TBT #12: Djinn

Quando o gênio encontra Tobe Hooper


A arte do desconhecido, diferente, incomum, é sempre mal visto num primeiro momento, para que anos ou décadas depois, o mesmo tome seu lugar como “cult”. Hoje é modinha falar que este ou aquele filme é cult, mas difícil é aceitá-lo em sua concepção, em seu nascimento. Foi assim com grandes diretores como Francis Ford Coppola e seu O Selvagem da Motocicleta, Roger Corman com Viagem Ao Mundo da Alucinação, Wes Craven e a celebração de Aniversário Macabro e tantos outros. Por que seria diferente com um dos diretores mais controversos, originais e revolucionários de todos os tempos, o mestre da motosserra, Tobe Hooper?

Em seu debute, O Massacre da Serra Elétrica revirou o mundo do horror com um filme brutal, cru e violento, não apenas por seu tom documental, mas também por retratar a vitória da loucura, insanidade e pura maldade. Durante toda a sua filmografia, há quem ame ou odeie suas obras com os mais diversos temas, do video nasty Devorado Vivo até Poltergeist – O Fenômeno, do execrado fracasso comercial Força Sinistra até o trash Crocodilo, e por aí vai. Prolífico que era, e infelizmente por ter sido a única e última porta a ter se aberto para demonstrar seu talento, os Emirados Árabes pôde dar a Hooper a liberdade criativa para que um espírito maligno ganhasse vida, e assim Djinn viu a luz do dia (ou da noite).

O filme conta a história de um casal que, após terem passado pela tragédia de perder um bebê, retornam à sua antiga casa nos Emirados Árabes e descobrem que ela fora construída num antigo local que outrora abrigava espíritos do mal. Apesar de ser uma trama simples, a ambiguidade toma conta de praticamente todo o clima tenso do longa, firmando o retorno de Tobe ao mundo sobrenatural, mas agora de forma muito mais adulta e madura.

Atenda meu pedido, ó gênio!

Simplificando bastante, o termo djinn significa gênio e este ser pode ser bom ou ruim, interpretando os pedidos de seu amo da forma mais absurda possível, ou da maneira mais bondosa e empática possível. A entidade “de lua” já foi adaptada para as telas em O Mestre dos Desejos  O Jogo dos Espíritos e mais recentemente, Sob a Sombra.

Djinn consegue transmitir toda a angústia e desespero de seus personagens, mesclando as já conhecidas e perfeccionistas tomadas que Hooper consegue nos proporcionar, com as atuações satisfatórias e “mundo” cinzento. Creio que o diretor quis, misturando um nevoeiro a lá Terror em Silent Hill e uma fotografia com um tom mais ameno puxado para o pastel, balancear e transmitir o sentimento da história e o drama, aumentando assim a carga emocional.

O cuidado para esta produção é tão grande que até os nomes dos personagens são relevantes. O casal protagonista do filme com os nomes de Khalid e Salama, vividos por Khalid Laith e Razane Jammal respectivamente, possuem seus significados como “eterno” e “paz”. Com certeza todo o exposto em tela (ou não) traz a dubiedade à tona, fazendo com que o espectador fique com a pulga atrás da orelha tentando descobrir o que realmente acontece, propondo, ainda mesmo após o take final, uma ampla discussão sobre o que acabaste de ver.

Como expus acima, alguns diretores e filmes foram subestimados ao longo dos anos, esperando apenas alguém com uma visão diferente tachá-los como visionários, modernos, injustiçados, cults. Bem como seus dois filmes anteriores – Noites de Terror e Mortuária -, creio que Djinn ainda será mais valorizado ao passar dos anos, até por acabar sendo a última obra dirigido por Hooper antes de falecer no último fim de semana, e acontece de infelizmente, só apenas que um cara morre, que revisitam sua obra e redescobrem pérolas que mereciam uma atenção maior.

Djinn é um filme conciso, adulto, com uma temática forte, aberto a várias possibilidades e comparações com a vida real. Não tão distante de ser um clássico, o gênio da lâmpada desta vez retornou do sono levando consigo seu amo, deixando apenas saudades.

Não creio que ele se foi :'(


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

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