobre as artes plásticas.  Seguindo a tradição artística introduzida no cinema de horror por Mario Bava e o giallo, e ao mesmo tempo elevando essa potência a um novo patamar, Argento utiliza composições de cor e imagens que remetem constantemente a pintura, criando tableaux de beleza inimaginável que se inscreveram na história do cinema.

Nessas imagens fantásticas, conta-se a história de uma bailarina americana que ingressa em uma escola de balé alemã e lá se depara com um conciliábulo de bruxas. É uma trama clássica simples que se destaca pela construção estética e pela trilha sonora lendária da banda Goblin.

O Suspiria de Luca Guadagnino se vale do mesmo mote da garota americana na escola de dança comandada por bruxas. Porém, sem as influências do giallo, distancia-se da estética plástica e busca uma aproximação com elementos presentes no outro filme, porém pouco explorados por Argento, que são a dança e as bruxas.

Se lá no filme de 77, a academia se dedicava ao balé clássico, como visto em uma ou outra cena, a versão de 2018 se esbalda na dança contemporânea. A Academia de Dança Markos, comandada por Madame Blanc (Tilda Swinton), se divide em dois grupos distintos: o das matronas, todas bruxas que se articulam ao redor da figura das Três Mães e as jovens dançarinas, cujos corpos em movimento são peças cruciais em seus rituais diabólicos.

Tomando como base as cenas de morte iniciais de cada filme, é possível entender bem essa diferença fundamental entre original e remake. Logo no início da obra-prima de Argento, vemos uma entidade estranha perseguir e assassinar a dançarina Pat, em uma sequência icônica. Em seus últimos instantes de vida, a jovem de cabelos loiros e olhos azul-bebê arregalados se vê banhada no próprio sangue, que brilha em um vermelho vívido, enquanto o assassino misterioso lhe desfere golpes no peito. Caída sobre um vitral de outras tantas cores, o assassinato e o corpo morto tornam-se obra de arte, uma pintura belissimamente horrível.

Enquanto isso, a primeira vítima na versão nova é Olga, que se vê sob um feitiço poderoso, que conecta seu corpo aos movimentos de uma bailarina. Cada movimento realizado por essa outra bailarina força o corpo de Olga a realizar movimentos impossíveis que resultam em sua total destruição, numa das cenas mais impressionantes do cinema de horror recente.

50 tons de bruxaria pesada

A trama se desdobra conforme as bailarinas jovens vão notando as estranhezas do ambiente que as circundam e as bruxas conspiram para atingir seu objetivo final. Essas matronas se dividem em seguidoras de Blanc e Markos, cada uma com ideias próprias sobre o destino da academia e das bailarinas.

Ressalto um momento que mais evidencia essa disputa interna entre essas figuras de liderança. Em dado momento, Markos se encontra em uma câmara embaixo do piso no salão de ensaios, exercendo sobre Susie (Dakota Johnson) um tipo de atração que a prende ao chão. Logo depois, há uma discussão entre Susie e Blanc, sobre a execução de uma das sequências da apresentação que estão ensaiando. No passo de Blanc, Susie deveria saltar, cada vez mais alto, como se tentasse voar/ se libertar. Ainda atraída pelo poder de Markos e seus métodos, Susie diz que o melhor seria manter-se próxima ao chão, realizando movimentos que no balé contemporâneo são chamados de floorwork.

Existe um tipo de relação entre feminilidade e liberdade que se faz presente o tempo inteiro nessa interação entre dança e ocultismo. Nos últimos anos, a bruxaria tem ressurgido com força total no cinema de horror, muito possivelmente impulsionado pelo movimento feminista. A dança contemporânea possui um aspecto performático muito intenso, o que faz dela uma poderosa ferramenta de libertação e expressão do próprio corpo da mulher.

Esses temas são tratados diretamente, no discurso de algumas personagens, mas também por meio de imagens surreais que perpassam o filme e claro, da própria dança. A ausência geral de homens também fala por si só. Alguns poucos aparecem para serem debochados e humilhados pelas bruxas. A exceção é o velho psiquiatra, único personagem central masculino, curiosamente interpretado por Tilda Swinton (que faz um total de três papéis distintos, incluindo Helena Markos) e o grande problema de Suspiria.

O cineasta opta por uma estrutura de seis atos e um epílogo, este último pra lá de desnecessário, nos quais ocasionalmente saímos da escola para acompanhar as investigações de Josef (Swinton), um psiquiatra que atendia Patrícia (Moretz), aluna da escola Markos que desaparecera. Contextos histórico e políticos são ocasionalmente ressaltados nessas partes, enquanto o homem nos revela detalhes sobre o funcionamento do mundo das bruxas, baseando-se em tudo que Patrícia lhe dissera em suas sessões.

Narrativamente, Josef cumpre um papel importante ao contar para Sara (Mia Goth) o segredo da academia. No original, numa de suas cenas mais simplórias, há um personagem muito semelhante, de presença inteiramente pontual, que cumpre o mesmo papel, sem interferir muito com o ritmo do filme, que logo o deixa para trás e retoma suas características alucinógenas e volta o foco total ao interior da academia de balé. Aliás, Suspiria 77 mal sai de dentro do recinto, dando uma ideia de confinamento que não se aplica na reimaginação.

Mia Goth é uma das queridinhas do horror moderno

Aqui, a recorrência dessa figura – único homem, como já dito – quebra constantemente a construção imagética e atmosférica em torno da dança, interrompe a própria observação dos personagens que importam, que são as dançarinas e as bruxas e o torna excessivamente longo. O mesmo tempo, se gasto com Susie, Sara ou Madame Blanc, poderia ter produzido um efeito muito mais poderoso no ponto mais alto do filme, a grande dança.

O espetáculo onde tudo se encerra é uma peça incrível e bizarra, que sacramenta os rumos diferentes entre as duas versões. A dança alcança um patamar transcendente e sobrenatural, com uma direção de arte e fotografia especialmente bem trabalhadas. A sequência é, em sua quase totalidade, chocante e catártica.

Eis que, repentinamente, já nos minutos finais dessa sequência grandiosa, Guadagnino opta por uma câmera borrada, como se a imagem estivesse acelerada. Ele próprio deve saber a razão de ser daquilo, mas o resultado desse artifício me pareceu de uma pobreza visual que não condiz em nada com o que havia sido apresentado até então, beirando o amadorismo. Contudo, a cena em si traz muita semelhança com o próprio balé contemporâneo, nas posturas e movimentos. Estranho somente a forma com que tudo foi filmado e editado.

O novo Suspiria transborda de pretensão, mas fazer uma reimaginação de um filme tão artisticamente rico sem pretensão provavelmente resultaria num produto apagado e digno de ser esquecido, logo considero uma postura bem-vinda e necessária nesse tipo de projeto. A grande falha que o contém é esse delírio narrativo que concebeu um personagem masculino recorrente com o único propósito de exposição e validar alguns pontos sobre a existência das bruxas, ao invés de abraçar a dança inteiramente, da mesma forma que Argento abraçou as cores em seu filme.

Suspiria tem seus muitos méritos e é um filme que vale ser visto, mas por pouco não foi mais coeso e ainda mais incrível e digno de seu antecessor. Em um mundo em que remakes são uma constante, é sempre preferível as opções mais arriscadas, como esse longa de Guadagnino, mesmo que problemáticos e imperfeitos.

3.5 bailarinas para Suspiria

Manda mais bruxaria que tá pouco.


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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