TBT #09 – Hellraiser: Revelations

Nenhum gancho, corrente ou prego perfurando a sua pele é tão doloroso quanto assistir esse filme


A saga Hellraiser é composta por altos e baixos. Geralmente mais baixos do que altos. São ao total nove filmes, sendo que só quatro são películas que valem sentar a bunda na frente da tela para assistir. INCLUINDO O HERANÇA MALDITA SIM, LIDE COM ISSO. Só que chega uma hora que a franquia começa a dar no saco, graças a cinco longas horrorosos em sequência, sempre com a mesma fórmula: era comprado um roteiro medíocre qualquer, feitos uns ajustes aqui e ali para que os Cenobitas e toda sua mitologia masoquista fossem enxertada na história e voilà! Temos um novo capítulo na série. Essa era a tática sem-vergonha que a Dimension Pictures usava para não perder os direitos do que se iniciou em 1987 quando Clive Barker resolveu reescrever e adaptar seu conto chamado The Hellbound Heart para os cinemas.

Em 2011, com o contrato dos direitos dos personagens prestes a expirar, a Dimension decidiu que devia salvar a franquia, embora não tenha nada mais nada que salve Pinhead e seus amigos desse inferno (hã, hã?). Eis então que, com pouquíssimo tempo hábil, questão de semanas, Gary Tunnicliffe resolveu que era hora de escrever um roteiro. O que é louvável, já que durante anos foram usados roteiros em que o universo Cenobita era uma espécie de intruso. E assim surgiu Hellraiser: Revelations, o pior longa entre todos os outros já lançados. E olha que era um trabalho árduo para conseguir ser pior que Hellraiser: O Mundo do Inferno.

A fita basicamente é chupinhada do primeiro, com direito a ter um sujeito que, após abrir o Cubo das Lamentações, precisa de sangue humano para se recompor e faz com que seu melhor amigo mate pessoas inocentes. O problema é que é um erro do início ao fim. Começa quando dois amigos, Nico e Steven, decidem viajar para o México para noites regadas a prostitutas e bebidas. Lá, conhecem um homem estranho que lhes apresenta a tal caixa quebra-cabeça. Dali em diante, Nico se torna obcecado com o cubo e nós já sabemos onde isso vai parar.

Depois de abri-lo, ambos os dois jovens ficam desaparecidos por um tempo. As famílias se reúnem para um jantar, então a irmã de Steven mexe na mochila do garoto e encontra a caixa de LeMarchand (como a mochila do garoto com a câmera que levaram e o cubo apareceu na casa deles, é um mistério) dando início ao enredo. A narrativa é toda estranha, usando recursos em excesso, fazendo uma mistureba de subgêneros que faziam sucesso no cinema não só de horror, mas como um todo.

"Eu vejo filmes ruins..." "Com que frequência?" "Desde 2000"

“Eu vejo filmes ruins…” “Com que frequência?” “Desde 2000”

Pra começar, o diretor Victor García e Tunnicliffe acharam que seria uma boa ideia usar da estética found footage, que eu nem preciso dizer que estava no auge graças á Atividade Paranormal e se tornou um dos favoritos da famigerada geração jumpscare, durante metade da projeção. Como se só isso não bastasse, eles também usam o recurso de contar a história através de flashbacks durante boa parte do filme também. Como eu disse, excessivamente. O resto, é o longa ocorrendo no “presente”, com a família dos dois lidando com situações e sensações estranhas nunca sentidas antes graças àquele cubo maldito. Isso tudo faz com que os poucos 75 anos… digo, minutos, de projeção pareça uma eternidade de tão arrastado e maçante que é essa parada.

