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Romero of the Dead

RIP George A. Romero, o pai dos zumbis, que faleceu neste domingo aos 77 anos


No momento em que li a manchete anunciando o falecimento de George A. Romero, fui imediatamente tomado de um sentimento de negação. Pensei nos constantes hoax que insistem em matar famosos antes da hora. Para piorar, minha Internet decidiu se retirar naquele exato momento em que eu buscava por confirmações. No intervalo entre ler a mensagem e encontrar uma fonte confiável, meu cérebro vagou por épocas distintas de minha vida.

Lembrei-me da notícia que li há exatos três dias, sobre o próximo projeto cinematográfico do pai dos mortos-vivos e retorno a sua franquia de sucesso. Também da segunda edição de sua HQ, Império dos Mortos, parada na minha cabeceira, que ainda não terminei de ler. Do meu primeiro blog, que me trouxe até esse ponto, intitulado “Dans of the Dead”, brincadeira com o título de sua série mais celebrada. Dizer “They are coming for you, Barbra!”, sempre que encontrava uma Bárbara. Das horas e horas que passei explorando os zumbis, lendo, assistindo e até escrevendo todo tipo de história, ao ponto de me considerar um expert no tema. Lembrei, ainda, de quando agradeci a Romero em minha colação de grau na faculdade de psicologia, tamanha sua influência sobre meus hobbies e paixões. E então, já sabendo lá no fundo que aquela notícia era verdade, derramei algumas lágrimas de tristeza.

George Andrew Romero faleceu aos 77 anos, em seu sono, após uma batalha contra o câncer de pulmão, enquanto ouvia a trilha sonora de The Quiet Man acompanhado de mulher e filha. Em sua carreira, produziu algumas das obras mais icônicas do cinema norte-americano e, ao fundar um subgênero inteiro, de forma revolucionária, transformou os filmes de terror para sempre.

Aos 28 anos, juntamente de alguns amigos, criou a produtora que viria a dar vida ao seu trabalho de estréia, o fascinante A Noite dos Mortos Vivos. Além de inventar o conceito moderno de zumbi, Romero imbuiu tamanha crítica sócio-política no longa, que permanece relevante enquanto comentário social até os dias de hoje. Escalar um ator negro como protagonista naquela época foi muito mais impactante do que qualquer Corra!. E claro, sua estética ainda ajudou a transformar o gênero para sempre.

A lista de artistas e obras influenciadas pelo mestre varia enormemente, indo de Lucio Fulci, John Carpenter e até Sam Raimi, passando por nomes mais atuais como Edgar Wright e Zack Snyder. Para além do cinema, autores como o quadrinista Robert Kirkman, e até mesmo George R.R. Martin beberam dessa fonte. Assistindo, no mais novo episódio de Game of Thrones que estreou neste domingo, o desfile de mortos-vivos gelados, é impossível pensar que a série ou o livro existiriam sem a peça seminal que é o quase cinquentão A Noite dos Mortos Vivos. Em outras palavras, as duas maiores séries da televisão atual (e quiçá de todos os tempos), Game of Thrones e The Walking Dead, são descendentes de Romero. Ah, não posso me esquecer dos videogames! A franquia Resident Evil, um marco na história dos jogos eletrônicos, existe graças à influência intercontinental do pai dos mortos vivos.

O pai ensinando como se interpreta seu filho!

Entre A Noite… e seu próximo hit, Despertar dos Mortos, Romero produziu alguns longas de temas diversos, incluindo There’s Always Vanilla, Season of the Witch e O Exército do Extermínio. Mas foi em Despertar… que se cristalizou como uma das figuras mais importantes de sua época. A poderosíssima crítica ao sistema fora diferente de tudo que existia até então e, até os dias de hoje, rende comentários diversos. Nos anos seguintes, envolveu-se em parcerias com figurões do calibre de Stephen King, Dario Argento e até mesmo Hannibal Lecter, até entregar outro clássico com seu Dia dos Mortos, longa que nos apresentou ao apaixonante Bub, o zumbi.

Romero lidou com os mortos-vivos um total de seis vezes no cinema, de 1968 a 2010, alcançando um ápice de valor de produção com Terra dos Mortos, em 2004, valor esse que foi rapidamente suplantado por outro orçamento baixíssimo em Diário dos Mortos e Ilha dos Mortos. Seus dois últimos trabalhos foram consideravelmente fracassados, entre ambos público e críticos. A última passagem por seu monstro, que poderia facilmente colocá-lo no patamar de Bram Stoker e Mary Shelley, foi nos quadrinhos, com Império dos Mortos (2014), lançado pela Marvel Comics. O diferencial dessa HQ foi a inclusão de vampiros nesse mundo dos mortos, tema que ele mesmo já havia trabalhado no cinema com o clássico cult Martin.

Apesar da idade, o falecimento de Romero chega como uma surpresa, devido a sua presença ativa nas mídias. No último dia 13, ele veio a público para revelar o primeiro pôster de seu novo projeto, o filme Road of the Dead, a tão esperada volta ao universo …of the Dead, após quase sete anos. Ele ainda foi motivo de conversa quando, no início do último mês, criticou abertamente o Oscar de melhor filme dado a Moonlight: Sob a Luz do Luar. O cineasta, que é parte da academia, votou em La La Land – Cantando Estações e ainda deu uma cutucada em todos os outros filmes que estavam no páreo. Uma figura como nenhuma outra, de aparência marcante e óculos gigantes, Romero sempre fez valer sua personalidade. Há alguns anos atrás polemizou nas redes ao expor seu desgosto pela série The Walking Dead.

Neste momento, me coloco ao lado dos milhões de fãs de horror e cinema que sofrem a morte de um de seus maiores ídolos. Para quem não era tão familiarizado com seu trabalho, agora é uma boa hora de se aventurar pelo mundo incrível que este homem nos deixou. Para os mais apaixonados, vale revisitar as obras e nos lembrarmos que Romero ficará em nossas memórias, da melhor forma possível. É interessante observarmos a quantidade infindável de figuras públicas que lamentam sua morte, sempre repetindo um único discurso: Romero foi inestimável para o cinema como um todo.

E ainda, quem sabe, verei Diário dos Mortos finalmente receber a atenção e reconhecimento que merece. Que sua morte seja mais pacífica e confortável que aquelas que tão bem representou em seu mundo fantástico e assustador.

Missão cumprida, Romero!


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

1 Comentário

  1. Marcus Vinícius disse:

    Realmente, uma pena. Eu quando pensava em fazer cinema, queria ser como ele: assustar, abordar e criticar através dos monstros da minha imaginação. O que ele fez é inestimável, e praticamente todos os diretores de terror de hoje e do futuro (eu incluso, se Deus quiser) são e serão crias deste senhor. Vá em paz!
    P.S: Parabéns atrasados pela volta do blog, eu senti saudades.

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