Santa Clarita Diet: uma deliciosa comédia pra quem tem estômago forte

Hilariamente temperada com gore e escatologia


A produção de séries e filmes originais da Netflix parece desconhecer quaisquer limites. Atualmente não há uma semana sequer em que eu entre no site e não me depare com um título novo, produzido exclusivamente para o serviço de streaming mais queridinho da galera. Entre os sucessos estrondosos a lá Stranger Things e Sense8, há um grande número de produtos divertidos, que apostam em subversões de temas comuns. O humor, o fantástico e o sobrenatural têm grande espaço nesta safra, vide títulos como Dirk Gently, Crazyheads, Spectral, Trollhunters e, mais recentemente, Santa Clarita Diet, que parece ser a série do momento da última semana.

Estrelada por Drew Barrymore e Timothy Olyphant, Santa Clarita oferece uma completa subversão das sitcom e séries focadas em famílias americanas, acrescentando um humor absurdo e doses moderadas de violência e sobrenatural.

Barrymore e Olyphant interpretam Sheila e Joel Hammond, um casal de corretores imobiliários que parecem viver o sonho americano. Com sua única filha, Abby (Liv Hewson), eles moram em um típico subúrbio norte-americano ensolarado, onde levam uma vida pacata e rotineira, sem desafios e surpresas. Seus vizinhos parecem igualmente ordinários, exceto talvez pelo nerd aficionado pelo paranormal, Eric Bemmis, interpretado por Skyler Gisondo.

O normal deixa de ser adjetivo característico dessa família após Sheila vomitar uma gosma verde no melhor estilo O Exorcista (só que muito vômito; MUITO vômito). Não bastasse gorfar por todo o banheiro, literalmente, Sheila também morre, mas só por um tempinho. Logo após ser encontrada por Joel em uma festival de vômito verde, ela retorna, como uma morta-viva – seu coração não bate, sua pele é fria e seu sangue é uma gosma negra coagulada. Fora isso, tudo aparenta estar dentro do normal.

Quer perder peso? Pergunte-me como!

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Passado o susto inicial, outros sintomas vão se manifestando, mais especificamente impulsividade, sexualidade aflorada e fome de carne crua. Os Hammond buscam ajuda com Eric, que esbanja conhecimentos sobre o paranormal e explica: os mortos-vivos são controlados pelo id, ou seja, buscam a realização de todos os seus desejos e impulsos mais primitivos. Essa fome por carne crua evolui, inevitavelmente, para uma dieta única e exclusivamente constituída de carne humana fresca.

Logo no primeiro episódio, o gore extremo chama a atenção por destoar totalmente da estética apresentada, sendo por si só uma subversão visual interessante. Ao longo da temporada, as quantias de sangue e mutilação se tornam pouco comuns, mas são sempre chocantes, tamanho o trato com que cada pedaço humano é recriado, tudo com maquiagem, sem um pingo de efeitos digitais visíveis. Apesar disso, o consumo de carne humana nunca se torna um fetiche estético como acontece em Hannibal, série que busca retirar uma satisfação artística, e até mesmo sexual, do canibalismo.

Na dieta de Santa Clarita, a antropofagia surge como um elemento ultra absurdo em meio ao cotidiano banal. É na tentativa dos personagens de lidar com essa realidade assassina e sanguinária que reside grande parte do humor da série. Há sempre um embate entre urgências da vida normal – Abby precisa ir a escola e pensar na faculdade, os Hammond precisam captar novas residências e clientes para a imobiliária, e pagar despesas como a compra de uma Range Rover; e as urgências da não-vida de Sheila – desovar cadáveres, encontrar vítimas merecedoras de uma morte horrível e lugares para matar sem deixar vestígios. É nessa interseção entre o absurdo, o fantástico e o mundano que a obra alcança o sucesso, debochando e ridicularizando ferrenhamente todo um modo de vida.

O maravilhoso shake proteico sabor gente

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Como esperado de uma série da Netflix, os episódios possuem uma fluidez de continuidade que estimulam o binge-watch, ou uma vontade imensa de assistir todos os episódios de uma só vez, o que é relativamente fácil de fazer, já que são apenas dez capítulos de trinta minutos cada. A trama sobrenatural é mais explorada na parte final, de forma que seus desdobramentos ficarão para uma possível segunda temporada.

Vale mencionar ainda o quão bem elaborados são os personagens, que são delimitados e cabem perfeitamente na trama, sem que ninguém fique deslocado ou se torne gordura (desculpe o trocadilho) ao longo da temporada. A sintonia transmitida pelos atores entre si mesmos e seus personagens é ainda mais notável. Há um claro envolvimento e divertimento dos mesmos em interpretar aqueles papéis.

Entretenimento honesto da melhor qualidade, com doses ocasionais, mas cavalares de gore e escatologia, não há dúvidas de que Santa Clarita Diet merece nossa atenção e amor.

Recém saídos de uma maratona de Matrix

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Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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