Review 2019: #15 – Cemitério Maldito

Tem vezes que é melhor permanecer morto…


Cemitério Maldito é um clássico do terror sem precedentes de sua época. Lançado no último ano da década de 80, contém uma história poderosa e repleta de requintes de crueldade sobre morte, perda e culpa, adaptada pelo próprio Stephen King no auge, e com uma música tema tão famosa, quiçá, até mais, que o próprio filme.

Quando chega aos cinemas brasileiros a refilmagem, ou nova adaptação, surfando na onda do sucesso estrondoso de It: A Coisa e a volta do escritor do Maine aos holofotes, aí sim você realiza de verdade o quanto o original é mesmo essa Brastemp toda, que envelheceu super bem e não está nem um pouco datado, com sua trama ainda forte, atual e assustadora.

Tanto que, apesar das controversas mudanças – aprovadas pelo próprio King, por sinal – pouco, ou quase nada, foi alterado até ali o final da metade do longa, quando acontece o fatídico acidente com o caminhão da Orinco (preste atenção no impagável easter egg do celular do motorista). Algo que me fazia a todo momento ter uma sensação que eu batizei de “Psicose por Gus Van Sant” e me perguntar: mas porque cargas d’água então estão refilmando isso então?

Mesmo com uma derrapada ou outra, tipo transformar a Zelda em um monstro do J-Horror, ou ignorar a empregada com câncer no estômago, o rosto sem expressão de Jason Clarke em cada take, ou perder a oportunidade de explorar melhor a figura mítica do Wendigo, como no livro, ou até mesmo a força sobrenatural do cemitério Micmac (povo indígena que sequer é citado), o filme tem lá seus méritos e momentos interessantes.

Todo o clima é bem mais creepy, lúgubre, trevoso que o longa de Mary Lambert, e coloque na conta da excelente dupla de diretores Kevin Kölsch e Dennis Windmye; a Rachel Creed de Amy Seimetz é muito melhor que do original e coloca um tanto a mais de profundidade na personagem; Victor Pascow com o cérebro arrebentado chegando na enfermaria do Dr. Louis Creed é absurdo de gore; as crianças usando as máscaras para enterrar seus pets no cemitério (viu o que eu fiz aqui?) também é pra lá de sinistro – e pena que completamente mal exploradas, até por ter sido vendido como peça de marketing com destaque mas que, bem, tem uma participação inócua -; a Ellie é uma gracinha de empatia e o gato? Gente, o que é aquele Church maravilhoso, melhor personagem.

Procurando aqui onde enterraram o original…

Mas aí vem o famigerado terceiro ato que destrói com gosto tudo que havia sido construído até então. E não tô falando de mudarem a personagem morta feat. enterrada e trazida de volta. Disso, se alguém reclamar, é ou tiozão do terror ou clubista, porque é louvável que os envolvidos tentaram dar uma nova roupagem e andar com suas próprias pernas a partir de um determinado ponto. Mas dali pra frente tudo vira clichezão do terror mainstream, banalizam a pobre morta-viva com suas frases de efeito e maldade de farmácia, e tudo tem que descambar para confronto e ação, típico do horror pipoca moderno.

Cemitério Maldito deixa de ser punk rock como o original, deixa de ser Ramones e vira, vira… Starcrawler!

Fica principalmente aquele gosto de terra na boca (hein? hein?) porque o talento do dois cineastas foi desperdiçado, sem um pingo de direção autoral, entregando um filme de estúdio e ponto. E estamos falando dos mesmos realizadores do acachapante Starry Eyes, dos melhores filmes do gênero da década, e do bizarríssimo segmento “Valentine’s Day” da antologia Holidays. Baita potencial desperdiçado em um terror meramente razoável.

Mas não tenho dúvidas que Cemitério Maldito vai acertar em cheio no público médio – para quem ele é milimetricamente construído – e vai se tornar um sucesso.

Se, às vezes a morte é melhor? Nesse caso não chega para tanto, mas é como se pegassem o original, enterrassem em um cemitério indígena, e ele voltasse completamente troncho.

 

3 bois premiados para Cemitério Maldito

Fantasias pro Halloween 2019 já no esquema!

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

1 Comentário

  1. santos disse:

    Starry Eyes, amo! (e a música meu deus)

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