Some tudo isso com péssimos atores, uma péssima atmosfera de desespero e paranoia e um roteiro mais furado que camiseta de traficante após confronto com a PM e temos Hellraiser: Revelations. O final ainda nos reserva dois plot twists mequetrefes que de certa forma, ou não, deixariam um gancho (hein?) para um próximo. Mas que não funciona de jeito nenhum e só faz você se sentir agradecido que finalmente essa bosta tenha terminado. Esse filme é tão doloroso de assistir que consegue transmitir a real sensação de ter sido pego por Pinhead e seus Cenobitas e torturado até a morte. O único ponto positivo são os efeitos práticos, priorizados acima do CGI, o que era o mínimo que poderia ser feito. Mas não há nada de novo sob o sol, são rostos sendo arrancados, correntes perfurando e rasgando pessoas. É tipo fazer um bolo de cocô do cavalo do bandido e colocar uma cereja em cima.

Gostaria agora de destacar por um momento o Pinhead de Stephan Smith Collins. Se você é um fã ardoroso do 101HM ou não tinha nada melhor pra fazer em uma noite de quinta-feira (a segunda opção parece mais plausível para mim), você provavelmente me ouviu falar sobre um Hellraiser em que o Pinhead parecia o Rivaldo, o craque da Seleção Brasileira de 2002, do Barça, do Mogi-Mirim, ou, como carinhosamente apelidamos dali em diante, Pinvaldo. Esse é o cara. A atuação de Collins é estranha, ele se esforça muito para parecer ameaçador com caras e bocas, falhando miseravelmente. Em nenhum momento ele diz alguma frase emblemática, como Doug Bradley vociferava quando representava o personagem. Smith parece mais engraçado do que amedrontador.

Além de realmente parecer com o Rivaldo, ele não usa a própria voz. Sendo vítima de uma das piores dublagens que já vi, sendo que a voz não faz jus a quem está em tela e, além disso, é mal sincronizada. Sendo que há momentos que o personagem mal mexe a boca mas as palavras estão lá. Pior que batalha de lip sync. Seus companheiros são conhecidos por quem é fã da série, sendo eles o Chattering Cenobite (que aqui é uma mulher) e um Pinhead do Paraguai que resolvi apelidar de Pseudohead. Sendo sincero, esse longa parece ter sido feito pela The Asylum, e ainda um dos títulos mais horrorosos da empresa. E olha que falar em Asylum você já está nivelando por baixo.

Hellraiser: Revelations nada mais é do que um filme feito nas coxas, com muita pressa e pouco orçamento, movido pela ganância dos engravatados da Dimension Pictures. Não é de impressionar que Clive Barker, ao ver o material promocional do longa dizendo “Direto da mente de Clive Barker”, tenha dito: “Esse filme usando o nome Hellraiser NÃO É FILHO MEU, PORRA. Eu não tenho nada a ver com essa porcaria. Se eles disserem que veio de minha mente, é uma mentira. Isso não saiu nem do meu rabo.”. E, cá entre nós, sejamos sinceros: a qualidade seria bem maior se tivesse saído do rabo do cara.

Há um novo longa chamado Hellraiser: Judgment que está em fase de pré-produção, com um roteiro escrito novamente por Tunnicliffe e que, adivinhem, não tinha nada a ver com a franquia. O filme vai ser estrelado pela eterna Nancy Thompson, Heather Langenkamp, e contará com um novo Pinhead. Sinceramente, prefiro ser empalado por centenas de ganchos do que ter que me submeter a assistir mais um filme tosco envolvendo Cenobitas. A não ser que o editor me peça “com carinho”…

Your suffering will be legendary even in Mogi-Mirim

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Angelus Burkert
Angelus Burkert
Psicopata em formação. Pegou gosto pelo cinema de horror após ir até a sessão de VHS de terror na locadora e olhar todas as capas de filmes possíveis. Fã confesso de música e games, provável que não mude nada com o passar dos anos, exceto o amor pela carnificina.

2 Comentários

  1. Alex Oak disse:

    Excelente texto. Como sempre adorei os 3 primeiros, encontrei essa perola no netflix e me forcei a assistir mesmo sabendo que seria mais uma das tosquices da franquia. Só cheguei ao fim adiantando alguns minutos

  2. Henrique disse:

    Jesus, que troço ruim! Não consegui chegar nem na metade do filme! Clive Barker deveria conjurar uns demônios pra eliminar esse pessoal da Dimension Pictures.

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