TBT #11: A Máscara do Terror

Somos nós que vestimos a personalidade ou ela que nos veste?


Um dos piores sentimentos pelos quais o ser humano pode passar é a rejeição. Sentir-se desvalorizado, menosprezado e ignorado é algo com o qual muitas pessoas sucumbem à depressão ou ao renascimento.

Com esta premissa mais que explícita, revisitei o ótimo A Máscara do Terror, incursão do George A. Romero, que nos deixou neste último domingo, fora do universo zumbi, onde traveste uma poderosa crítica social na trama. O empático e bondoso funcionário Henry (Jason Flemyng) da revista Bruiser tenta conseguir amigos, ser valorizado por seu egocêntrico e megalomaníaco chefe Miles (Peter Stormare) e ser a melhor companhia a todos em sua volta. Porém, após viver várias situações trágicas com as quais é posto sempre no limite da sanidade, um dia ele acorda e se vê sem rosto e sem identidade, tal qual sempre o trataram. Esta é a deixa para que ele ponha em prática sua vingança com todos os que o traíram e os faça provar de seu próprio veneno.

Vestir uma máscara e sair matando à revelia não é nada de novo do terror, porém se tratando de Romero meu amigo, pense e repense sempre o significado metafórico de cada situação exposta em tela. Como já o fizera em A Noite dos Mortos Vivos, Despertar dos Mortos e Dia dos Mortos, aqui não seria diferente. A máscara do protagonista é totalmente branca, sem expressão nenhuma, exemplificando as relações humanas atuais, com o crescente desapego e individualismo, onde  empatia se torna cada vez mais rara, assim, tornando-nos cada vez mais “iguais” perante os outros. Saber que hoje a sua aparência e o considerado padrão de beleza valem mais que seu caráter é algo assustador, ainda mais na era tecnológica dos aplicativos tipo Tinder.

Outro ponto interessante na película é quando Rosemary (Leslie Hope) apresenta à Henry seu peculiar jardim. Seu recanto de paz, serenidade e reflexão é enfeitado com máscaras moldadas em gesso com a feição de distintas pessoas, onde o adorno é, ao mesmo tempo, uma cópia perfeita de seu rosto e de qualquer outro. As máscaras são enfeitadas e pintadas de acordo com a personalidade de cada um, o que pode fazer com que um pouco de seu íntimo seja demonstrado, mas a de Henry permanece totalmente branca e sem expressão. O vazio cobre sua personalidade bem como sua vida, e a pergunta “quem sou eu?” ou “o quê sou eu?” é minuciosamente e delicadamente posta à luz por Romero, transportando o espectador para dentro de sua realidade.

Exagerei no hidratante

O jardim das almas perdidas demonstra o quão podemos ser diferentes para cada situação ou ambiente, mesmo sendo únicos. Numa pessimista abordagem, também demonstra a falsidade e a descartável faceta humana, onde nunca nos mostramos 100% verdadeiros a ninguém.

Os conflitos de personalidades foram sempre tema forte para que o diretor abordasse de modo violento o cotidiano de todos nós, mas em A Máscara do Terror, talvez seja onde Romero melhor humanize o protagonista a um ponto empático tão grande que não há como não o defender das injúrias ou injustiças que sofre, pois com certeza, qualquer um já viveu, no mínimo, um daqueles problemas. Quem nunca passou por uma decepção amorosa, falsa amizade ou trabalho desvalorizado?

Além de toda a qualidade crítica e imaginativa, o vovô dos zumbis ainda nos brinda com a sempre impecável qualidade de seus filmes, com bela fotografia, ótimas atuações, passeios pelos mais diversos ambientes pelo perfeccionismo da sua já conhecida steadycam e uma trilha sonora sombria e conhecida dos anos 2000, com direito até a uma participação especial da banda de horror punk Misfits.

Após sete anos de hiato, desde A Metade Negra, Romero nos entrega uma obra competente, sólida e novamente, atemporal. Vê-lo ontem, hoje ou daqui a anos será sempre um desbunde aos olhos dos mais humanos, e torço para que o seja para mais e mais pessoas.

Cara pintada!

 


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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