Seu nome era Jason

His Name Was Jason – Uma análise sobre Sexta-Feira 13


O ano é 1980. Após o fim do american way of life com a derrota no Vietnã, o nascimento e fim da Nova Hollywood e praticamente uma década de supremacia italiana no terror, mesclando filmes com temáticas góticas e o gore extremo, os EUA resolvem virar o jogo do cinema de gênero e um boom criativo se instaura na indústria cinematográfica tornando os próximos dez anos, dos mais prolíficos de toda a história.

Divertimento é a palavra-chave para descrever os 80’s e, justamente nesta década, tivemos o nascimento de diversos personagens icônicos no cinema do horror: Freddy Krueger e suas luvas com lâminas nos dedos em A Hora do Pesadelo, o pequeno jacaré rejeitado de Alligator – O Jacaré Gigante, o policial homicida feio pra dedéu em Maniac Cop – O Exterminador, o boneco do carinha legal possuído por um macumbeiro em Brinquedo Assassino e tantos outros que fazem a nossa alegria até hoje. Mas em 09 de maio de 1980 nascia uma criança que se tornaria o pior sujeito e mais “sangue nos olhos” do terror. A partir daí o gênero tomou um rumo diferente. Seu nome era Jason.

Sean S. Cunningham, em parceria com seu amigo Steve Miner, após o fracasso nos anos anteriores com filmes infantis, decidiu realizar algo totalmente diferente e partir para um longa que mesclava suspense, mortes graficamente violentas, tensão e vingança, depositando no longa suas últimas esperanças de sucesso, chegando até a hipotecar a casa e se meter com produtores mafiosos de Chicago para financiar o longa.

Pronto pra arrebentar!

Pronto pra arrebentar!

O plot do filme é consideravelmente simples: após ter acontecido um brutal assassinato de um casal nos anos 50 no Acampamento Crystal Lake teve de ser fechado. Um grupo de jovens, 20 anos depois, planejam reativar o local porém terríveis assassinatos começam a acontecer por lá. Bingo! A fórmula estava pronta e a diversão garantida! Sexta-Feira 13 foi um sucesso imediato e rendeu mais nove continuações, um spin-off e um remake, gerando mais de 500 milhões de receita em todo o mundo apenas com os filmes! Mas a história poderia ter sido bem diferente…

Creio que todos já tenham visto o clássico absoluto do terror, mas se não o viu, por favor, tome vergonha na cara e vá já ver! Ah, e pule para o próximo parágrafo também. No duelo final, Pamela Voorhees, incrivelmente interpretada pela eterna Betsy Palmer, acaba sendo decepada por Alice (Adrienne King) e seu reinado de evisceração , após ter matado um monte de jovens promíscuos, chega ao fim. O bem vence o mal e mais uma vez o clichê teria lugar num longa que provavelmente seria esquecido com o tempo.

Só que um certo Tom Savini, responsável pela maquiagem do filme, influenciado pelo grand finale de Carrie – A Estranha, deu uma sugestão ao diretor para incluir uma cena onde Jason, o qual o próprio se refere à criança como mongolóide, apareceria na épica tomada onde ele surge do nada no lago Crystal e puxa Alice para lhe fazer companhia nas profundezas do inferno! Esta cena não estava no roteiro original de Victor Miller e ainda bem que Cunningham aceitou a sugestão, pois pense que sem ela o tal mongolóide poderia ter existido apenas como uma citação no primeiro filme. Imagina um mundo sem o saco de batata mais tenebroso que já visto, sem a máscara de hockey, sem aquela cabeça putrefata num altar bizarro, sem aquela trilha sonora icônica…

Me refrescando do calor

Me refrescando no calor

AH, como não lembrar da trilha de Henry Manfredini com aqueles chiados, como de alguém à espreita pra te dar uma facada no bucho? A trilha foi algo de muita criatividade, pois lembra daquela cena em que a Sra. Voorhees começa a alucinar e incorporar o pequeno Jason, dizendo: “Kill her, mommy! Kill her!” ou em português “Mate ela, mamãe! Mate ela!”? Esta fala foi mesclada e dublada com a voz de Betsy Palmer e Ari Lehman (o nosso pequeno menino deformado) e, ouvindo essa sinistra passagem, Manfredini resolveu separar as sílabas KI e MO – que na pronúncia em inglês tem som de má – , respectivamente de kill e mommy, e voilá: temos uma das trilhas sonoras mais famosas do horror! Tirando que durante toda a fita aqueles violinos ora agudos demais, martelando nossas cabeças nas cenas de mais tensão, e ora graves demais, te deixando com a pulga atrás da orelha o tempo inteiro.

