TBT #19 – Guia de Vídeo Terror

O IMDb em papel dos filmes de terror lançados em VHS no Brasil


Recentemente eu mudei de casa, e nessa verdadeira história sem fim que é desencaixotar as tralhas e organizar tudo na nova humilde residência, no momento de tirar meus livros das caixas de papelão para colocá-los em seus respectivos lugares na estante, me deparei com o Guia de Vídeo Terror, com uma lindeza putrefata estampando sua capa.

Publicado pela Editora Escala, em qual ano não sei precisar, uma vez que não encontrei essa informação em nenhum canto do livreto, mas provavelmente, no final dos anos 90, talvez 1998 ou 1999 (já que cita filmes como Pânico e Anaconda) Guia de Vídeo Terror era uma espécie de compilação com lista de filmes do gênero pré-IMDb, e pré-1001 Filmes Para Se Ver Antes de Morrer (ou a versão pocket de 101 filmes de terror).

O compêndio terrorífico foi um presente que meu melhor amigo, Bruno Golfette, me deu, quando comprou em uma banca de rodoviária, ao ir para Minas Gerais passar uma temporada de férias com o pai, quando decidiu gastar alguns trocados comprando algo para ler durante a longa estrada. Em tempo, o valor foi de R$ 3,80.

A publicação foi editada por Guilherme de Martino, em uma época que os cinéfilos e colecionadores dependiam destes catálogos, tipo os Guias de Vídeo imortalizados pela Nova Cultural, para ter uma espécie de base de dados de filmes, que vinham geralmente com uma breve resenha e cotação. Tipo um Filmow, mas escrito por críticos, jornalistas e pessoas da área. Sério, nunca pensei que ia usar o Filmow como exemplo para nada nessa vida, mas segue o baile…

Ao total, o Guia de Vídeo Terror contabiliza 470 filmes, com suas devidas notas (cinco estrelas para “Excelente” e uma bomba para, hã, “Bomba”) que segundo o texto da espirituosa contracapa, “irão satisfazer seu apetite demente!”, dos clássicos do cinema mudo até os splatters (primeira vez que ouvi falar da nomenclatura do subgênero), trazendo de novidades a raridades, lançadas no mercado do home vídeo no Brasil.

E sim, estou falando de VHS mesmo, aquela tecnologia analógica arcaica que tínhamos de rebobinar antes de devolver à locadora.

O trabalho de garimpo é sensacional, e foi um dos meus primeiros contatos quando adolescente, fora coisa ou outra lida na saudosa Revista SET, com um tipo de jornalismo específico voltado ao gênero, e uma lista de centenas de filmes, muitos deles que eu nem fazia ideia que existiam.

Começa com um prefácio trazendo brevemente a história do gênero, desde os clássicos da Universal, passando pelo cinema de Val Lewton, os filmes interativos de William Castle nos anos 50, o cinema de horror mais próximo de nós dos anos 60, os lançamentos marginais, ousados e violentos dos anos 70, o terrir e slasher dos anos 80, e a derrocada do terror nos anos 90, até seu ressurgimento graças a alguns sucessos de bilheteria como Pânico e Os Espíritos, de Peter Jackson. Um belo resumão para os menos escolados que quebra um galho.

Ainda cabe senso de humor e crítica mordaz por parte do escriba do guia, reclamando do péssimo mercado de distribuição no país (“sempre em passo de morto-vivo”, conota em sua jocosidade) que nunca lançaram  em PT-BR para o videocassete, grandes clássicos como Os Inocentes, Desafio do Além, Sangue de Pantera, A Máscara de Satã, Suspiria e Eraserhead (diferente da gringa, onde naquele fim de século, essas obras vinham ganhando cópias restauradas em VHS e até mesmo em, pasmem, LASER DISC).

