Review 2019: #13 – Nós

Precisamos falar sobre Nós


A priori, o horror e a comédia parecem pertencer a diferentes espectros do cinema. Porém é comum que autores venham a desafiar essa percepção, realizando os chamados Terrir, longas simultaneamente sanguinolentos e bem humorados, que apontam para uma outra versão dessa história: horror e comédia podem ser lados diferentes da mesma moeda.

A figura de Jordan Peele por si só é capaz de incendiar essa conversa. Ainda em 2016, o anúncio de sua entrada no cinema por meio do terror causou rebuliço exatamente por sua origem artística ser a comédia. Notadamente um dos melhores comediantes americanos contemporâneos, Peele migrou para um território aparentemente distante de suas raízes, onde obteve um resultado pra lá de impressionante.

O vencedor do Oscar Corra! pegou o público de calças na mão com uma crítica racial tão pungente que o fez ser chamado de primeiro filme de terror da era Trump. O debute de Peele é um filme pra lá de acessível e popular, que em algum lugar de sua trajetória perdeu o rótulo terror, chegando a ser creditado até mesmo como… comédia.

Determinado a conquistar o gênero pelo qual é apaixonado, Peele retorna após dois anos, brandindo a bandeira do terror e quebrando recordes de bilheteria com Nós. O novo longa coloca uma família negra em pé de guerra com seus gêmeos malignos infernais. Uma premissa aparentemente simples, mas que dialoga com tantos assuntos diferentes, que seria preciso um podcast para abordar tudo (vai ter episódio do nossos podcast “Filmes de Maldito” sobre o tema!).

Com um elenco de primeira, encabeçado pela sempre fantástica Lupita Nyong’o – que também protagoniza outro terror em 2019, Little Monsters – , Nós é um exercício de atmosfera e criatividade, ocasionalmente intercalado pelo humor ora abestado, ora acídico, tão característico de Peele.

Se em Corra! o humor estava nas entrelinhas, aqui Peele o abraça com muito mais vontade. Só que abraça ainda mais o próprio terror, referenciando diretamente suas grandes inspirações criativas, como as fitas VHS com os filmes Os Goonies e C.H.U.D – A CIDADE DAS SOMBRAS, expostas numa prateleira.

Assim como em seu longa anterior, Peele não apenas cita essas influências, como também às costura dentro da estética do próprio filme. Antes da aparição da família maligna, um passeio dos Wilson pela praia é visivelmente inspirado no clássico Tubarão, de Spielberg. A camiseta do personagem Jason Wilson (Evan Alex) dá a dica para quem não pegar a semelhança logo de cara.

Se correr o bicho pega…

A ideia de cópias maléficas de seres humanos aterrorizando suas versões originais nem chega perto de ser novidade. Inclusive, a cineasta brasileira Juliana Rojas acertou em cheio nesse tema com seu curta metragem O DuploDentre os diversos enredos envolvendo os chamados doppelgänger no cinema, televisão e literatura, Peele assumidamente se inspirou em um episódio de Twilight Zone, seriado que ele mesmo está ressuscitando na atualidade.

O grande trunfo de Nós é ir além da mera apropriação do tema, transformando-o a seu bel prazer. Durante os dois primeiros atos, esse evento central se desenrola como um home invasion, ou melhor ainda, como um slasher convencional. Em contrapartida, o terceiro e último ato é um exercício de criatividade absurdo, que mostra não apenas que o terror segue firme e forte, como é uma das – se não a – principais fontes de originalidade, quando tratamos do cinema americano contemporâneo.

Talvez a receita do sucesso seja a capacidade de Peele de aplicar o terror – gênero sob o qual tem bastante domínio e conhecimento – sobre temas relativos aos Estados Unidos de hoje – e que ressoam em diversos países, inclusive o nosso. Uma das percepções mais óbvias é uma acusação direta: nossos maiores inimigos, somos nós mesmos. Ainda é interessante entendê-lo sob o olhar da desigualdade social, por exemplo. 

E claro, para os menos interessados nesse âmbito, ou mais curiosos com os monstros em si, Peele dá uma verdadeira aula de cinema de gênero. A cena de abertura por si só é atmosfera de terror como raramente vista. O filme ainda dispõe de uma série de imagens bizarras e grotescas, daquelas que voltam para nos visitar horas após a sessão.

Em alguns momentos da projeção, sinto que Peele patina um pouco. Algum nível de desequilíbrio é esperado quando o objetivo é grandioso. Apesar de ser convencional em diversos momentos, o cineasta não poupou esforços para fazer algo poderoso e capaz de deixar uma marca, logo esses momentos de inconstância minguam quando comparados a grandiosidade do resultado final.

Faço coro a todos os críticos que já disseram que Nós é uma das grandes obras do horror moderno, do tipo que vai ficar inscrita no inconsciente coletivo, invadindo a cultura pop, inspirando outros criadores e perdurando através da história do gênero.

4.5 tesouras para Nós

Come at me bro


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

1 Comentário

  1. Nic disse:

    que crítica preguiçosa hein

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