Sexta-Feira 13 marcou a popularização do slasher movies – criado por Bob Clark em Noite de Terror e pavimentado por Halloween – A Noite do Terror, responsável por criar as regras para sobreviver e morrer. Sem contar A Mansão da Morte de Mario Bava, protogênese do subgênero e grande “referência” não creditada de Miner. Como principais características há uma grande contagem de mortes com as mais variadas armas, podendo ser facões (ah, estas são as preferidas dos vilões!), cutelos, machados, motosserras, flechas, armas de fogo ou simplesmente qualquer coisa que esteja à mão do geralmente mascarado maníaco. Dentre os regulamentos: se transar morre, se pensar em transar morre, se fumar maconha morre, se dizer eu já volto, morre! As mortes são as mais variadas possíveis: cabeças explodindo, olhos saltando para fora da órbita, lança no pescoço, facada na cara, congelamento facial seguida de explosão, enfim, tudo e mais um pouco para fazer a sua alegria.

E, apesar do nosso assassino predileto não matar ninguém neste filme, o final foi o gancho perfeito para a segunda parte, lançada um ano depois, e que culminaria em uma franquia com mais sete filmes subsequentes. Ali nascia o primeiro ícone pop do horror nos anos 80, e a cinesérie só aumentava, tornando-se altamente rentável, com mortes cada vez mais mirabolantes, litros de sangue jorrados literalmente na sua casa, mais e mais nudez e sem se preocupar com questões filosóficas embutidas de um modo geral.

O instinto materno e de vingança são a tônica. Não que você, mãe, vá matar alguém que maltrate seu filho – vai saber né?! -, mas sabe aquela teoria de que se uma mulher ver seu rebento embaixo de um ônibus, no impulso de salvá-lo, ela seria capaz de levantar a roda do busão? Pois é, a Sra. Voorhees possui este instinto. Outro ponto a ser abordado é sobre o próprio senhorito morte: ele, visto de um determinado ponto de vista, é uma vítima. Ele viu, à sangue frio, a morte brutal de sua mãe e, ao contrário dela , não busca vingança, pois toda a juventude, na verdade, invade o espaço dele. Considerando este outro modo de enxergar a franquia, ele é uma vítima de um sistema do qual não consegue mais fugir. Ele era um excluído, um garoto esquecido por todos e vitimizado por seus problemas mentais. Esse é o ponto em que a empatia se torna forte e que faz todos nós amarmos este cabra sangue ruim!

Sorriso Colgate!

Sorriso Colgate!

Visto pela parte da diversão, esta que com certeza não falta, temos situações extremamente memoráveis: quando encontramos o altar com a cabeça de sua mãe na parte 2, quando finalmente conhece sua cara metade e veste a famosa máscara de hockey na parte 3, a introdução de Tommy Jarvis e seu emblemático duelo final com o assassino na parte 4, a turma de malucos e A FARSA da série na quinta parte, o fabuloso renascimento de Jason na parte 6, a telecinese acordando o monstro na parte 7, o mascarado dando um rolê de metrô na parte 8, a maldade interminável e sobrenatural na parte 9, o Über-Jason reconstruído por cyber aranhas na parte 10 e o embate do século contra o Freddy no spin-off considerado a parte 11. Nem todos os filmes são BONS, óbvio, mas as mortes, sangues e situações no mínimo WTF compensam os pontos negativos e o entretém até o final da fita, seja pela qualidade técnica ou pelo pensamento “nossa, como puderam fazer isso!”. Isso sem contar o remake, ame ou odeie, de 2009 e a lenda da segunda refilmagem que parece nunca sair da promessa.

Poucos foram os atores que tiveram a honra de trazer vida e desespero aos jovens dos arredores de Crystal Lake, mas o que mais se adaptou ao papel e até hoje é reverenciado pelos fãs é o grandalhão Kane Hooder, que tem uma rápida aparição sem a máscara na nona parte e quem diria, também provaria do próprio veneno sendo vítima do mal de Jason hein?! E falando em participações especiais, até o David Cronenberg se sujeitou a tomar uma faca bem na barriga em Jason X!

O queridinho da mamãe, o mongolóide, o menino excluído, o assassino sanguinário, a vítima. O maior homicida de todos os tempos do horror nascia em 1980 para ser eternizado no panteão dos maiores vilões de todos os tempos. Seu nome era Jason!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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