HQRROR #56 – Halloween

A curta e relativamente desconhecida passagem de Michael Myers pela nona arte


Halloween – A Noite do Terror estreou nos cinemas em 1978 e mudou para sempre o cinema de horror. A franquia criada por John Carpenter e Debra Hill introduziu um dos mais icônicos assassinos mascarados do cinema, Michael Myers, e se tornou um sucesso estrondoso. Com filmes relativamente baratos, a franquia acumulava em 2008, quando estes valores foram corrigidos, cerca mais de 366 milhões de dólares em bilheteria ao redor do mundo. Michael Myers se tornou tão popular que logo virou um fenômeno multimídia, chegando aos games, livros, merchandising e, é claro, aos quadrinhos.

A primeira revista em quadrinhos da série, chamada apenas Halloween, foi publicada pela Chaos! Comics em outubro de 2000. Escrita por Phil Nutman e ilustrada por David Brewer, deveria ser apenas uma edição especial em comemoração ao Dia das Bruxas, mas acabou gerando duas continuações, Halloween II: The Blackest Eyes e Halloween III: The Devil’s Eyes. Ambas escritas por Phil Nutman e Daniel Farrands, roteirista de Halloween 6 – A Última Vingança, e ilustradas por Jerry Beck e Justiniano, respectivamente em abril e novembro de 2001.

O conceito por trás desta trilogia inicial de quadrinhos da franquia é baseado no pitch descartado de Halloween: Ressurreição, onde Tommy Doyle, protagonista do sexto filme da série, estaria injustamente cumprindo pena em Smith’s Grove pelos crimes de Myers. Tommy fugiria do manicômio e partiria em busca do assassino e após o confronto final, a verdadeira identidade de Myers seria revelada como um plot twist de explodir a cabeça.

Página de Halloween II: The Blackest Eyes.

Em 2003, às voltas com as comemorações de 25 anos do primeiro filme, o roteirista Stefan Hutchinson se uniu ao artista Peter Fielding, para criar a HQ, Good Scare, uma edição one-shot lançada de maneira independente em uma convenção de fãs da franquia, que apresenta uma jovem Lindsey Wallace, a garotinha que estava com Tommy quando viram Myers pela primeira vez no filme original. A ideia de Hutchinson era resgatar o estilo do horror do filme de Carpenter e usar sua HQ para obter os direitos da série para histórias futuras.

Infelizmente o autor nunca conseguiu concluir seu projeto, mas teve uma nova oportunidade de produzir uma história em quadrinhos com Michael Myers quando trabalhou com o diretor/ produtor Malek Akkad na produção do documentário Halloween: 25 Years of Terror. A dupla desenvolveu diversas ideias para histórias conectando a franquia em uma história maior e que poderiam dar origens a novos filmes da série.

O projeto nunca foi executado, mas uma das histórias criadas pela dupla, Halloween: Autopsis, escrita por Hutchinson e ilustrada por Marcus Smith e Nick Dismas, sobre um fotógrafo contratado para conseguir fotos de Myers, foi incluída como encarte do DVD do documentário, lançado em julho de 2006.

Página de Halloween: Good Scare.

Com o reboot da franquia em 2007, uma nova leva de histórias em quadrinhos dando continuidade aos filmes originais foi planejada pela Devil’s Due Publishing que, finalmente deu a oportunidade de Hutchinson realizar o seu sonho. A editora apresentou a proposta ao diretor Malek Akkad que se juntou ao amigo para criar uma série de histórias de Halloween, inspirados pela boa recepção de One Good Scare. Segundo Hutchinson, “muitos fãs encontraram nos quadrinhos aquilo que estavam procurando nas sequências cinematográficas”. Suas aventuras traziam Myers de volta às suas raízes, muito mais próximo do conceito de “o mal” do que o assassino mascarado genérico dos anos 80 e 90.

Halloween: Nightdance, uma minissérie de quatro partes, escrita por Hutchinson e ilustrada por Tim Seeley, chegou às comic shops americanas em fevereiro de 2008, ano em que a série completaria 30 anos. A história, situada entre Halloween: H20 – 20 Anos Depois e Halloween: Ressurreição, mostra Michael Myers perseguindo uma garota que sofre de escotofobia crônica, ou apenas medo de escuro. Segundo o autor, suas histórias apresentavam uma tentativa de fugir da confusa cronologia da série cinematográfica, transformando Myers em uma “força crível e perigosa”.

A Devil’s Due ainda publicou em 2008 a minissérie em três partes, Halloween: The First Death of Laurie Strode, escrita por Hutchinson e ilustrada por Jeff Zornow, preenchendo as lacunas entre Halloween 2 – O Pesadelo Continua e Halloween: H20 – 20 Anos Depois, e Halloween: 30 Years of Terror, uma antologia trazendo diversos contos de personagens secundários da franquia, escrita por Hutchinson e ilustrada por Ed Dukeshire. A antologia foi publicada em setembro de 2008, às vésperas do mês das bruxas e, infelizmente, permanece como a última revista em quadrinhos da franquia publicada nos EUA.

Ao contrário de seus “colegas” como Freddy Krueger e Jason Voorhees, Myers não teve uma vida muito longa nos quadrinhos. Talvez a mídia não consiga traduzir com exatidão o medo constante de suas aparições aqui e ali, sempre quase escondido no canto do olho, como Carpenter imaginou com perfeição lá em 1978. Os quadrinhos podem não tenham encontrado um coadjuvante tão poderoso como Dr. Loomis ou Laurie Strode. Fato é que, mesmo com sua curta passagem pela nona arte, Michael Myers só reforçou sua posição como uma das figuras mais marcantes e poderosas do cinema de horror. Não importa a mídia.

Capa de Halloween: Nighdance #1.

 

 


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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