Review 2019: #12 – Lords of Chaos

“Baseado em Verdades e Mentiras”, a mais polêmica história do Metal Extremo

O Black metal é o subgênero do metal extremo mais controverso que existe. Seja por suas temáticas, na maioria das vezes, satânicas e misantrópicas, ou, principalmente, pelos acontecimentos em seus primórdios, lá na Noruega no fim dos anos 80. E é sobre esses acontecimentos que se baseiam Lords of Chaos, longa-metragem dirigido por Jonas Åkerlund e roteirizado pelo mesmo ao lado de Dennis Magnusson.

O filme mostra a história do guitarrista Øystein “Euronymous” Aarseth (interpretado por Rory “irmão do Macaulay” Culkin), que é creditado como o criador do “True Norwegian Black Metal”, ou “Verdadeiro Black Metal Norueguês”, segundo o próprio, e fundador do Mayhem, a mais conhecida e influente banda do gênero.

Antes de prosseguirmos, é bom frisar que existem diversas versões dessa história. É, provavelmente, o mais conhecido causo do metal extremo e geralmente os acontecimentos divergem bastante dependendo de quem conta ou onde você lê. Mas, ainda assim, é uma história bizarríssima e pesada.

Como o próprio filme alardeia, ele foi “Baseado em Verdades e Mentiras”, então fica claro que Åkerlund apoia-se naqueles fatos que são frequentemente mantidos e, claro, há uma ficcionalizada na história, para que haja o peso dramático. O resumo é o seguinte: o jovem Euronymous funda a banda Mayhem, que é a primeira do gênero na Noruega, e após a baixa de alguns membros, o guitarrista recruta um novo baterista e um novo vocalista, este sendo Per “Dead” Ohlin. Dead apresenta um comportamento auto-destrutivo e depressivo por causa de sua obsessão com a morte e suas performances que geralmente contam com o vocalista atirando uma cabeça de porco decepada na platéia e se auto-mutilando, jogando seu sangue na audiência.

Isso, em conjunto com as declarações satânicas e misantrópicas de Euronymous, elevam o status “mitológico” da banda, dando ao Mayhem o estigma de ser uma “banda maligna e perigosa”, quando não passavam de um bando de mimados playboys noruegueses entediados

Mas pouco tempo após isso, Dead sucumbe a sua obsessão pela morte e acaba se suicidando. O que segue depois é uma série de fatos excêntricos que culminam na chegada de uma figura importantíssima para a história: Kristian “Varg” Vikernes, fundador do projeto de um homem só Burzum.

Tiro ao alvo

A importância de Vikernes se deve a todos os motivos errados. Foi ele quem começou uma onda de incêndios criminosos em igrejas na Noruega, movido por um forte posicionamento anti-cristianismo e por achar que o Black Metal é muito mais que um estilo musical mercadológico, mas sim uma ideologia que vai contra todos os padrões da sociedade da época. Esses incêndios e outros acontecimentos como homicídios, homofobia, culto ao nazismo por parte dos membros do chamado Black Circle fazem com que Euronymous sinta sua liderança ameaçada, levando a um confronto com Varg e, consequentemente, em seu infame assassinato. Talvez o caso de assassinato mais famoso da Noruega.

O filme retrata tudo isso que falei de uma forma ágil, galhofa e bem dirigida, isso se deve muito ao fato de Åkerlund ter uma vasta experiência dirigindo videoclipes, então preciso nem falar que as sequências musicais do filme são de encher os olhos. Os atores estão bastante convincentes, com destaque para Jack “Filho do Val” Kilmer, que faz o papel de Dead.

O sujeito dá bastante a impressão de ser um cara perturbado e obcecado com a morte, especialmente nos momentos introspectivos em que ele enterra suas roupas e as desenterra antes do show, para que ele pareça um cadáver e quando, também antes do show, o mesmo fica inalando um corvo morto dentro de um saco para “inalar o cheiro da morte”. Rory Culkin não fica atrás. Ele consegue vestir aquela faceta de metaleiro maligno, mas do mesmo modo mostra o quão assustado fica com o rumo que o que ele mesmo criou acaba tomando. Meu único problema com o filme é que Euronymous é transformado num cara muito bonzinho quando, na verdade, era um tremendo dum babaca.

