TBT #17 – Quadrilogia REC

“Grave tudo! Pela p*ta da tua mãe”


Interrompemos a sua leitura diária para um caso urgente! Um prédio foi interditado pela vigilância sanitária e ninguém entra nem sai. Temos informações de que o local só será liberado após teste de imunidade em todos os seus moradores. Vamos agora com a nossa informante exclusiva e que nos reporta tudo de dentro do prédio. É com você Ângela.

Prólogo

… E pensar que esta seria mais uma noite corriqueira de meu programa noturno “Enquanto Você Dorme”… Estava Pablo, meu cinegrafista, e eu filmando uma noite ordinária – além de chata e interminável – do corpo de bombeiros local. Até então nada demais para um programa que na verdade ninguém vê, até que soa o alarme e num piscar de olhos eu e meu fiel escudeiro estamos correndo para dentro do caminhão dos bombeiros a fim de atender a um chamado. Até que enfim uma emoção!

Os simpáticos bombeiros Manu e Alex nos deixam acompanhá-los para dentro do local e lá tomamos maiores informações sobre o caso: uma senhora aparentemente caiu dentro de seu apartamento e, a analisar por seus gritos e barulhos, se machucou, e os bombeiros, além da polícia já presente, foram acionados para tomar as devidas providências para ajudar a pobre mulher. Subimos para registrar o atendimento. Há a necessidade de arrombar a porta para adentrar ao apartamento… Ela aparentemente está ensanguentada e seus gatos sumiram todos… Entramos e nos aproximamos para acalmar a senhora visivelmente assustada, apavorada… Um dos policiais se aproxima para conversar…

… e o problema acaba de começar.

Antes…

Capítulo 1 – Não importa o que aconteça, continue gravando!

Mal sabia que este seria o evento originário de uma série terrível de acontecimentos que se prolonga por muito tempo. Intitulado [REC], com alusão ao que pedi na época para o Pablo em não parar de gravar por nada – claro, meu dever era registrar tudo para que o mundo soubesse! -, este fenômeno filmado sem cortes foi ao ar no ano de 2007.

Lembro que muitas pessoas na época pensaram que eu e aquelas pessoas que viveram todo aquele horror estávamos fingindo e sabíamos de tudo. Ledo engano, pois não imaginávamos, nem em nossos piores pesadelos, o minuto seguinte e tudo aquilo de fato foi real: estávamos sujeitos ao cansaço, estresse, medo, pavor. Sem edição, o mundo presenciou em ordem cronológica aquela epidemia – pelo menos até então pensava isso – se alastrando pelo prédio residencial na cidade de Barcelona e em como o vírus desconhecido ia tomando um a um.

Até hoje algumas cenas assombram meus pesadelos mais temidos: a velha mordendo a jugular do policial, o Álex sendo jogado do segundo andar e caindo de cara no hall do prédio, a criança sendo acometida pelo tal vírus, sua mãe sendo devorada presa à escada, a menina Medeiros…

Quando entrei naquele último apartamento, praticamente na cobertura do prédio, pretendia encontrar apenas um local seguro para que eu e Pablo pudéssemos nos salvar e talvez encontrar uma saída. Mas o que encontramos foram bizarras fotos de crianças ao redor do mundo e alguns recortes de jornal relatando exorcismos, com uma menina angelical chama Tristana Medeiros da Souza. Ao som do gravador reproduzindo uma fita antiga com a bizarra narração dos fatos que mais se aproximavam de uma cria de um cientista louco envolvendo até o Vaticano, somos tomados pelo medo de que há algo muito errado ali.

Sabe quando os seus piores medos se materializam? Foi o que pensei ao ver pela visão noturna da câmera aquela criatura magérrima e horripilante esgueirando-se pelos cômodos, saindo das trevas. Quando Pablo foi morto brutalmente a marteladas pelo monstro Medeiros, fiquei apavorada ao tentar fugir e, quem sabe, sobreviver. Consegui apenas alguns passos sem me fazer ser percebida pela tenebrosa entidade quase que decrépita em meio ao total breu que era aquele quarto. Mas fui capturada por ela e a escuridão tomou posse de mim.

Tá precisando tomar uns whey!

Capítulo 2 – A fuga do mal

Como se já não bastasse todo o terror que acabara de viver, este ainda era apenas o início. Como todo o prédio estava interditado e lacrado pelo departamento de ameaças biológicas, ninguém entrava ou saía. A esta altura, o único meio de comunicação entre as pessoas infectadas e o mundo exterior era um dos policiais que há tempos contraíra a doença desconhecida.

A missão dada à um grupo especial da polícia era simples: proteção à um cientista especializado para busca e apreensão de uma amostra do vírus a fim de se criar o antídoto. Como ninguém sabia ao certo o que este vírus solto poderia representar caso se espalhasse, melhor prevenir do que remediar. Sem saber ao certo o porquê do grupo especial ter sido solicitado a implementar em seus capacetes câmeras para gravar absolutamente tudo ao seu redor dentro do prédio, esta operação que deveria ser secreta teve seu vazamento “acidental” em rede nacional e carinhosamente o nomearam de [REC]² – Possuídos.

