TBT #10 – Mórbido Silêncio

Roteirizado pelo ícone do rock n’ roll Dee Snider, que nunca deveria ter saído da música


Que o rock e o metal por muitas vezes andaram de mãos dadas com o horror não é nenhuma novidade. Um grande exemplo disso são os filmes do também músico  Rob Zombie ex-vocalista do White Zombie, que escolhe a dedo a trilha sonora de seus trabalhos, que contam com músicas de artistas como Lynyrd Skynyrd e Kiss.

Uma das bandas de rock mais populares dos anos 80 foi o Twisted Sister, que ganhou destaque devido ao visual glam que os integrantes usavam e por seus clipes com influências de comédia pastelão, tendo suas músicas I Wanna Rock e We’re Not Gonna Take It consideradas como clássicos do gênero.

Em 1998, Dee Snider, vocalista do TS, decidiu se aventurar no mundo do cinema e escreveu um roteiro para um filme de terror. Tomando como base a letra da música Horror-Teria: The Beggining, lançada originalmente no terceiro álbum do Twisted Sister, Stay Hungry, de 1984. A música é uma peça progressiva de duas partes, sendo essas Captain Howdy e Street Justice. O roteiro do longa segue essa mesma estrutura.

O filme começa quando duas colegiais, Genevieve e Tiana, estão em uma dessas salas de bate-papo online (tipo quando você usava o Bate-Papo UOL, pensa que eu não sei?), quando recebem um convite para uma festa da faculdade de um tal Capitão Howdy. Sem nem pensar as duas aceitam. Alguns dias depois, Tiana é encontrada morta e Genevieve é dada como desaparecida. O detetive Mike Gage, pai de Genevieve, começa a investigar esse caso, que parece ter sido só mais um entre muitos outros crimes que já haviam acontecido, e acaba descobrindo muito mais que um simples serial killer.

 

Esse filme é um pesadelo!

Esse filme é um pesadelo!

O longa trata sobre a cultura underground do body modification e todos os seus rituais. Essa informação pode levar alguns a esperar por gore e mortes escabrosas, o que não acontece.  A maioria das coisas acontece em off screen e a presença de sangue nas cenas de tortura é a menor possível. Grande parte da película é dedicada  à investigação e coleta de pistas feita por Mike e seu parceiro Christian.

O ritmo do filme e toda a narrativa são estranhíssimos, as coisas acontecem muito rapidamente e a direção de John Pieplow não preza por nenhuma construção de suspense ou atmosfera sombria e bizarra. Visto que o tema da modificação corporal pode abrir portas para diversas coisas grotescas, fica um desapontamento no ar.

Snider, como roteirista, é um ótimo cantor. O texto é repleto de furos, como por exemplo o modo com que Gage descobre o paradeiro de Howdy. Ainda pior é a retratação desse vilão que, inicialmente, aparece repleto de piercings e todo tatuado, para no segundo ato, onde ele supostamente teria entrado em reabilitação, assumindo sua real identidade, Carlton Hendricks, reaparecer sem esses piercings e sem vestígios de que já os havia usado, e sem as tatuagens que cobriam metade do seu corpo, e então, no último ato aparecer da mesma maneira que estava no primeiro. No fim das contas, se ele era assim tão viciado e cultuador da modificação corporal, porque suas tatuagens e piercings seriam “falsos”?

Nem sei o que falar sobre a internet usada no filme! Considerando  que ele se passa na época em que foi lançado, 1998, onde a internet ainda estava engatinhando, é quase impossível que a conexão dos caras tenha aquela velocidade de resposta. E ainda tem muitas outras coisas que eu poderia citar, mas acabaria focando a resenha somente nisso.

 

Tô pendurado em duas cadeiras esse semestre

Tô pendurado em duas cadeiras esse semestre

As atuações são pífias, até mesmo por parte de Robert Englund, o titio Freddy em pessoa, que aqui faz um cidadão revoltado que decide fazer justiça com as próprias mãos. É uma atuação forçada e exagerada.

O único que, ironicamente, se sai bem, é o próprio Dee Snider. Ele consegue realmente parecer um sujeito perturbado, cultuador da arte do body mod e perverso ao representar Howdy, e ainda aparentar ser um homem arrependido e com medo de si mesmo quando interpreta Hendricks. Todo o esforço de Snider em criar um personagem bizarro e perturbador é em vão, já que em nenhum momento o roteiro colabora.

Espera-se que o filme melhore quando o terceiro ato começa, mas acaba que ele só piora e o embate final entre Gage e Howdy é um dos mais, quiçá o mais vergonhoso da história do cinema de terror! Mórbido Silêncio é um longa com muito, muito potencial, com um vilão bizarro e amedrontador e com uma ideia que teria tudo para dar certo, porém mais mal escrita e executada que o diabo. A única coisa que realmente salva é a trilha sonora que conta com bandas como Marilyn Manson, System of Down, Pantera, Megadeth, Sevendust e o próprio Twisted Sister.

Em 2008, o filme ganhou um prequel em quadrinhos chamado Strangeland: Seven Sins. Há anos Snider fala que pretende produzir uma sequência que dessa vez além de roteirizada, também seria dirigida por ele. Até agora o filme tem o nome de Strangeland: Disciple. Mas enquanto essa continuação fica em development hell, meu conselho é que você fique apenas na trilha sonora desse aqui, pois é provável que se resolver assistir ao filme, você queira costurar seus olhos.

Relaxa, fazer tatuagem não dói nada

Relaxa, fazer tatuagem não dói nada


Angelus Burkert
Angelus Burkert
Psicopata em formação. Pegou gosto pelo cinema de horror após ir até a sessão de VHS de terror na locadora e olhar todas as capas de filmes possíveis. Fã confesso de música e games, provável que não mude nada com o passar dos anos, exceto o amor pela carnificina.

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