Slasher é um retalho de fórmulas e clichês usados à exaustão

Inspirado em um subgênero que já foi extraído até o bagaço, nova série é típico enlatado televisivo que te faz jogar a toalha logo no piloto


 

Louvável toda e qualquer iniciativa que enxerte uma nova série de terror na grade semanal televisiva, para que os fãs tenham outras opções para acompanhar seu gênero favorito na telinha. Exceto se essa iniciativa for algo do nível de Slasher.

A nova série do canal Chiller, que estreou na gringa na semana passada, foi desenvolvida por Aaron Martin, ilustre desconhecido que em seu currículo, vejam só, não tem NENHUM outro trabalho ligado ao terror, pelo menos de relevância. Tudo bem vai, isso não é motivo real para julgar o cara. O lance é que Slasher parece um retalho de fórmulas e clichês usados à exaustão, tanto em séries de televisão quanto no cinema. E olhe que o subgênero de assassinos mascarados já foi espremido até o bagaço, então sabíamos que dificilmente algo inovador viria por aí. Mas fazer algo tão insosso, daí já é bem do desnecessário.

Slasher figura como uma mistura de todo tipo de enlatado dramático televisivo já visto, com elementos de procedural, alguma dose de violência, e uma trama das mais bobas que envolve assassinatos de cunho religioso, contando com um time de atores nada inspirados no automático, vivendo personagens que causam empatia zero do público, assim como um assassino, apelidado de Executor, que é um poço de falta de originalidade, e você torce por ele só porque não te resta muita escolha e para que todos sejam mortos da forma mais rápida possível e a série acabe logo no segundo episódio, que é o máximo que eu conseguirei assistir – só porque foi um episódio duplo – já jogando a toalha de antemão.

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Carrasco das boas e originais ideias

E o pior é que o piloto começa realmente promissor. No Halloween de 1988, o tal Executor, vestido como um carrasco da idade média, de longa vestimenta de couro preta e máscara pontuda, munido de uma machete, invade a casa dos Ingram e mata o casal a sangue frio, sendo que Rachel (Alysa King) estava grávida de nove meses e o bebê fora arrancado de seu ventre depois da vida lhe ser ceifada. A polícia chega ao local e encontra um jovem Tom Winston embalando a criança na cadeira de ninar, orgulhoso de seu feito.

Elipse temporal, dias atuais, e o bebê agora é a galerista Sarah Bennett (Katie McGrath – péssima), casada com o jornalista Dylan (Brandon Jay McLaren – casal mais sem química ever) que volta para sua cidade natal, a fim de morar na mesma casa onde os pais foram assassinados e tentar começar uma nova vida no subúrbio, junto de todo tipo de morador estereotipado que poderia ser criado pela cabeça de um roteirista. Mas é óbvio que de repente o Executor voltará a fazer suas vítimas por aquelas bandas.

Mas não é o mesmo Tom Wiston (Patrick Garrow – o mais sem graça psicopata já visto nas telas), e sim um copycat, uma vez que o mesmo ainda cumpre a pena por prisão perpétua. Para tentar descobrir quem é o assassino e suas motivações, ligadas a vinganças bíblicas e os sete pecados capitais (ORIGINAL PACAS) e o mais importante, informações sobre o obscuro passado de seus pais, Sarah irá se tornar quase uma BFF de Wiston, que lhe ajudará fornecendo dados vitais em sua investigação, em uma dinâmica à la Clarice Starling e Hannibal Lecter das mais mambembes possíveis.

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Casal 20 (- 20)

Ao que tudo indica, serão oito longos episódios focados no melhor estilo whodunit, para rolar a descoberta da identidade do assassino, só que tudo de forma plastificada, com uma estética preguiçosa de seriado série B feito para TV (mais ou menos o mesmo mal que acometeu Damien, pelo menos em seu piloto), com uma pobreza de espírito sem tamanho, personagens com apelo dramático zero e nada críveis e uma trama que não consegue te impactar e prender, o que pelo menos para mim, em um universo de seriados televisivos em que a oferta e a procura é na casa das dezenas, te faz abandoná-lo logo no começo com se fosse um relacionamento descartável e sem futuro, ainda mais nesse velho formato de exibição de um episódio por semana, em que é necessário tempo, paciência e fidelidade.

Mas, como vivemos em um mundo alienado e de diminuta expectativa em que tem gente que não gosta de A Bruxa e sai xingando nas redes sociais, bem capaz de uma série como Slasher fazer um baita sucesso – já que ultimamente muito do gênero vem sendo nivelado por baixo – e render aí ótima recepção do público e uma possível renovação de temporada, também dando ao Sr. Aaron Martin algum status quo no meio que o fará se aventurar talvez em outras searas horroríficas no futuro. Arrisco-me a dizer que ela foi feita milimetricamente pensada para abocanhar o público do mid season de Pânico enquanto não estreia a segunda temporada.

Slasher pode melhor? Pode, mas acho bem difícil, principalmente quando uma série não te pega de jeito (ui!) logo em seu piloto e não melhora em nada no segundo episódio. Mas para quem gosta da pasteurização de um subgênero tão batido quanto o nome que a série batiza, e não quer nada mais que entretenimento pobre e barato, pode até ser uma boa pedida, vai saber…

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Retrato de um serial killer. SQN!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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