Ao passar pelo túnel de plástico e adentrar ao prédio já fedendo a morte e sangue, logo no hall deparam-se com a inocente mãe de Jennifer, aquela encantadora criança que possuía amidalite e num piscar de olhos tornara-se mais um dos infectados. As marcas do sofrimento vividos por aqueles que agora agem por impulso à violência são nítidas em todos os cantos analisados pelo grupo. Porém o doutor é frio e cauteloso. Insiste que a missão é apenas achar a amostra pelo qual foram designados e até sabe onde o encontrar. No último quarto, praticamente na cobertura do prédio. Parece que ele sabe demais…

Ao mesmo tempo que o grupo fazia a busca dentro do prédio, um pai aflito do lado de fora com sua trouxinha de remédios para sua enferma filha convence um bombeiro que possui as plantas dos esgotos a entrar por uma passagem alternativa – passagem esta que tentávamos antes, porém sem sucesso. Mas junto dos dois intrusos, três jovens da era digital os seguem para este que seria o seu derradeiro cemitério. Mal sabiam eles do que os aguardava, e do que eu passaria.

É em situações extremas que as pessoas se mostram, não? E é quando um certo doutor se mostra padre que as coisas começam a se clarear. Seria possível o puro mal se tornar um vírus contagioso? A fé misturada com a ciência daria certo? Quando houve o insucesso do exorcismo da menina Medeiros, o Vaticano autorizou um padre a realizar experimentos científicos para criar-se um antídoto do mal a partir de seu sangue. Este seria o fim de todo o caos no mundo, correto? Ótima ideia, até o momento em que o experimento dá errado a tal da menina é trancada na escuridão com todas as suas “crias” e frutos de seu sangue infectado. Sei bem do que falo porque fui acometida pelo puro mal.

Quando a escuridão me pegou e a Medeiros me puxou, estava crente de que meu destino seria igual ao de todos no prédio: busca pela violência e finalmente a morte. Mas a essência da maldade possui muitas artimanhas e me tornei uma hospedeira quando sem escolha engoli um verme que se instalou em minhas entranhas, esperando pelo momento certo para poder sair e espalhar a maldade pelo mundo. Esta era a deixa mais do que perfeita para que o mal crônico que acometeu a pequena Tristana há anos, pudesse sair de sua prisão escura. Eu vi e senti a tribulação chegar e se apoderar de mim. O sofrimento era grande.

A prisão para o mal nada mais é do que a escuridão mais negra que se possa imaginar. O vazio, o nada. E é por ela que o doutor e seu grupo especial conseguem me encontrar, pela porta recém descoberta pela escuridão que seus olhos não poderiam enxergar. E o final não poderia ser pior: como eu mesma anunciei recriando a voz do doutor, sou a única sobrevivente não infectada. Hora de me libertar.

Corra que o bombeiro possuído vem aí!

Capítulo 3 – O começo

Casamentos são sempre dias festivos com muita risada, emoção e confraternização. Ou deveriam ser, dadas algumas variáveis, de por exemplo, um cachorro ter mordido um convidado presente na festa. Nada demais se não levasse em consideração a triste constatação de que o cachorro era o mesmo presente no prédio onde estava presa. Ele havia se machucado numa briga com um gato e ficou enfermo, além de violento.

Estranho pensar que um registro pessoal e um profissional possam ter filmado todos os detalhes daquele início da vida conjugal de Clara e Koldo. Além de todos os elementos de praxe de um casamento, o que não poderia faltar também é aquele tio bêbado, figura sempre presente em reuniões familiares. Mas ao contrário do convencional, o tio não estava bêbado nem chato. Estava infectado!

Este episódio o qual batizei carinhosamente de [REC]³: Gênesis tem como ápice de todo o desencadeamento catastrófico dos acontecimentos, a tentativa do tio em morder outra pessoa, e a consequente vomitada, assim começando a horda de pessoas violentas sedentas por sangue. Não é difícil imaginar o quão ficaram assustadas com a condição de saúde deste rapaz, haja em vista tudo o que já passei. Porém não sei como reagiria a esta situação se acontecesse em meu casamento. Provavelmente não tão diferente da forte Clara.

