Review 2019: #06 – Velvet Buzzsaw

Não existe arte sem morte


Velvet Buzzsaw, o novo filme de Dan Gillroy que estreou na Netflix esta semana é um enigma.

Inicialmente, assim que o filme terminou, eu me odiei por ter perdido quase duas horas assistindo ao filme com tanta coisa no catálogo do serviço de streaming. O bizarro trailer havia captado minha atenção sem exatamente eu entender os motivos pra tal. Em parte pelo elenco estelar e parte pelo apelo do nome de Gillroy por seu filme O Abutre, que gosto muito. Mas, principalmente, por ter identificado uma espécie de horror cheio de autorreferências e metalinguagem, que se assemelha em muito à obra O Rei Amarelo, clássico da literatura fantástica escrito por Robert W. Chambers.

O livro de Chambers gira em torno de uma peça de teatro, o Rei Amarelo do título, que leva todos os seus leitores à loucura e ao desespero. No filme de Gillroy, após encontrar seu vizinho morto no corredor, uma ambiciosa funcionária de uma galeria de arte se depara com as enigmáticas pinturas do falecido que havia deixado instruções claras para que estas fossem destruídas após sua morte.

Sentindo ter se deparado com algo totalmente único, ela passa a expor e comercializar estas obras em parceria com sua chefe enquanto todos ao redor destas obras de arte passam a morrer misteriosamente. A partir daí, Gillroy nos conduz através das investigações feitas pelo renomado crítico de arte Morf Vandewalt, vivido de maneira afetadíssima por Jake Gyllenhaal, que deseja escrever um livro sobre o misterioso artista por trás daquelas estranhas pinturas.

Sob este aspecto, o filme trata a arte como algo que leva parte do artista, muito parecido com o teor metafórico de Mãe, mantidas as devidas proporções. A abordagem deste sacrifício feito pelo artista fica bem evidente na tatuagem de Rhodora Haze, dona da galeria que comercializa as artes misteriosas, vivida por Rene Russo, que traz os dizeres “sem morte, sem arte”. Desta forma, o diretor se utiliza do enfadonho meio artístico de Los Angeles para falar sobre o próprio meio cinematográfico, com seus críticos metidos a celebridades, seus melindres, a sujeira nos bastidores e o jogo de poder. É a única explicação para o uso de um meio tão restrito e pouco conhecido do público.

Hm… Não sei se gosto…

Com poucos filmes no currículo, Gillroy já demonstrou possuir um bom domínio da narrativa e bastante criatividade na hora de criar suas histórias, sempre indo em direção a temas inusitados – como repórteres interessados em acidentes – e isso pesa em favor ao diretor, porém enquanto Velvet Buzzsaw adquire contornos tão pessoais, soando quase como uma resposta ao meio à sua volta, perde-se a identificação da plateia, o que pode ter levado o filme a um lançamento direto ao streaming, mesmo tendo participado da seleção oficial em Cannes. A acidez e o humor negro são muito bem vindos, mas ao retratar seus personagens de maneira tão caricata, ele os esvazia de carisma, tornando todos irritantes e odiáveis. Algo perigoso para um filme de terror.

Outro ponto que pesa contra o filme neste aspecto é a irregularidade das regras criadas pelo próprio diretor para a ameaça das obras de arte, que funcionam de forma muito mais rápida e agressiva em uns do que em outros. Alguns personagens muito mais expostos às pinturas acabam sendo atacados por último, enquanto outros, que olharam para elas apenas alguns minutos são atacados muito mais violentamente e primeiro. Este tipo de irregularidade dentro das regras estabelecidas pela própria narrativa acaba por tirar a credibilidade necessária para se relevar uma pintura assombrada assassina.

Velvet Buzzsaw é um filme estranho, ainda que cheio de boas ideias, um elenco de primeira e uma direção competente. Gostar dele ou não, vai depender muito de suas expectativas, e, como uma boa obra de arte, de suas próprias referências. O que você entende e leva para o filme de suas próprias vivências, pode torna-lo mais interessante ou não. Mas não importa, pois como o personagem de Gyllenhall diz no filme: “é melhor uma crítica ruim do que mergulhar no grande excesso de anonimato”.

Ah! E uma dica, não veja o trailer!!!! Acontecimentos importantes são entregues lá.

Dois pincéis quebrados para Velvet Buzzsaw

Prefiro Romero Britto.


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista das HQs Carniça e Lama, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo 1 e 2. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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