Outcast: Saem os zumbis, entram os demônios

Nova série baseada em HQ de Robert Kirkman, criador de The Walking Dead, leva possessão, exorcismo e as forças das trevas para as telinhas


Um garoto com um comportamento bem estranho observa uma barata subindo pela parede de seu quarto. O infante fica ali encarando o inseto, coçando os braços, quando súbita e violentamente ele o acerta com uma cabeçada e passa a mastigar o bicho, curtindo bastante a gosma nojenta. Pouco depois, ele desce as escadas e, na cozinha, sua mãe tem uma briga com sua irmã adolescente, enquanto pega um pacote de salgadinhos do armário. Ao término da acalorada discussão, a mulher se volta para o garoto, que ao invés de comer o acepipe, está devorando o próprio dedo.

A sequência acima acontece ao longo de quatro minutos do piloto de Outcast, a nova série baseada na HQ homônima de Robert Kirkman, publicada pela Image Comics, e já é o suficiente para chocar e prender, e MUITO, a atenção do espectador até a chegada do cliffhanger e o subir dos créditos.

Quando sua nova série em quadrinhos foi anunciada em 2014, com TWD já alçado ao status de “ícone da cultura pop”, todos os olhos e expectativas se voltaram ao novo produto, que viria com a arte lúgubre de Paul Azaceta. Os pedidos das comic shops já superavam até mesmo os das edições mais recentes dos gibis de Rick Grimes e cia limitada.

Dezoito edições depois, a história do proscrito exorcista pero no mucho Kyle Barnes chega à telinha, em um momento que parece tranquilo e favorável levar o Capiroto, suas formas de possessão e toda sua treva para os lares – afinal estão aí Penny Dreadful, as já canceladas Damien e Lucifer, a igualmente recém-chegada, Preacher e a vindoura O Exorcista, para não nos deixar mentir.

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Exorcistas pero no mucho

Além de ser escrito pelo próprio Kirkman, o piloto A Darkness Surround Him é dirigido por ninguém menos do que Adam Wingard. Para quem não liga o nome à pessoa, Wingard é um dos mais quentes cineastas da nova geração do horror independente americano, parte da patota do movimento chamado mumblegore, responsável por alguns dos mais interessantes filmes de terror da safra mais recente, como A Horrible Way To DieVocê é o Próximo e episódios das antologias V/H/S/ e O ABC Da Morte. Ou seja, manja do riscado.

Sabe aquela velha discussão de produtos transmídia, que quadrinho é quadrinho e série é série? Pois bem, nesse caso a HQ de Kirkman e Azaceta parece um storyboard do piloto de Outcast, extremamente fidedigno. As páginas, claro, já têm uma disposição quase cinematográfica, provavelmente proposital, escritas por um sujeito que teve uma experiência de grande sucesso na televisão, tornando a transposição muito fácil.

Aliás, além de ser uma transposição simples, também se torna eficiente para os fãs mais xiitas – que pouco terão do que reclamar ao verem Barnes encarnado no ator Patrick Fugit, ou Phillip Gleinstern como Reverendo Anderson em carne e osso, falando especificamente dos dois personagens principais da trama.

Kirkman, no posfácio do primeiro volume de Outcast, disse que sua intenção era sair de um terreno de fantasia onde zumbis caminham por um ambiente apocalíptico, para um terror mais real, tentando mostrar diversos ângulos do assunto, já que há evidências que sustentam a possibilidade de possessões demoníacas serem reais. Isso, meu povo, é MUITO mais assustador.

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Gosto de crocância

Barnes e Anderson formarão uma dupla de exorcistas, alocados na Virgínia Ocidental, na cidadezinha curiosamente chamada Rome. Ambos têm suas próprias cruzes para carregar, mas tudo indica que, pelo menos ao longo dos dez primeiros episódios, eles terão de desvendar a história do rapaz que, desde sua infância, quando sua mãe fora possuída por uma entidade maligna, vem sendo cercado por esses profanos demônios. Os capetas logo se encarregaram de destruir também sua vida adulta, envolvendo sua esposa e filha pequena na jogada.

Outcast tem lá seu impacto imagético e visceral, maior ainda que o quadrinho, mas claro que não escapa dos clichês do subgênero, enraizados há mais de 40 anos por William Friedkin em O Exorcista. O primeiro caso que irá unir Barnes e o Reverendo é a possessão de Joshua, o tal garoto fã de comer baratas e os dedos – e nele, como de praxe, vamos presenciar olhos negros sem pupila, levitação, aumento de força física, voz gutural e contorção quase que total do corpo, seguindo a mesma boa e velha cartilha do assunto.

Ao término dessa premiére, o que fica martelando até a volta da série em 10 de Junho lá fora, é como essa dinâmica irá se estender durante toda a primeira temporada – ótimo material fonte para isso ela tem – sem cair em uma fórmula prosaica de “o caso de possessão da semana” a ser resolvido pela dupla e também sem esbarrar numa típica panfletagem carola.

Outcast fará a mesma coisa pelo subgênero, como aconteceu com The Walking Dead, e terá força para catapultar exorcismos e demônios ao mesmo panteão dos zumbis putrefatos comedores de carne humana ou será apenas um pária televisivo de Kirkman? Isso somente o tempo, e talvez as forças das trevas, poderão responder.

Publicado originalmente no Judão
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A cavalgada do proscrito

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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