Também cabe uma pitada de ousadia e alegria, ao incluir em sua lista, filmes que habitualmente não são considerados de terror, mas ousados e radicais o suficiente a ponto de serem considerados interessantes para nós, fãs do gênero. Entre os “dramas” presentes, assim mesmo, entre aspas, estão O Colecionador, Henry – Retrato de um Assassino, Possessão, O Mensageiro do Diabo e As Diabólicas, que segundo ele, e assino embaixo – algo que já discuti tanto aqui no 101HM quanto na mesa de bar – encontram relação com os filmes de horror e thrillers e emprestam elementos dos mesmos por sua estilização ou abordagem mais intensa do que os gêneros que são comumente associados.

Segue então uma SENHORA LISTA por ordem alfabética, que começa com À Meia-Noite Levarei sua Alma e encerra com Zumbis do Mal, trazendo o título original, a cotação, país, ano de lançamento, direção, elenco, uma breve sinopse contendo alguns pitacos do editor, duração e a distribuidora na época.

Ainda, como serviço de utilidade pública, o Guia de Vídeo Terror dá um endereço de algumas revendas de fitas VHS aqui em São Paulo (que obviamente já fecharam todas, muitas provavelmente tendo se transformado em Igreja Evangélica), onde os colecionadores poderiam encontrar alguns dos filmes citados na publicação, entre elas uma saudosa 2001 Vídeo da Av. Paulista, algumas  no centro da cidade, nas galerias da 24 de Maio e São Bento e uma porrada na Zona Norte, onde ficava a sede da editora naqueles idos. Um verdadeiro deleite!

Vendo este livro, bate aquela sensação de nostalgia quando o devorei pela primeira vez, quando era virgenzão nesse universo lá na minha adolescência, e explica muito do trabalho que comecei a fazer – quem sabe até inconscientemente – uns muitos anos depois aqui no 101HM, que começou com um blog exatamente com lista de filmes, com suas respectivas resenhas, e a ideia de catalogar o gênero com minhas avaliações para a posteridade.

E hoje em dia só basta agradecer a todas as divindades possíveis pelo advento da Internet, e com ela, a capacidade de podermos assistir a todos os mais de 400 filmes destacados no Guia de Vídeo Terror, e tantos e tantos outros, que não foram para o impresso ou lançados aqui na República das Bananas, por conta das queridas distribuidoras, modus operandi que se manteve depois na época do DVD e mesmo hoje nos serviços de streaming, que infelizmente acaba limitando e alienando uma porrada de gente preguiçosa, que adoram a inexorável pergunta: “Tem na Netflix” e não gasta a porcaria da ponta do dedo procurando outras formas de se chegar ao filme.

Pensa se essa galeria ia levantar a bunda do sofá e ir numa revenda de fita VHS usada na Voluntários da Pátria ou numa locadora na Rua dos Buritis só para encontrar aquele filme de terror alucinante?


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

7 Comentários

  1. Não seria lindo alguém escanear essa relíquia e transformar em pdf? 😉

  2. caralho voltei no tempo lendo o texto, comprei o guia do terror em Dezembro de 1997 (é a data do lançamento oficial) e também foi minha “bíblia” dos filmes de terror numa época sem internet,lembro que cheguei a marcar todos os filmes que eu assisti com uma caneta marca texto azul.Devido a uma burrice acabei vendendo em 2000, porém em 2016 consegui novamente comprar o guia no mercado livre.Bem que poderiam lançar uma nova edição atualizada ou quem sabe o 101 horror movies não lança seus textos em forma de livro???

  3. Ed disse:

    Estes serviços de Streaming atuais são uma desgraça no que diz respeito a filmes antigos, nem a Oldflix se salva, catálogo pobre e interface difícil

  4. Eduardo Cesar diniz disse:

    Poxa, vocês poderiam escanear e compartilhar essa preciosidade!

  5. Para quem tinha pedido o Guia em PDF, segue o link. Pode divulgar. Ah, o editor desse material me autorizou a usar!
    https://drive.google.com/file/d/1WRe3X5_Y1Y1szNQ2cdm6zdT5KQz1bdIW/view

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: