TBT #18 – Guinea Pig

Infame franquia japonesa que causou burburinho ao ser acusada de filme snuff

Não necessariamente é preciso ter assistido a um filme snuff para saber do que se trata. Caso você não saiba, um snuff é um longa onde as mortes vistas na tela não são frutos de efeitos práticos ou CGI, mas sim mortes autênticas. Onde a pessoa que morreu em tela realmente passou dessa pra melhor. Por mais que, até hoje, sustenta-se que esse subgênero maldito não exista de verdade.

Mas, de longa data o cinema de horror passa por poucas e boas, com filmes sendo acusados de terem cometido verdadeiras atrocidades em frente às câmeras, tá aí Ruggero Deodato e seu Cannibal Holocaust que não me deixam mentir (isso se deixarmos a fatídica cena da tartaruga de fora da discussão). Mas na década de 80, uma série que caiu na boca do povo por conta de boatos de ser uma coleção de legítimos filmes snuff foi a japonesa Guinea Pig, idealizada pelo mangaká Hideshi Hino, especializado em obras de horror, tendo em seu currículo alguns títulos como Oninbo e os Vermes do Inferno, O Garoto Verme, Serpente Vermelha e Panorama do Inferno. O conceito que Hino originalmente havia pensado era uma série de adaptações de seus trabalhos no mangá.

Guinea Pig (a tradução seria Porquinho da Índia, ou Cobaia, como também conhecemos), faz jus ao título e nada mais é do que uma…cobaia. Um curta-metragem feito como um exercício de maquiagem de alguns estudantes de EFX. Porém, muitos espectadores desavisados não sabiam dessa informação, até porque nunca foi a ideia dos produtores divulgar isso, justamente para usar aqueles que assistiam como, novamente, cobaias, para ter a certeza de que os efeitos eram realistas o suficiente.

Apesar de fazer sucesso entre o público japonês e se tornar uma lenda, foi apenas no final dos anos 80 e início dos anos 90 que a cinesérie acabou vindo à tona e causando um verdadeiro escândalo. Em 1991, Chris Gore, um palestrante e escritor focado em cinema independente, deu uma cópia em VHS do segundo filme da franquia, Flowers of Flesh and Blood, para ninguém menos que Charlie Sheen. Ao assistir a fita, Sheen, chocado por pensar estar vendo um genuíno snuff, contatou o FBI, que foi direto nos detentores dos direitos de distribuição da série nos EUA e os botou contra a parede, querendo saber da legitimidade do filme.

Cisco no olho

Após uma longa troca de informações e um contato com as autoridades japonesas, que, por sinal, já estavam investigando os produtores devido ao sucesso do filme em sua terra natal, toda a equipe de Guinea Pig foi levada até a delegacia, onde foram entrevistados. A coisa poderia ter tomado um rumo bem menos drástico, mas a cereja do bolo foi que, poucos anos antes, o serial killer japonês, Tsutomu Miyazaki, foi preso e, em sua casa, encontrada uma coleção com mais de cinco mil fitas que incluíam diversos animes e, claro, filmes de horror, sendo a maioria  slasher movies.

E entre essa gigantesca coleção de cinco mil cópias havia, adivinha? Os dois filmes lançados, até então, da série Guinea Pig. Depois de toda essa treta, a produtora foi obrigada a relançar, em conjunto com os filmes, um making of mostrando todo o processo de produção. Desde o planejamento das cenas até a derradeira maquiagem ultra-realista que causou tanto alvoroço, com o fim de provar que as mortes eram realmente falsas. Vendo hoje em dia, algumas pessoas ainda podem se surpreender. Mas para alguns malucos feito nós aqui do 101HM, já é óbvio que tudo não passa de efeitos práticos, muito dos bem feitos.

Caso você não conheça nada sobre a série, aqui vai um resumo rápido sobre cada capítulo.

Guinea Pig – The Devil’s Experiment: Um grupo de homens sequestra uma mulher e torturam-na de todas as maneiras possíveis que conseguirem como uma experiência para ver o quanto de dor o corpo humano consegue aguentar.

Guinea Pig – Flowers of Flesh and Blood: O mais famoso da série, que caiu nas mãos de Charlie Sheen. Uma mulher é sequestrada e quando acorda, dá de cara com um misterioso homem vestido de samurai que a droga e inicia um processo bizarramente cuidadoso de desmembramento.

Guinea Pig – He Never Dies!: Um homem toma um fora da namorada, que o troca pelo melhor amigo. Deprimido e de coração partido, o rapaz resolve se suicidar, apenas para descobrir que não sente dor e não consegue morrer. Ele então usa isso a seu favor e bola um plano pra traumatizar o amigo e a ex-namorada. A partir desse capítulo, a série deixa de lado o tom soturno, perturbador e documental e segue numa veia de humor negro splatstick extremamente violento.

Guinea Pig – Devil Woman Doctor: Inicialmente gravado como o quarto capítulo, foi o sexto a ser lançado. O filme é apresentado na forma de diversas esquetes onde um doutor transsexual trata seus pacientes com desmembramentos, assassinatos e torturas, seguindo na mesma linha cômica do anterior.

Guinea Pig – Android of Notre Dame: Um cientista está tentando desenvolver a cura para a gravíssima doença de sua irmã, mas precisa de alguma cobaia. Um estranho então oferece um cadáver para os experimentos. Após falhar, o cientista, com raiva, retalha o cadáver, precisando buscar outro com o mesmo fornecedor.

Guinea Pig – Mermaid in a Manhole: Um pintor recém viúvo encontra uma sereia no canal de esgoto das ruas de Okinawa e a leva para sua casa com a intenção de pintar um retrato da mesma. Ao chegar, percebe que a criatura está desenvolvendo feridas pútridas pelo corpo e o artista resolve usar o sangue e pus como tinta. O filme, baseado em uma obra de Hideshi Hino, assume novamente um tom mais dramático dessa vez.

Os filmes, pra um ardoroso fã do cinema de horror e principalmente para os entusiastas do horror extremo, pode não surpreender muito e, para alguns, pode parecer até mesmo parado e arrastado. Mas, se você, como eu, se interessa por essas pérolas do cinema de horror nipônico e ficar intrigado por toda a história que cerca a franquia, dê uma chance, seja uma cobaia (hein???!!!!) porque, com certeza, será uma experiência única.

Meus braços, não sinto meus braços!


Angelus Burkert
Angelus Burkert
Psicopata em formação. Pegou gosto pelo cinema de horror após ir até a sessão de VHS de terror na locadora e olhar todas as capas de filmes possíveis. Fã confesso de música e games, provável que não mude nada com o passar dos anos, exceto o amor pela carnificina.

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