Review 2019: #10 – A Pedra da Serpente

Um sci-fi nacional que fica no quase


Se ano passado foi memorável para o horror nacional, apontado por muitos – e por este que vos fala – como o melhor da história do gênero no cinema brasileiro, 2019 parece ter começado bem para os amantes do fantástico com uma temática até então pouquíssimo explorada por aqui: extraterrestres.

Com produção do Fantaspoa, o diretor Fernando Sanches faz sua estreia com o longa A Pedra da Serpente, que aborda a temática da ufologia e temas inerentes à mulher cotidiana, seus medos, traumas e conflitos internos que precisa lidar no dia a dia, com o sci-fi como pano de fundo.

O filme conta a história de Joana (Claudia Campolina), uma mulher de personalidade forte que precisa lidar com o trauma de um aborto espontâneo ocorrido há alguns meses. Tentando aliviar o peso de seu passado chafurdando no trabalho e queimando energias no muay-thai, sua amiga e sócia Marta (Antoniela Canto) pede – ou obriga – Joana a tirar alguns dias de férias. A fim de relembrar sua infância, vai a Peruíbe para se desligar um pouco da cidade grande, mas eventos passados fazem com que sua válvula de escape se torne uma ida ao desconhecido.

A Pedra da Serpente, localizada no litoral sul de São Paulo, é uma grande rocha que possui o desenho de uma cobra e acredita-se que ela seja um portal interdimensional para outros locais ou civilizações. Sanches aposta numa temática até então pouco trabalhada no cinema nacional, que é a ficção científica em sua forma mais tradicional, que são os ETs, mas que fica longe de qualquer esteriótipo do imaginário comum. Ao contrário, os seres de outros mundos são apenas um contexto para temáticas muito mais reais e palpáveis do que qualquer história de outro planeta.

Se desde os primeiros frames vemos pistas que nos levam aos extraterrestres – desde as montagens imagéticas advindas de um pesadelo até o livro de cabeceira Fogo no Céu -, também começamos a perceber os problemas que Joana enfrenta. Se a gravidez e temores da maternidade pela primeira vez já são responsabilidades enormes para a mulher, imagine perder um filho? Sanches faz questão de explorar este trauma da personagem cercando-a com gestantes, aumentando assim sua tensão e involuntária culpa de algo que não teve escolha, enquanto o remorso a consome.

Um drink aos extraterrestres!

O diretor também explora (e muito bem) a sensualidade da mulher e sua relação com a serpente, estabelecendo assim um paralelo entre Eva e o pecado, contextualizando a penitência do sexo com o arrependimento posterior, como se a mulher não pudesse ter relações com quem ela bem quiser sem a preocupação de ser mal falada ou denegrida. A depressão e isolamento social também fazem parte do envolto da personalidade de Joana, outros problemas que cada vez mais abatem a humanidade.

Como já descrevi logo no começo do texto, o sci-fi aqui se torna apenas uma base para o desenrolar e descoberta da personagem, principalmente quando Maria, personagem vivida fantasticamente por Gilda Nomacce, entra em cena. Além do peso da atriz ao retratar uma extrema simplicidade do povo brasileiro em sua raiz, transmitindo empatia e emoção com sua atuação, ela também se torna peça chave para o desenrolar do longa e seu derradeiro rumo.

Dividido em quatro capítulos, o maior problema de A Pedra da Serpente é a sua maior promessa. Divulgado como uma ficção e prometendo ao longo de quase toda a fita esta premissa, ele fica só no quase e em nenhum momento abraça o fantástico. Além do easter egg do livro, a maior inspiração para Sanches criar as imagens dos pesadelos de Joana e os brilhos e cores, ora monocromáticas e ora coloridíssimas, é justamente o longa Fogo no Céu, onde o diretor Robert Lieberman opta fazer um caminho inverso: começar pela história do personagem e a partir daí ir abraçando e preparando o espectador para o fantástico. Aqui, o foco claramente é a história de Joana e os contextos dos quais ela se moldou daquela maneira, onde os fatores extraordinário e fantástico ficam subdesenvolvidos.

O último capítulo, que definitivamente abraçaria todo a proposta do filme até então dura apenas alguns minutos e talvez o espectador se sinta frustrado com a pouca exploração do conteúdo ufológico, que poderia ser aterrador, deixando de lado toda a crítica social que o diretor se propôs a fazer. Creio que se ele adentrasse mais na temática da ficção, o longa com um pouco mais de seus enxutos 1h15 teria um resultado mais satisfatório entre os fãs do gênero.

No final das contas, A Pedra da Serpente se torna um filme legal, muito bem realizado, com atuações convincentes e subtemas humanos muito interessantes, mas que infelizmente fica em cima do muro na questão de se decidir sobre qual lado tomar, e acaba desperdiçando um enorme potencial que poderia ter sido explorado mais a fundo.

Disponível em algumas salas de cinema ao redor do Brasil pelo Projeta às 7, espaço disponibilizado em parceria entre a rede Cinemark e a produtora Elo Company (parceiraça do cinema de gênero nacional), aproveite e vá conferir e valorizar o nosso PIB do fantástico!

3 abduções para A Pedra da Serpente

Dando a luz ao primeiro (ou não?!) reptiliano!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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