Ela se mostrou uma pessoa destemida, forte, capaz de enfrentar tudo à sua frente para reencontrar seu amado recém-esposo. Vale qualquer tipo de arma à vista para se proteger e abrir caminho – mesmo que pelos mares de sangue – até novamente sentir o abraço aconchegante de seu marido, mesmo que pela última vez antes de que o mesmo se torne um daqueles que custou tanto a matar e sobreviver. O amor é realmente lindo e e por ele, pode-se fazer tudo. Na saúde e na doença, no amor e na tristeza, até que a morte os separe. Ou os una. Este deveria ser o dia mais feliz do casal…

Deve estar se perguntando em como poderia saber de tudo e a resposta é simples: tudo o que é ruim a Internet espalha. Então, como as filmagens caseiras e profissionais de Koldo e Clara – que descansem em paz – caíram na rede e viralizaram, as vi e percebi que, pelo cachorro de Jennifer e o gato da senhora, os eventos estavam interligados. A gênese destes acontecimentos tiveram origem na fadada noite corriqueira de meu programa “Enquanto Você Dorme” e se estenderam pelas horas seguintes. As filmagens amadoras não cobriam toda a gama dos eventos, mas lembro do resto da “festa” como se estivesse lá. Talvez fosse a ligação do subconsciente da escuridão que já havia tomado a minha pessoa…

Esta história deveria acabar pois lutava comigo mesmo dentro de um espaço escuro e frio. Queria dar um basta. E consegui!

Inspirada por Ash Williams!

Capítulo 4 – O fim

Ao ver as luzes da rua e a porta do amplo saguão se abrindo me trouxe um mix de alívio e felicidade. Aquelas horas enclausuradas naquele prédio foram as mais longas de minha vida. Porém a felicidade durou pouco e com o mesmo brilho e clarão que aflorou a minha felicidade, me fez apagar e cair num profundo desmaio.

Acordei num laboratório dentro de um navio aparentemente militar. Haviam feito em mim experimentos – creio eu – e estava sendo observada. Estranho que não me lembrava de todos os eventos ocorridos anteriormente e me senti encurralada. Queria que o pesadelo acabasse, mas parecia interminável. Apesar de algumas pessoas ali serem mais afetivas das quais tinha companhia no prédio, porém longe de ser as que gostaria ao meu lado depois de tanto horror.

Ao me mostrarem os vídeos coletados da Tristana Medeiros, comecei a recordar pouco a pouco o que acontecera comigo lá. Me sentia à salvo estando no barco das operações especiais, porém estranha por parecer ter alguém ao lado, ou dentro de mim. Um segundo eu, que batia para poder sair. Seria apenas um espasmo do que poderia ser um mecanismo de defesa depois do que passei? Ou algo que realmente ficou dentro de mim? Não me lembro.

Queria lutar e sair daquele barco no meio do nada. Quem menos eu imaginaria que poderia me ajudar, um fã de um esquecido programa que ninguém assistia, foi quem me apoiou. Não obstante lutar pela minha vida, também deveria provar minha inocência. Sou vítima de um infeliz acontecimento em Barcelona, onde por minha força consegui escapar com vida. A única sobrevivente. Poxa, será que ninguém acredita em mim?

Soube que havia uma fita recuperada no último quarto, quase na cobertura do prédio, onde a famigerada criatura da escuridão havia me passado um verme o qual instalou-se em minhas entranhas. Virei uma hospedeira.Tristana havia me infectado. “Deus, por que eu?!” perguntei a mim mesma lembrando do caso, mas ao mesmo tempo me sentia tão eu mesma, quanto nunca antes havia sentido. Tinha força para provar que aquilo, de uma maneira ou outra, não estava mais comigo. Não sei como, mas não estava mais.

Tentaram me cortar e me mutilar para tentar achar algo que sabia que não me pertencia mais: a maldade outrora em mim havia se dissipado. Será que em minha luta interna eu pedi à Deus e Ele me libertou? Ou engano a mim mesma para que acredite que não há nada de errado pois me tornei uma pessoa ruim? Acredito em meu coração e lutei com todas as forças para sobreviver naquele maldito barco.

Lembro-me que por já ter conhecido a escuridão, poderia encontrar e detecta-la em outra pessoa. Guzmán, um dos homens do resgate, é um rosto conhecido porém ameaçador. Sim! A escuridão havia encontrado um novo hospedeiro mais forte e onde nenhuma dúvida pairava sobre a índole da pessoa que na verdade acabara de entrar no prédio. Preciso e eficaz, porém a maldade não contava com quem já havia estado do mesmo lado que ela. Precisava acabar com isso e matá-lo para libertar sua alma.

Epílogo

Este episódio poderia classificar como [REC]4: Apocalipse, pois pela ordem cronológica creio que este tenha sido o começo do fim. Analisando a fé agregada à ciência pode ser que estes acontecimentos se formem como o primeiro dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse: a Peste. Criar um vírus a partir de uma criança com a escuridão em seu corpo à mando da Igreja Católica é algo com o qual sempre pensarei como sendo o começo do fim.

Hoje consigo descrever com todas as letras que, após o navio explodir e meu fã e eu termos sobrevivido, sou uma mulher que paira entre o bem e o mal. Conheci a luz bem como a escuridão. E nunca mais quero viver este pesadelo novamente. Mas tenho a certeza de que, se nos olhos de outrém eu enxergar o escuro da pura maldade, eu irei matá-lo com toda a p*rra da certeza!

… depois!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: