TBT #15 – Bates Motel

Revisitando o motel dos Bates


Nas primeiras páginas de seu livro Como Escrever Séries, a autora brasileira Sônia Rodrigues diz que as séries de televisão são a narrativa do século XXI, fenômeno facilmente observável frente a popularidade massacrante da Netflix e shows como Game of Thrones e The Walking Dead.

Na década atual, substituindo o interesse por remakes cinematográficos e embarcando nessa onda, o horror viveu um boom repentino de refilmagens em formato seriado. O Silêncio dos Inocentes e os livros/filmes do Dr. Lecter tornaram-se Hannibal; a possessão demoníaca como descrita por Friedkin reapareceu na forma de O Exorcista; O Pânico de Wes Craven passou a ser o Pânico da MTV; O filho do demônio como visto em A Profecia retornou em Damien; Os adoradores de satã mais uma vez clamaram pela vinda do anticristo na minissérie para TV O Bebê de Rosemary; uma adaptação de Sexta-Feira 13 foi anunciada mas morreu na praia; o anti-herói icônico de Bruce Campbell precisou enfrentar o Necronomicon mais uma vez em Ash Vs Evil Dead e claro, o Psicose de Alfred Hitchcock tornou-se Bates Motel.

Lançado em 2013, meio que buscando preencher o vazio deixado por Dexter como serial killer favorito do povo, a trágica história de Norman Bates foi transportada da literatura para as telinhas através das mentes criativas de Anthony Cipriano, Carlton Cuse e Kerry Ehrin. Escrito originalmente por Robert Bloch e inspirada no notório assassino ladrão de túmulos Ed Gein, Psicose tornou-se pedra fundamental do nosso amado gênero ao ganhar as telas do cinema, pelas mãos hábeis de Hitchcock. Aqui, farei um diálogo entre série e filmes, deixando o livro um pouco de lado.

Foi em 1960 que Marion Crane, após roubar 40 mil dólares, foi parar em um pequeno motel isolado nos arredores de Fairvale. Lá, ela conheceu o peculiar Norman Bates, gerente do motel e filho de uma mãe aparentemente controladora. Mal sabia ela que a peculiaridade de Norman tomava contornos violentos e a tal mãe jazia morta e enterrada (ou não) havia dez anos. A psicose do gerente resultou em uma das cenas mais memoráveis da história do cinema, sem qualquer exagero hiperbólico. Vestido com as roupas de sua mãezinha querida, Bates esfaqueou Marion brutalmente no chuveiro e escondeu seu corpo em um pântano próximo. Infelizmente para este, o desaparecimento da moça atraiu atenção indesejada que culminou em sua captura.

Ligados pelo crime

Os passados de Norman

O seriado volta um pouco no tempo, para a época em que Norma Bates ainda era viva, mostrando sua relação com seu filho, então adolescente. Nos respectivos papéis, temos a veterana Vera Farmiga e o jovem Freddie Highmore. Após a morte do marido e pai, os dois se mudam para os arredores de White Pine Bay, onde buscam recomeçar a vida. Porém a cidade guarda uma série de mistérios que trazem a tona o que há de pior dentro da família Bates. Acometido de blackouts ocasionais, Norman varia entre um garoto doce e inocente e um assassino com dupla personalidade, processo que se intensifica temporada após temporada.

Em Psicose IV – O Início, Mick Garris e Joseph Stefano contaram uma história parecida. No filme, que foi feito para televisão, Norman participa de um programa de rádio cujo tema é matricídio – ato de assassinar a própria mãe – e lá, ao vivo, compartilha sua história de vida que culminou com a morte da progenitora. Norman Bates é interpretado por Henry Thomas, o garotinho de ET – O Extraterrestre, que em momentos se parece assustadoramente muito com Freddie Highmore. Norma, por sua vez, é interpretada por Olivia Hussey, de Noite do Terror.

Existem diferenças gritantes entre as duas abordagens, especialmente no que tange a mãezinha querida de Norman. Na série, Norma é uma mulher dominadora, de presença quase que hipnótica, que luta contra um histórico de dor e sofrimento para manter seu filho doente junto de si.

Na psicologia, um tal de Moreno veio com uma ideia interessante sobre a formação do sujeito. Segundo ele, a primeira etapa dessa formação seria algo chamado de indiferenciação, ou um período em que a criança, a mãe e o mundo são uma coisa só. Ao longa da série, através do discurso de Norman e das ações de sua mãe, fica claro que essa indiferenciação permaneceu por muito além da infância.

Em Psicose IV, a relação dos dois é um pouco diferente, com Norma exercendo um papel de opressora diante de seu filho, massacrando-o com ideais religiosos ultrapassados e ideias conservadoras e doentias sobre a figura da mulher. Há uma grande proximidade com a mãe de Ed Gein, que pregava para seu filho que todas as mulheres eram vagabundas por natureza. Lá, tanto a relação em si quanto o desenlace dessa dinâmica mãe-filho é uma tortura unilateral. Já nas telinhas, Norma divide o protagonismo com sua prole, então sua personagem é deveras mais palatável, além de possuir algumas boas camadas a mais de profundidade.

Falando em Ed Gein, a série trouxe um personagem novo inspirado na história real, que não havia dado as caras em nenhum dos quatro filmes canônicos. Dylan Masset (Max Thieriot), apesar do sobrenome, é irmão por parte de mãe de Norman. Na trágica história que inspirou isso tudo, Gein também tinha um irmão mais velho, que tentava dissuadi-lo do controle massacrante de sua mãe. Dylan é parte essencial do maior problema de Bates Motel, desde a primeira temporada, as subtramas relacionadas a cidade e ao cartel de maconha.

Norma ou Norman?

O mal da cidade

No seriado, o motel comprado pelos Bates está situado nos arredores de White Pine Bay e não de Fairvale, trocando a Califórnia pelo Oregon. A cidade ficcional parece pacata, mas é o centro de uma gigantesca operação de plantação e venda de maconha e tráfico humano. Em suas tentativas de se estabelecerem no local, Norman e sua mãe engajam em recorrentes conflitos com essas pessoas. Esses conflitos colocam-nos no limite, puxando suas personalidades à extremos que dão vazão ao desespero.

Os dois protagonistas aparecem sempre como vítimas das circunstâncias, sem que quase nunca exista má fé ou maldade em suas ações. Norman e Norma são como animais acuados, lutando por sobrevivência e é isso que faz deles personagens tão atraentes. As infindáveis injustiças a que são submetidos, os tornam mais relacionáveis. Isso é particularmente perceptível com o rapaz Bates, que chega a ser digno de pena, tamanho seu sofrimento psíquico.

White Pine Bay surge então como o ambiente que causa e cerceia esse sofrimento, com seus cidadãos malignos e seus planos de desviar a rodovia que leva pessoas até o motel. O problema é que todo esse núcleo, fortemente presente nas três primeiras temporadas, é simplesmente horrível.

Em toda discussão sobre o Psicose de Hitchcock, fala-se sobre o MacGuffin, um elemento que serve apenas para colocar o enredo em movimento, sem valor narrativo real. No caso em questão, o MacGuffin era a maleta de dinheiro que Marion Crane rouba de seu chefe e que a leva ao fatal encontro com o motel Bates. Ao assistir a série, fica a impressão de que absolutamente tudo que não envolve diretamente Norma e Norman era um grande MacGuffin mal elaborado, feito por alguém que não entendeu bem o conceito e que ocupa 80% do seriado.

A produção atual de séries parece ter crescido vertiginosamente nos últimos anos, o que me leva a crer que uma quantidade ainda maior de programas tem sido descartados diariamente na indústria, alguns na fase de roteiros, outros na pré-produção e uns durante e depois das temporadas mais atuais. Essa trama “urbana” vista em Bates Motel parece ser proveniente de um desses roteiros descartados, por um argumento ou texto fracos.

Soma-se ainda um elenco majoritariamente medíocre, como tem acontecido com diversas séries, e o resultado é quase tão ruim quanto ser esfaqueado no chuveiro. Nesse ponto vale trazer para a conversa mais uma vez as sequências de Psicose. Tirando Anthony Perkins, que emana um carisma sem igual no papel, as outras performances também são bem ruins, mas isso não chega a ser um problema por um motivo bem simples: anos 80.

Há algo nessa década em que as três sequências foram lançadas que grita por atuações caricatas e personagens estranhos. O seriado não dispõe desse luxo e, levando-se muito a sério, traz para a superfície a fraqueza de seu elenco. Mas é aí que Vera Farmiga e Freddie Highmore entram.

Taxidermia é um hobby saudável, nem um pouco estranho para um adolescente…

As encarnações dos Bates

Somando as duas diferentes mídias, Norman Bates foi interpretado por cinco atores diferentes: Anthony Perkins (PsicosePsicose IV), Henry Thomas (Psicose IV), Kurt Paul (Bates Motel, 1987), Vince Vaughn (Psicose, remake de Gus Van Sant) e Freddie Highmore (Bates Motel, 2013). A linha de atuação de Perkins ditou os contornos e trejeitos do personagem, de forma que os outros apenas se espelharam no mesmo. Highmore é o mais bem sucedido em “imitar” o original, ao mesmo tempo que traz consigo uma série de nuances psicológicas que Perkins nunca apresentou.

