TBT #14 – Terror em Dose Dupla

“Um machado cortando uma cabeça em duas… Garras de aço arrancando um coração ainda palpitante… Sangue, cérebro e vísceras por todo lado…”.

Isso poderia ser um trecho extraído de um livro de terror ou do roteiro de um filme gore, mas não é. É o abre de um ÁLBUM DE FIGURINHAS! Isso mesmo, do álbum (ou livro ilustrado, se preferir) Terror em Dose Dupla, lançado pela Multi Editora no longínquo ano de 1991, que trazia figurinhas dos dois maiores ícones do cinema de horror daqueles (e de todos) tempos: Freddy Krueger e Jason Voorhees.

Agora pense comigo: em que realidade paralela, hoje, em 2017, vinte e seis anos depois, existiria algo minimamente parecido, onde crianças como eu (que na época tinha NOVE ANOS) comprariam figurinhas de dois serial killers cinematográficos com cromos repletas de sangue, mortes, eviscerações, cabeças decepadas, deformidades e por aí vai?

Por isso que eu digo, quem viveu essa minha geração dos 30, viveu…

Bem, naqueles idos, os dois movie maniacs faziam um BAITA sucesso aqui no Brasil, que já comprova minha teoria de que terror é sim CULTURA POP, muito por conta das exibições de seus filmes nos cinemas, as fitas VHS nas prateleiras das locadoras e principalmente, Sexta-Feira 13 passando frequentemente na Rede Globo e A Hora do Pesadelo, no SBT. Rolou até entrevista do Robert Englund para o Domingo Legal do Gugu, durante o junket da campanha promocional de A Hora do Pesadelo 4: O Mestre dos Sonhos.

E a prova cabal da popularidade dos dois foi a publicação de Terror em Dose Dupla, numa época em que álbuns de figurinhas eram uma febre! Tinha das Tartarugas Ninja, do RoboCop, de dinossauros, de cachorros, da Moranguinho, do Pica-Pau, do Amar É, do Pequeno Pônei e o mais naipe de todos, da Gangue do Lixo! 

A primeira metade do impresso era dedicada ao Titio Freddy, trazendo stills das cenas de seus filmes, até a quinta parte, e na metade final, o protagonismo era do assassino de Crystal Lake, com direito a uma galeria de figurinhas dos pôsteres originais de seus filmes, em épocas jurássicas que ninguém sequer imaginava o que era Internet, para poder apreciá-los.

E ah, como era delicioso ir até a banca e gastar os trocados que seus pais lhe davam de mesada nessas figurinhas, para tentar completar o mais macabro dos álbuns já feitos! E aliás, o que os pais dos anos 80 tinham na cabeça de comprar um álbum desses para o filho e incentivá-los a colecionar tal afronta?

Ainda fomos agraciados com nada menos genial que a porrada de trocadilhos infames que servem de legenda para algumas figurinhas, além claro, do tradicional politicamente incorreto daqueles tempos. A figurinha em que Tina está toda ensanguentada envolvida em um saco plástico e aparece no corredor da escola do sonho de Nancy, no primeiro A Hora do Pesadelo é acompanhada do texto abaixo “Pronta para entrega…”. Ou quando a garota bulímica que morre de tanto Freddy entubar comida em A Hora do Pesadelo 5: O Maior Horror de Freddy, está tentando ser arrancada da geladeira por Alice, logo abaixo estão os dizeres “Que fria!”. Ou Kruger de smoking segurando uma cabeça decapitada no programa de TV de A Hora do Pesadelo 3 – Os Guerreiros dos Sonhos, segue a espertalhice “Com a cabeça no lugar” legendando.

Talvez parte desse tipo de humor imbecil eu tenha herdado nas legendas das fotos aqui do 101HM. Freud explica…

No caso do Jason, é o mesmo expediente, com pérolas do tipo: “Assim que eu gosto de mulher”, com uma figurinha do clássico Sexta-Feira 13 que traz a moça com um machado enfiado no meio do rosto; “Alguém precisa de uma mãozinha?” com o assassino segurando um braço inteiro de um pobre diabo em Sexta-Feira 13 – Parte 6 – Jason Vive; e a pior de todas, “Jason promove a união das raças”, snapshot de um frame do execrável Sexta-Feira 13 – Parte 5 – Um Novo Começo, puxando pelo pé uma garota branca e um rapaz negro abraçados…

Ah, mas até que existe um atenuante entre toda essa barbaridade e figurinhas de mortes gráficas, porque há uma página dupla trazendo as inocentes versões de Freddy e Jason mirins, em situações infantis (porém repletas de humor negro), com o desenho dos psychos vendo um álbum de fotografia escrito RECORDAÇÕES e o seguinte letreiro introduzindo a essa seção juvenil: É DE PEQUENO QUE SE TORCE O PEPINO.

Hoje, com 35 anos nas costas, revendo Terror em Dose Dupla para escrever esse artigo para a seção throwback de quinta-feira do meu próprio site de terror, não consigo conceber tamanho surrealismo, que algo realmente neste calibre tenha sido publicado e consumido por crianças.

Mas ao mesmo tempo, me deleito por ter pais desnaturados que me deram a oportunidade de, na mais tenra infância, ser agraciado com esse tipo de violência sem censura, e poder ter uma material visual e colecionável dos meus dois ídolos maiores, que hoje trago até tatuados na pele!

Talvez, só talvez, por causa de coisas como Terror em Dose Dupla, eu tenha hoje o 101 Horror Movies e vocês estejam lendo esse saudoso e emocionado relato.

Chupa álbum de figurinhas do Cavaleiros do Zodíaco ou da Copa do Mundo!

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

4 Comentários

  1. Shirley Paiva disse:

    Eu tivesse. Que saudade dessa época!

  2. Gabriel Dantas disse:

    Poxa eu tive e não era esse acompanha um pôster ? No meu caso coloquei o do Freddy na parede do quarto . Uma semana depois nao dormia mais

  3. Leandro 2112 disse:

    Muito foda!

  4. Júlia disse:

    que album maneiro, deve ter sido uma época otima!! e as legendas? hahahahahahha btw adoro as daqui hahahahah

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