Emory Cohen como Varg Vikernes igualmente convence bastante, demonstrando ser um cara bastante perturbado e que se leva muito a sério pregando sua filosofia anti-sociedade. E por ter incomodado o Varg original, já vale pontos. Que inicialmente ficou putasso com o ator escalado para lhe representar, dizendo que estaria sendo interpretado por um judeu. E após o lançamento, o tr00zão lançou um vídeo em seu canal do YouTube, falando que o filme não tem compromisso com a verdade, é repleto de coisas fantasiosas e que o diretor e roteirista fizeram dele uma maníaco obcecado por poder na ficção e na vida real e que isso não é verdade.

Outro ponto muito positivo do longa são as cenas de assassinato, que são de uma brutalidade e de uma frieza que chegam a incomodar quem não está acostumado com esse tipo de coisa. Em especial a cena do suicídio de Dead e no assassinato de Euronymous, que são de revirar o estômago. Todos esses aspectos facilitam o entendimento daqueles que não tem nenhum conhecimento de black metal e das figuras que são retratadas aqui.

Evil papagali

Lords of Chaos não necessariamente é um filme de terror, mas engloba um tema e uma série de acontecimentos mais aterrorizantes que qualquer filme que você possa ter visto: Obsessão pela morte, a curiosidade de saber como seria matar alguém com as próprias mãos; e um anti-cristão declarado com ideologias nazistas e nacionalistas que incendiou igrejas por achar que era uma força de oposição a uma suposta ditadura religiosa impregnada em seu país, além de assassinar outro jovem por puro ego e paranoia.

É necessário um assassino mascarado ou uma experiência sobrenatural para tornar alguns acontecimentos ainda mais aterrorizantes? Independente de quem fez o que, de quem era babaca e de quem era mocinho, ou das justificativas injustificáveis de adolescentes revoltados com a sociedade, toda essa peleja nos mostra que a vida real é muito mais aterrorizante que a ficção.

Muitos contestaram tanto o livro quanto o filme por dizerem que as mídias não retratam fielmente os ocorridos. Recentemente o vocalista Ash, da banda alemã Nargaroth, postou que o filme era uma afronta ao verdadeiro Black metal e não passava de uma tentativa de capitalizar grana em cima da imagem do gênero. Deve ter deixado muito cabeludo adorador do capiroto ao retratar de forma poser, cômica e escrachada a patifaria de todos os envolvidos, beirando o ridículo. Provavelmente o cara voltou atrás, porque fui procurar o post no Facebook da banda e ele foi removido.

Independente de retratar fielmente ou não os acontecimentos, Lords of Chaos não deve ser visto sob o prisma de um documentário e sim como um filme biográfico ficcional como qualquer outro. E nesse caso, ele se sai muito bem. Não só ele vai te despertar interesse de saber a real história da cena True Norewigian Black Metal, mas também é divertido, hilário em certos momentos e incômodo em outros, ágil, prende sua atenção e acaba emputecendo os metaleiros do Satanás tudo.

Quer mais motivo que isso para assistir?

4 igrejas queimadas para Lords of Chaos

Pula fogueira iá-iá…


Angelus Burkert
Angelus Burkert
Psicopata em formação. Pegou gosto pelo cinema de horror após ir até a sessão de VHS de terror na locadora e olhar todas as capas de filmes possíveis. Fã confesso de música e games, provável que não mude nada com o passar dos anos, exceto o amor pela carnificina.

1 Comentário

  1. José disse:

    Mesmo não sendo totalmente verdadeiro aos acontecimentos reais , é o Melhor filme disparado de fevereiro e muitos ainda se contentando com o filme teen A Morte Te Dá Parabéns 2 .
    Já é um dos meus favoritos do ano , e tenho a obrigação de destacar aqui as minhas cenas preferidas que são : o show com auto-mutilação com sangue jorrando na platéia e a do suicídio de forma explícita que são foda pra caralho !

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