A evolução de Highmore ao longo das temporadas é notável, com a última contendo o melhor de sua atuação. Os pontos altos são os de maior dramaticidade, em que Norman revela um lado explosivo e/ou desesperado, além das fantásticas cenas em que se transforma inteiramente em sua mãe. Nos filmes, essa representação tem pouco destaque, mas aqui é absolutamente brilhante. Essa dupla personalidade surge da incapacidade do rapaz em lidar com seus conflitos internos e a realidade de seus atos, demandando por algo que algumas vertentes da psicologia chamam de ego-auxiliar.

Da mesma forma que Highmore se desenvolve ao longo das cinco temporadas, Vera Farmiga toma completamente as rédeas da personagem. Ao contrário de seu filho em cena, ela teve uma liberdade de atuação muito maior, já que não estava encenando um papel previamente estabelecido por outra atriz. Com seus próprios trejeitos e maneirismos, ela entrega uma personagem muito marcante, completamente oposta ao puritanismo e calma de sua Lorraine Warren, papel que a tem consagrado nos últimos anos.

Apesar de cheia de méritos, é uma performance que oscila entre momentos de genialidade e alguns bem ruins. Na última temporada, há uma espécie de inversão de papéis, em que ela frequentemente interpreta não a Norma original, mas a versão criada no psicológico do próprio filho. Existe uma mescla muito interessante de performances entre os dois atores, que estão no ápice de sua sintonia. A Norma Bates de Vera Farmiga parece ser a principal inspiração de Lili Taylor interpretando a matriarca da família Sawyer em Leatherface.

O único outro personagem com uma atuação realmente forte, que conquista seu espaço nas duas últimas temporadas é o Xerife Romero, interpretado por Nestor Carbonell. Surpreende imensamente a semelhança entre Carbonell e Anthony Perkins, sendo o primeiro uma espécie de versão do mediterrâneo, com as mesmas sobrancelhas e o mesmo sorriso.

Aparentemente alguém esqueceu o guarda-chuva…

O grand finale

Ao longo de quatro temporadas e quase cinquenta episódios, Bates Motel sofreu com enrolação e subtramas mal escritas, desinteressantes e completamente esquecíveis. Quem conseguiu dar conta do recado, levados pelo fio de esperança oferecida por Norman e Norma, foi largamente recompensado.

Na temporada final, o plot mais urbano foi totalmente aposentado, trazendo o foco para a loucura de Norman. É interessante observar que esse abandono refletiu não somente na storyline, mas também na estética do seriado. Ao invés de planos abertos e bem iluminados, frequentemente utilizado nos espaços mais amplos e cheios de pessoas, a série adotou um estilo intimista, com planos fechados e escuros, mais de acordo com o humor lábil do gerente do motel Bates.

Um dos momentos mais aguardados pelos fãs era a chegada de Marion Crane, a primeira vítima em cena de Norman Bates no cinema, que já fora interpretada por Janet Leigh, no original, e por Anne Heche, no remake. Nessa terceira encarnação, quem traz vida a srta. Crane é a cantora pop Rihanna. Claro que a Internet ferveu com a notícia, mas a passagem dela pela série foi mediana a ponto de realmente não importar.

O mais interessante de sua participação, apesar disso, foi a possibilidade que a série trouxe de dialogar com a trama original, mas de forma inventiva. Em um dos episódios, Marion Crane toma seu banho, que em outra realidade lhe custaria a vida. Mas ela o faz apenas para sair do banho dizendo algo como “foda-se isso tudo”, quebrando a expectativa do público de forma agressiva. Essa cena sozinha pareceu-me até boba, uma tentativa rebelde de se distanciar de sua fonte. Porém, mais adiante na temporada, há uma outra cena do chuveiro, que dá aquele sacode geral.

Ao invés de uma mulher, a vítima do chuveiro é um homem, mais especificamente Sam Loomis. No filme, Loomis era o amante apaixonado que vai em busca de sua amada Marion. Na série, o personagem sofre um revés, tornando-se um homem babaca, que brinca com as mulheres de sua vida – Marion e sua esposa. Quando Norman o mata, ficamos de frente com um ato de “justiça”. Norman não é mais um mero assassino de mulheres, mas quase que um anti-herói deturpado e doentio.

É difícil afirmar que uma série em que ¼ dos episódios varia de péssimo a fraco é totalmente compensada por uma temporada final primorosa. Acredito que o ideal, para a maior apreciação de Bates Motel, é o apego ao duo principal acima de todo o resto, observando e acompanhando sua tragédia recheada de elementos psicológicos interessantes.

A série poderia muito bem ter se aproveitado de uma duração mais curta, com menor foco em tramas paralelas e uma exploração um pouco maior do ato violento de Norman, já que o intuito era fazer uma exposição total do personagem. Apesar disso, tem o seu valor. Infelizmente o series finale conclui a saga de Bates com um ponto final muito claro, que encerra a possibilidade de novas histórias, como ocorre em seu parente cinematográfico.

Ele não machucaria uma mosca!


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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