Review 2019: #08 – The Hole in the Ground

O melhor amigo de um garoto é a sua mãe


Algumas das obras mais interessantes do cinema de terror nos últimos anos – A Bruxa, Hereditário, The Blackcoat’s Daughter, por exemplo – têm em comum temas sobrenaturais, atmosfera sombria e pesada, recepção crítica mais favorável que do público e claro, o selo da A24 estampado nos créditos.

A distribuidora e produtora americana vai, gradativamente, tornando-se referência nesse segmento do cinema de gênero que alguns já tentaram (em vão) batizar de pós-horror ou horror elevado. The Hole in the Ground, de Lee Cronin, é o título mais recente lançado por eles, adotando os mesmo moldes, porém com um resultado bem inferior.

A obra acompanha o desespero de uma mãe que vê seu filho cada vez mais estranho e irreconhecível, depois que eles se mudam para um casarão nos arredores de uma mata densa.

Muitos têm comparado o plot do longa de Cronin com O Babadook, de Jennifer Kent. Ambos os casos lidam com uma mãe solteira – viúva – com um filho pequeno e problemático, que se veem em meio aos ataques de alguma força maligna e estranha que põe em xeque não apenas a própria segurança, mas também a relação mãe-filho.

As comparações me parecem rasas e não levam em conta as particularidades de nenhum dos dois filmes. A despeito da temática similar, Cronin e Kent seguem trajetórias bem distintas com resultados igualmente diferentes.

Figura encapuzada misteriosa no meio da estrada? Totalmente confiável!

Como manda a cartilha A24, o filme de Cronin se constrói bem lentamente, buscando estabelecer um clima de mistério e desconforto através da imagem. São várias tomadas que expõem a imensidão da floresta nos arredores da casa da família, acompanhadas de uma trilha ominosa ou um silêncio sepulcral. O próprio lar da família é decrépito e isolado, ambiente fértil para acontecimentos macabros.

Várias cenas se utilizam desses elementos com maestria e demonstram o potencial do cineasta. Mesmo assim, são arroubos de qualidade espalhados em meio a uma direção inconstante e com as experimentações de um diretor ainda muito verde.

Este é o primeiro longa-metragem do cineasta, que até então havia se estabelecido nos curtas. A inexperiência é evidenciada pelo excesso de estilos e ângulos de câmera utilizados no decorrer da fita e que apontam para uma falta de coesão típica de iniciantes, o que não considero um demérito. Afinal de contas, começar a carreira com um A Bruxa não é a regra, mas a exceção.

O que mais pesa negativamente aqui é a atuação muito ruim de Seána Kerslake, no papel da mãe. A carga dramática do filme recai inteiramente sobre ela, que visivelmente não dá conta do recado. A inexpressividade absoluta da atriz é contrabalanceada pela performance inspirada do garoto James Quinn Markey, o que suaviza o impacto negativo. É possível pensarmos que um diretor melhor ou mais experiente no trato com os atores fosse capaz de arrancar uma performance mais visceral da atriz.

The Hole in the Ground é o elo mais fraco nessa sequência de lançamentos da A24, não apenas por esses motivos mas também por não oferecer quase nada de memorável em um ambiente saturado de filmes de crianças macabras. Ainda assim, oferece bons momentos de tensão e horror, além do “monstro” ser bem legal.

3 espelhos para The Hole in the Ground

“Manda esse Babadook pra cá que a gente dá um jeito.”


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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