Review 2019: #11 – Não Olhe

Pobre menina branca e rica…


Eu não sei porque eu não sigo as dicas que títulos e taglines de filmes me dão. Quando o sofrível Birdbox chegou à Netflix, todo material publicitário do longa da Sandra Bullock continha a frase “NÃO OLHE”, quase que como um spoiler gritando para não assistir aquela bomba. Mas lá fui eu e perdi duas preciosas horas da minha vida no dia de Natal.

Agora, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira o longa Não Olhe, e bem, posso dizer que o título já dá a pista do que fazer com relação a esse filme. Não é tão ruim quanto Birdbox, admito, mas ainda assim, apesar de uma premissa principal bem interessante, se perde em um filme de terror adolescente vazio, tão vazio quanto a vida e a sensação problemática da personagem principal toda carregada no estereótipo.

Maria, apesar de menina riquíssima – o que já causa uma natural distância abismal do espectador – é pária no colégio onde estuda, esquisita, antissocial, anoréxica, sem amigos, sofre bullying dos valentões, é desprezada até pela suposta amiga por conveniência e sofre de um crush escondido pelo namorado dela. Para completar, vive em uma lindíssima mansão com a família disfuncional, onde o pai é uma cirurgião plástico obcecado por aparência e que trai a mãe, que vive a base de remédios, álcool e subserviência ao marido, com a vida arruinada após a morte da gêmea de Maria no parto.

Pois bem, certa noite, a adolescente descobre uma antiga foto de ultrassom na fresta do espelho do seu quarto, que é o gatilho que desencadeia a aparição de seu “outro eu” no reflexo. Enquanto Maria é a representação de seu Superego, Airam (sim, eu sei, eu sei…) é seu ID, na busca de tirar a garota daquela vida de repressão em busca de aceitação, rebeldia, prazer e claro, vingança.

Airam toma o controle da situação e da psique/corpo da sua contraparte, e resolve quebrar os paradigmas (começa a fumar, beber, roubar, se maquiar, transar) e claro, busca a revanche contra todos aqueles que machucaram e humilharam a frágil garota pálida. Era Ana Paula, agora é Natasha.

As nuances dessa dualidade psicológica se encaixam muito bem na trama e servem como metáfora pesada dos problemas adolescentes e a busca por aceitação, a repressão familiar, a difícil relação social com amigos, o inferno que é o ensino médio, e as mudanças de comportamento daquele período bem treta da vida, misturado com o que pode ser alguma espécie de explicação sobrenatural subentendida que parece permear o longa, ainda mais pela questão da morte da irmã gêmea no parto e os pesadelos subsequentes de sua mãe, interpretada pela veterana poderosa Afrodite, Mira Sorvino.

Espelho, espelho meu!

Lembra um pouco o recente Cam, da Blumhouse/ Netflix, principalmente a questão de lidar com seu próprio reflexo (no espelho ou na tela) e a busca por popularidade e se encaixar num mundo ferrado, pincelando de leve o conceito do doppelganger. Ambos compartilham também a mesma brochada final e resultado aquém ao esperado.

Pois como disse lá em cima, Não Olhe parte de uma premissa interessantíssima, mas que derrapa como patinar no gelo fino em um roteiro esquemático de Assaf Bernstein, que também dirige o filme – aliás, a direção dele é excelente, assim como a fotografia deslumbrante do uruguaio Pedro Luque, diretor de fotografia de A Casa, O Homem nas Trevas e O Silêncio do Céu – e na interpretação de India Eisley, fraquinha para o papel, que carecia de mais pungência e despertar uma empatia maior pela personagem. Pois convenhamos, fica mega difícil se sensibilizar com tanto chavão de adole problemática de família rica.

Mas sem dúvida o que mais me chamou atenção em Não Olhe foi a sensação constante de constrangimento com a nudez (inclusive frontal) da protagonista e suas insinuações sexuais e lascívia. India possui 26 anos (e não parece nem um pouco…) mas estamos imaginando o papel de uma garota no ensino médio com seus 17, e realmente desperta certo incômodo ao ver aquelas cenas.

Acredito até ser proporcional por parte do diretor, deixar o espectador constrangido, achando que está vendo algo que não deveria. E mais, tentei puxar da minha mente qual foi a última vez que vi nudez jovem em um filme de terror mainstream hollywoodiano, algo extremamente presente e até quase intrínseco ao horror nos anos 70, 80 e 90. Não consegui me lembrar, principalmente se tratando de novos tempos do cinema indie americano, muito menos apelativo e mais climático, de empoderamento feminino e da luta contra a objetificação da mulher no gênero.

Aliás, outro ponto falho de Não Olhe, que o distancia de ser um excelente thriller psicológico e pertinente ao público alvo que é destinado, é que ao mesmo tempo que mantém todos os problemas e motivações bem rasos e a falta de ligação com a protagonista, foca em mortes banais de uma “rebelde sem causa” e tenta ser mais cult do que realmente é, distanciando de qualquer atmosfera ou sequências mais gráficas. Até o ótimo Jason Isaac, como o pai de Maria, é completamente subaproveitado.

Não Olhe é um filme pasteurizado e que incomoda pelos motivos errados, perdendo a chance de uma discussão sociológica mais ampla e aprofundada sobre adolescência e do meio em que são inseridos, e todos os problemas psicológicos inerentes, para apostar em um suspense formulaico, situações mais que clichês e uma personagem torpe, em que momento algum você sente dó da pobre menina branca e rica.

2 reflexos no espelho para Não Olhe

Espelho voyeur!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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